Boletim Arte na Escola

Demorou, mas as escolas brasileiras começam a vivenciar um processo de transformação. Sai o velho modelo de aula expositiva, com o professor falando e escrevendo na lousa e os alunos copiando, com disciplinas estanques e distantes da realidade. Entra um ensino personalizado, com o aluno protagonista do saber, elaborado por projetos interdisciplinares e com conteúdos que façam sentido para a vida e para o futuro dos alunos. A comunidade é convidada a participar. O uso adequado das novas tecnologias ganha destaque. E a formação contínua do professor é cada vez mais exigida como garantia da aprendizagem.

Neste novo cenário, o ensino de Artes ganha relevância e torna-se um aliado imprescindível para tornar o ambiente escolar mais criativo, atraente e democrático.

Esta nova dinâmica vem acompanhada de vários movimentos no Brasil e no mundo. Um deles é a Rede Internacional de Escolas Criativas, idealizada pelo professor espanhol Saturnino de la Torre (veja entrevista ). Ela nasceu em junho de 2012 e já atua no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, México, Peru e Portugal.

A coordenadora da rede no Brasil, professora Vera Lúcia de Souza e Silva, da FURB - Universidade Regional de Blumenau, explica que a finalidade desta ação educativa inovadora "está assentada na pesquisa colaborativa, na formação transdisciplinar e ecoformadora, e na possibilidade de mobilidade de docentes para uma formação de qualidade, progressiva e sustentável, tanto no âmbito científico como humano". Atualmente, o Brasil tem quatro escolas na rede.

Na opinião do reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa, a Arte é um elemento central de qualquer currículo, de qualquer escola. Nóvoa sustenta ainda que a formação dos professores deve ser feita através "de dinâmicas de reflexão sobre a prática e de cooperação com os colegas mais experientes, ideias que sublinham a importância do professor reflexivo e do trabalho colaborativo".

Outra experiência inovadora de educação e ensino de Artes acontece no novo Museu de Arte do Rio, o MAR, inaugurado em março passado, e que abriga a Escola do Olhar, um espaço onde o professor é o protagonista. A nova instituição tem 11 salas desenhadas especificamente para a pesquisa e a formação continuada e já firmou parcerias com universidades e institutos de pesquisa. “Queremos o olhar do professor de Artes com atitude, com cidadania, conhecendo o seu território", afirma a gerente de educação do MAR, Janaína Melo.

Janaína diz que após a formação, os professores recebem uma vista da equipe da Escola do Olhar para conhecer como o trabalho está influenciando a aprendizagem dos alunos em sala de aula.

Em breve haverá cursos de artes para os alunos, para curadores e também para a comunidade. "Queremos formar uma escola do saber em Artes, um saber compartilhado", afirma a gerente de educação.

As novas experiências educativas brasileiras são tema de um documentário que será exibido no segundo semestre deste ano. "Quanto sinto que já sei" é uma parceria entre três jovens - Antonio Lovato, Anderson Lima e Raul Perez – que decidiram viajar pelo Brasil em busca de propostas educacionais inovadoras. Foram mais de 50 entrevistas e visitas a sete instituições que estão transformando o modo de ensinar.

Lovato conta que teve a ideia do documentário quando conheceu a experiência inovadora do educador Eurípedes Barsanulfo. "Nos anos de 1920 ele construiu uma escola onde meninos e meninas estudavam juntos, era multisseriada e havia professores negros". Nas suas andanças, o jovem cineasta constatou que a arte está sempre presente nestes projetos que estão mudando a cara da escola. A “arte alimenta a expressividade e a criatividade. Ela não segrega e faz o aluno ser protagonista do aprendizado", diz.

A experiência aproximou os jovens de outro movimento internacional, as chamadas Escolas Democráticas. Atualmente, segundo ele, são cerca de 100 colégios democráticos em todo o mundo. O documentário rendeu o convite para representarem o Brasil na reevo.org, um projeto para construir um espaço na internet que promova iniciativas educativas centradas em um aprendizado pleno e no desenvolvimento humano, respeitando a cultura do seu entorno.

Uma das instituições visitadas por Lovato é a escola municipal Desembargador Amorim Lima, no bairro do Butantã, em São Paulo. Símbolo de que é possível construir uma escola pública de qualidade, a Amorim Lima usou como referência a Escola da Ponte, em Portugal, uma das pioneiras e principais responsáveis por esta linha de renovação. A diretora da Amorim Lima, Ana Siqueira, conta que a cultura e a comunidade foram os grandes responsáveis pela mudança radical da escola, há 17 anos.

"A partir de uma Festa Junina, priorizamos a cultura popular brasileira. Para os jovens, que reclamaram que não podiam mais tocar suas músicas, criamos um Festival de Música. Tudo isto com o envolvimento da comunidade do entorno", lembra. A partir daí, a escola começou a criar várias oficinas de dança, música, capoeira. Ana relata que uma das mães resgatou com as outras mães como eram as brincadeiras de infância. Todas decidiram recriar estas brincadeiras com os filhos no final das aulas, na sexta-feira. Algum tempo depois, as mães formaram uma companhia de teatro. E as oficinas, que antes eram no contraturno, passaram a fazer parte da grade escolar.

Ana Siqueira faz questão de dizer que outro ponto determinante foi mudar a estética da escola. "Quebramos paredes, tiramos as grades, pintamos o cinza de laranja, fizemos jardins. Uma aluna disse: ainda bem que vocês tiraram as grades; não somos loucos nem estamos presos", recorda a diretora. Na concepção dela, esta mudança de olhar, de estética, aliada ao apoio da comunidade, tornaram a Amorim Lima uma escola onde todos gostam de estudar. "Sem a comunidade este projeto não teria dado nenhum passo. E nós traçamos o projeto de escola a partir da Cultura e da Arte. E a Arte faz o mundo".

Comentários Deixe o seu comentário

  • Lucia Lyra de Serpa Pinto, 20:33 - 26/07/2013
    A arte pode ser o eixo central de transformações nas escolas. Quando faz parte de conteúdos contextualizados, permite que todos: alunos, professores, diretores, pais e comunidade se apropriem dos conhecimentos e participem de projetos e eventos na comunidade escolar, aproximando todos.
  • Weslley Cunha, 16:11 - 08/08/2013
    A transformação na forma de educar é muito importante para que o aluno goste de estar na escola, com projetos como o Festival de Música, ter oficinas de dança, música, capoeira, Teatro entre outros. Esses projetos fazem com que o aluno goste de estar no ambiente escolar !!!

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