Boletim Arte na Escola

“Quando o professor trabalha a arte contemporânea na sala de aula, ele tem que estar preparado para o imponderável, para as respostas inesperadas dos alunos.” - Marcia Cirne Lima

1 - No documentário Isto é arte?, do acervo da DVDteca Arte na Escola, o filósofo Celso Favaretto diz que a arte contemporânea ressuscitou a dúvida sobre o que é arte. Qual a sua definição de arte contemporânea?

A arte contemporânea é a dos dias de hoje e é também a que leva em conta as rupturas de linguagem de que fala o professor Celso. Justamente por estar muito próxima no tempo ainda não temos o aval da história da arte, das coleções de museus para nos garantirem que o que vemos é arte. Por isso ficamos um pouco perdidos. A nossa zona de conforto está muito mais na arte moderna. No final dos anos 1960 há uma ruptura de linguagens. O interesse dos artistas não está mais na habilidade do fazer, na capacidade de representar com grande veracidade as cenas da vida, dos sonhos, recriadas numa espécie de janela para o imaginário. Luigi Pareyson fala no fazer-pensar-fazer em arte moderna como o processo em que são definidas as regras da obra de arte, regras internas, estabelecidas ao ser feita a obra e não por qualquer parâmetro externo. Não há mais uma hierarquia onde o fazer é menos importante do que o pensar. É um pensamento válido para a arte contemporânea também se considerarmos também fazeres não artesanais, como operações poéticas.

2 – Na sua oficina para a Rede Arte na Escola, em 2012, você cita o artista Carlos Fajardo quando ele diz que arte não se ensina, se aprende. Você concorda?

O que está por trás deste quase trocadilho? Fajardo está tirando o foco do ensino e colocando o foco na aprendizagem. O papel do professor é criar situações de aprendizagem para que o aluno se desenvolva. É propor desafios para que os alunos passem por experiências estéticas. Nesse processo o aluno constroi repertório próprio que, somado ao que traz o professor, cria pontes de acesso à arte. O aluno se sente mais corajoso e capaz de participar do universo da arte contemporânea.

3 - Como planejar uma situação de aprendizagem?

É preciso planejar cuidadosamente a aula, cuidar da formulação de desafios que podem ser propostos tanto pela escolha de materiais disponibilizados quanto pela arrumação do espaço ou por uma questão sem, contudo, fechar as respostas num resultado ou objeto pré-determinado. Quando o professor trabalha a arte contemporânea na sala de aula, ele tem que estar preparado para o imponderável, para as respostas inesperadas dos alunos. O desafio que o professor propõe é a boia de salvação de todos. Porque é em torno deste desafio que a aula vai girar. Ao vivenciar a experiência de ser o autor de imagens e objetos, o aluno estabelece relações a partir do repertório dele, tanto nas suas pesquisas pessoais quanto para enfrentar desafios propostos pelo professor. É assim que ele passa por experiências artísticas.

4- Qual é o maior desafio do professor para ensinar arte contemporânea?

A arte contemporânea cria para o professor uma situação de questionamento que ele deve ter diante de tudo. Ele precisa pensar na sua própria prática, pensar no que realmente entende de arte. O professor tem que apostar na sua própria experiência diante da obra de arte. Quando ele vai ao encontro da obra de arte disposto, preparado para o que não sabe, para o que pode perturbar, o professor aprende. É da experiência artística do professor que saem os desafios para os alunos. Ao mesmo tempo, o professor não pode fazer um desafio tão grande que paralise os alunos. Aí entram os saberes do educador, tais como conhecer as características de cada faixa etária.

5 - Há uma idade certa para aprender arte contemporânea?

O que não pode haver é uma escolarização da arte. Na educação infantil, a aprendizagem se dá pela experiência, as áreas estão todas interligadas. Desenhar é uma matéria que entra em atrito com outra superfície e deixa uma marca, não importa se é com lápis no papel ou com argila no chão do pátio. Isto tem muito de arte contemporânea! Quando o professor apresenta uma obra de arte para crianças maiores, a obra parece que dá um aval ao que foi proposto. E isto não quer dizer necessariamente que a situação de aprendizagem em torno da experiência estética proposta tenha potência de aprendizagem. Quando eu dei aula no Ensino Médio percebi que o importante é fazer o aluno olhar para onde o artista olha. É entender a poética do artista. Se o professor mostra o trabalho do artista antes e explica o que o artista fez, pode parecer que se está apresentando um modelo. É diferente quando o professor propõe mostrar para onde o artista olhou porque o aluno faz seu percurso e ganha repertório para olhar a obra do artista com maior autonomia.

6 – Como o professor pode ampliar o seu repertório de arte contemporânea?

O assunto repertório de arte é sempre um desafio. O professor precisa olhar arte, pensar sobre arte, estudar arte. O professor tem, sim, que cuidar do seu repertório. O repertório do professor é uma das importantes qualificações dele. É ponto de partida. Um dos papéis do ensino de arte na escola é que os estudantes se reconheçam como parte de uma cultura, que eles atuem na cultura. Para isso, o professor sempre pode garantir uma boa dose de situações de aprendizagem por experiências estéticas, possibilitando um maior grau de autoria aos alunos. Assim, a sala de aula de artes é na escola um lugar privilegiado porque mantém, ao longo da escolaridade, espaço para esta maneira diferente de aprender.

Marcia Cirne Lima - Formada pela FAAP (1980) em Licenciatura plena em Arte, coordenou o projeto Fim de Semana na Escola da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (1984/85) onde as escolas ficavam abertas para atividades planejadas com a comunidade, lecionou no Ensino Médio da Escola Vera Cruz em São Paulo, desenvolveu curso para professores e alunos em projeto do Instituto Tomie Ohtake. Já atuou como artista e desenvolve esporadicamente atividades de design gráfico. Foi coordenadora do núcleo de arte da Comunidade Educativa CEDAC, orientando as oficinas que são realizadas em diversos programas de formação de educadores de redes públicas em Minas Gerais, Maranhão, Pará e Espírito Santo.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Paula , 22:24 - 20/05/2013
    Arte contempôranea na escola possibilita ao professor muitas descobertas interessantes, faz pensar a propria existência. Testa seu limite como educador, amplia seu repertorio muito além das expectativas.

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