Boletim Arte na Escola

Identificar o que é arte. Definir arte contemporânea. Ensinar arte contemporânea na escola. Tudo isso muitas vezes pode se transformar em um grande desafio para o professor. Para tentar compreender um pouco este revolucionário universo da arte do nosso tempo e como transportá-lo para a sala de aula, o Instituto Arte na Escola pesquisou e ouviu vários educadores envolvidos com esta temática.

A artista e pensadora francesa Anne Cauquelin utiliza, no livro Arte contemporânea: uma introdução (Ed. Martins, 2005), um conceito denominado Sistema de Arte, uma intrincada rede de comunicação, tecnologia e consumo, composta por vários atores, como arte-educadores, marchands, críticos, colecionadores, museus, galerias, entre outros. Para ela, a arte sai do campo da emoção para ingressar no universo do pensamento.

O filósofo Celso Favaretto faz uma provocação no documentário Isto é arte?, que compõe a DVDteca Arte na Escola:"Muita obra moderna é um belo horror", brinca. Ele sugere que em meados do século XX há uma ruptura no mundo das artes, quando a obra se transforma em objeto e as estéticas do belo e do feio se confundem. "Uma coisa é falar que o objeto da arte é a beleza. Outra coisa bem diferente é falar que uma obra de arte é objeto. A palavra obra não consegue mais dar conta das transformações ocorridas nas artes", diz.

Na concepção da professora Manoela dos Anjos Afonso, da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG), a arte contemporânea é multidisciplinar e os artistas "têm experimentado construir diálogos com práticas e teorias provenientes de outros campos do conhecimento". "Um trabalho artístico que antes podia ser definido claramente como desenho, pintura, escultura ou gravura, hoje muitas vezes não se acomoda tão facilmente em apenas uma dessas categorias", diz Manoela.

Uma boa maneira de entender a produção artística contemporânea é a perspectiva de que ela "se relaciona de forma crítica com seu tempo e não em busca de propriedades supostamente universais ou eternas", frisa Mirtes Marins de Oliveira, graduada em Artes Plásticas pela USP e Doutora em Filosofia e História da Educação pela PUC-SP.

"A incorporação de novos materiais que não são os tradicionais; a importância intrínseca do processo artístico; a existência ou não de objetos como resultado desses processos; e a impossibilidade de categorizar tais objetos dentro das definições modernas das linguagens existentes são alguns exemplos da arte contemporânea”, aponta.

Transposição didática

A coordenadora do Polo Arte na Escola na Universidade Federal de Uberlândia, Eliane Tinoco, que trabalhou a arte contemporânea na formação continuada dos professores em 2012, destaca que as premissas para fazer a transposição didática da arte contemporânea para a sala de aula são as mesmas para qualquer manifestação artística: planejamento, experiência artística e um ambiente adequado para a aprendizagem.

Ela conta que o projeto de formação teve início com o envio para a casa das professoras de um cartão postal com imagens de arte contemporânea e uma proposição: elaborar um trabalho plástico-visual a partir da percepção artística do professor. "Essas professoras conseguiram não só compreender o projeto poético desses artistas como também produzir relações de sentido entre eles, facilitando a compreensão do rol de possibilidades da arte contemporânea para seus alunos", destaca Eliane.

Para Manoela dos Anjos, o professor que escolher a arte contemporânea como projeto pedagógico "caminhará muito mais por territórios que evocam combinações de informações históricas, entrecruzamentos de conceitos, compreensão de jogos de linguagem e expansão de práticas, do que por terrenos acomodados por definições e cronologias exatas provenientes de abordagens lineares da história da arte".

Mirtes Marins defende clareza sobre os conceitos artísticos que se quer trabalhar, articulados aos conceitos do campo educacional. "É necessário ter em perspectiva que o maior aprendizado é, além da construção de repertórios, a busca de uma precisão conceitual, assim falar sobre arte é um exercício vital e sem fim", afirma.

Formação

Uma questão que preocupa quem trabalha com formação de professores em artes é se os cursos de bacharelado e licenciatura estão adaptando seus currículos para a didática e a prática da arte contemporânea.

Manoela dos Anjos recentemente participou da reformulação das matrizes curriculares da UFG e pesquisou o tema em outras instituições que ofertavam o curso de Licenciatura em Artes Visuais. "Tenho a sensação de que a formação do licenciado em artes visuais tem melhorado muito no que diz respeito à abordagem da arte contemporânea", diz. Ela propõe uma prática colaborativa dos currículos. “Os professores devem trabalhar o currículo juntos, um ajudando e colaborando com o outro. Assim podemos chegar a melhores resultados no que diz respeito ao professor recém-formado que chega à escola", afirma.

Mirtes Marins vê um "anacronismo" na universidade quando o assunto é arte contemporânea. "Não se trata simplesmente de implantar conteúdos sobre arte contemporânea ou de tirar as disciplinas da tradição – o desenho, por exemplo – mas retomá-las de uma perspectiva histórica e crítica", afirma. Ela defende uma "discussão qualificada" sobre o papel do professor na sociedade. "Quando se compreende o professor como um intelectual – um agente social que é capaz de pensar, propor e agir – ele pode decidir sobre suas concepções, escolhas e práticas", diz.

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