Boletim Arte na Escola

SIM
Minha formação profissional, enquanto fazia faculdade de artes visuais, foi em galerias de arte contemporânea. Antes de iniciar a vida acadêmica nem sequer sabia o que era uma instalação e, de repente, me deparei com esse mundo que até então era estranho para mim. Foi quando tive que estudar para compreender o que era essa arte e principalmente as questões que levam um determinado artista a construir a sua poética. Então li textos não só de arte, mas de antropologia, filosofia, das questões que permeiam o homem contemporâneo. Assim pude perceber a grandeza dessa arte que torna visível essas questões e que está tão próxima de nós, apesar de muitos acharem que se distancia pela sua complexidade. Estudar a arte contemporânea é como estudar o homem contemporâneo.

Quando comecei a ensinar numa escola observei resistência em relação à arte contemporânea. Então resolvi quebrar essa rejeição e esse preconceito levando algumas turmas juntamente com a coordenação e professores para uma exposição da artista Lúcia Koch, Matemática Espontânea. Usando cobogós e filtros que atuam sobre a luz própria de cada ambiente, ela cria aparatos de comunicação entre dentro e fora, afetando o sujeito que entra na exposição. Uma instalação muito delicada, este trabalho dialogava com a arquitetura da nossa cidade. A turma ficou encantada e minha coordenadora fez a seguinte colocação: “A experiência foi maravilhosa, mas se eu tivesse vindo só, sem a sua mediação, não entenderia nada e continuaria sem gostar da arte contemporânea. Por que isso acontece?”.

Naquele momento, início de minha carreira como professora, respondi que o problema era uma lacuna enorme no ensino de arte, que nós não aprendemos a ler a arte contemporânea. Mas até hoje reflito sobre esse questionamento. Talvez a dificuldade maior seja de compreender o mundo contemporâneo. Essa experiência me deu abertura para inserir essa arte no currículo da escola, e anos depois esses mesmos alunos produziriam uma revista de crítica de arte contemporânea.

Flávia Roberta Alves Costa - Especialista em Arte-Educação (Arte na Escola? Como a Arte se insere nos projetos didáticos na Escola) na Unicap/PE (2009), licenciada em Educação Artística/Artes Plásticas pela UFPE (2006). Atuou como mediadora nas principais instituições culturais do Recife. Trabalhou como consultora de Arte-Educação para a Fundação Gilberto Freire e Galeria Ranulpho no concurso de releitura da obra de Vicente do Rego Monteiro. Ganhadora do Prêmio de Educação Asa Branca em 2008 e do Prêmio Arte na Escola Cidadã 2009 na categoria Ensino Médio, com o projeto “Arte: impressão e expressão que transformam”. Atualmente é professora da Prefeitura do Recife e da Escola Arco-Íris.

NÃO
A disciplina de Arte tem como parte de suas funções inserir o indivíduo nas diferentes linguagens artísticas, no desenvolvimento da linguagem estética e aspectos cognitivos da criatividade, na ampliação da percepção do olhar, no desenvolvimento do pensamento crítico, no conhecimento de sua singularidade perante o mundo, do seu eu, do mundo e suas diferentes culturas.

Todo movimento ou escola artística possui artistas consagrados que representam com muita força e clareza sua trajetória. Para o Neoclássico temos, por exemplo, Jacques-Louis David, para Impressionismo, Monet, para o Cubismo, Picasso.

A arte contemporânea é consagrada por artistas como Damien Hirst, que delegou a execução de algumas de suas obras a assistentes, instruindo-os como proceder, iniciar e finalizar a obra; Jeff Koons, que foi processado por várias “apropriações” indevidas de obras alheias, entre outras coisas. Autores de obras milionárias como os banais balões de animais feitos em aço, latinhas de fezes químicas idênticas a de seres humanos, tela contendo esterco de elefante em sua composição, larvas, etc. Quanto mais bizarro e quanto mais chamar a atenção da mídia, melhor, porque o mais importante não é a obra em si, mas o espaço que ela ocupará na mídia. Um marketing que transformará o artista em uma marca ou grife a ser vendida.

“Quando um artista se torna uma marca, o mercado tende a aceitar como legítima qualquer coisa que ele apresente”, conta Don Thompson, economista, colecionador e autor do livro O tubarão de 12 milhões de dólares (Revista Superinteressante, n. 315, p. 55, fev.2013).

Trata-se de obras vazias de conteúdo e que nada acrescentam, dependendo sempre de um texto para poder ter algum sentido, recebendo assim seu respaldo teórico. A obra passa de objeto artístico para produto de marketing e o discurso passa a ser mais importante que a obra. "Um dos fenômenos mais sintomáticos da crise que atinge grande parte da arte contemporânea é a substituição do criador pelo teórico" (GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. Rio de Janeiro: Revan, 1993. p. 79).

É claro que no meio de tanto joio há um pouco de trigo, mas infelizmente trata-se de minoria, geralmente não reconhecida.

Como incentivar os alunos às práticas artísticas introduzindo-os no mundo da arte contemporânea se ao estudar os grandes mestres ele constatará que o artista muitas vezes não coloca se quer a mão na obra? Com o ensino da arte contemporânea, no qual o fake, a repetição e as obras são, em geral, desprovidas de conteúdo, seria possível estimular a criatividade e o desenvolvimento do pensamento crítico?

Muitos professores não conseguem entender a arte contemporânea e assim encontram uma enorme dificuldade para elaborar planos de aula e bons projetos. É difícil esclarecer tais dúvidas em um tempo em que o parâmetro para saber o que é arte nada depende da análise da obra em si, mas sim do texto explicativo composto para ela e o nome do artista. Como explicar ao aluno que a torneira de ponta cabeça que viu em uma prateleira de sua casa não é arte, enquanto a torneira de ponta cabeça com um bom texto escrito por um curador e exposta em um museu é arte?

Artigo completo: Dificuldades para ensinar arte contemporânea.

Rodanthi Mihail Moudatsos - Licenciada em Artes Visuais pela Faculdade de Educação e Cultura Montessori (2009) e em Percepção Visual no Centro de Estudos da Percepção Visual e Aplicação Plástico Visual -Atellier L' Osservatorio Figurale (2012).

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