Boletim Arte na Escola

O catedrático de Didática e Inovação Educacional da Universidade de Barcelona e criador da Rede Internacional de Escolas Criativas diz que instruir não é educar uma criança.

1 – Como conquistar uma educação de qualidade?
Uma sociedade que não valoriza a educação e o professor perde a consciência do futuro. O futuro de um país não está na tecnologia, nem em preparar excelentes especialistas, mas sim em elevar o nível cultural, artístico e ético dos seus cidadãos. Essa é a chave de uma cidadania cuja formação se reverterá para toda a sociedade. Mas a qualidade transforma-se muitas vezes em um slogan de um discurso administrativo e político, longe da prática docente, do reconhecimento social do professor, do investimento na formação e na promoção de experiências inovadoras e criativas. O melhor exemplo de qualidade humana é encontrado em escolas e instituições criativas. Em escolas que se propõem a tirar o melhor de cada aluno e desenvolver seu potencial. Delas sairão cidadãos e profissionais alegres e capazes de fazer avançar a sociedade nas mais diversas áreas. Uma sociedade plural precisa de engenheiros, advogados, médicos, administradores, mas também de artistas que são o fermento dos valores humanos, que se entregam à criação e desfrutam do seu trabalho, como ocorre com os bons professores.

2- De que forma a Arte pode ajudar a escola a ser mais atraente para os alunos?
As manifestações artísticas são, no geral, a expressão criativa por excelência. A arte é criação em todas as suas manifestações, uma vez que implica a sensibilidade e a complexidade das pessoas, intuição e imprevisibilidade no processo, manejo dos recursos e linguagens, com respeito ao ambiente e originalidade no resultado ou no produto. Neste sentido, criam-se ambientes propícios para estimular a criatividade visual, plástica, sonora, cênica, corporal e de qualquer outro tipo. A arte muda a percepção da pessoa e o mundo interior dela.

3 - Como formar um bom professor de Arte?
Um bom professor deve ter três tipos de competências básicas: didática para saber comunicar, atrair, impressionar e motivar a autoaprendizagem; psicopedagogia para saber adaptar o conteúdo à idade e maturidade dos alunos; e domínio dos conteúdos curriculares para saber recriá-los, transformá-los e enriquecê-los com as experiências de vida, que são as principais fontes de aprendizagem. As duas primeiras competências são comuns a qualquer professor. Um bom professor precisa ainda ter criatividade para surpreender, estimular e despertar no aluno a crença de que ele pode aprender por si mesmo. Um professor de Arte tem que dominar o código do seu campo de forma teórica e prática. Se ensina pintura, tem que saber pintar; se música, compor; se artes plásticas, modelar ou esculpir; se artes cênicas, desempenhar papéis diferentes. Um bom professor de Artes cria espaços e cenários para o estudante se surpreender e surpeender o seu professor com suas criações. Quando ele conseguir isso, terá deixado uma marca criativa em seus alunos.

4 – De que maneira a família e a comunidade podem trabalhar juntos para melhorar o aprendizado dos estudantes?
"Para educar uma criança, é preciso toda a tribo", diz J. A. Marina (escritor e filósofo espanhol), citando um provérbio africano em seu livro "A Educação de Talentos". A família, a escola, o bairro, a comunidade, a cidade inteira se convertem em cenários educativos. Uma coisa é instruir, transmitir conhecimentos, outra é formar e educar uma criança, um adolescente ou um jovem. Para instruir basta um professor medíocre, um "ensinante" ou um trabalhador do ensino, como alguns sindicalistas preferem chamar. O professor não é um trabalhador do ensino, nem tampouco um médico é um trabalhador da saúde. São profissões que vão além das horas estabelecidas pelo relógio, como absurdamente pretendem algumas administrações. Pretender "medir" a hora trabalhada do professor é anular a sua consciência e sua missão educativa e torná-lo um "ensinante". A função educativa e formadora requerem a colaboração da família, das instituições municipais, da comunidade porque formar valores não se faz mediante lições escolares, mas de lições de vida. Como trabalhar juntos? Convertendo a escola em espaço a serviço da comunidade, dos vizinhos, alunos, ONGs, atividades culturais e esportivas, celebrações de festas. A interação é a melhor estratégia didática para a educação sistêmica e integral. Como tal, a escola ou outro espaço da comunidade, tornam-se cenários de formação.

5 - Como será a escola do futuro?
Tenho um duplo prognóstico sobre a escola do futuro. Um, pessimista, em que ela seguirá mantendo a mesma estrutura curricular e se apegando a modelos do passado, e outro, de um movimento com escolas inovadoras e criativas, adaptadas aos novos tempos. As políticas do governo seguem escravas de diretrizes e normas internacionais, priorizando as disciplinas tradicionais, como matemática, ciências, línguas e leitura e subestimando as disciplinas baseadas no âmbito artístico e expressivo, mais estumladoras da criatividade. Também seguirá prevalecendo o discurso do desenvolvimento acadêmico baseado na internacionalização e padronização dos resultados, na homogeneização, nos padrões e medidas fornecidas por agências como o Pisa (exame internacional de avalição da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Serão escolas da segunda onda da industrialização que preparam para a competitividade. Em outra vertente, encontramos escolas e instituições educativas que adotam o discurso do desenvolvimento humano, que preparam competências para a vida e despertam o potencial de seus alunos e a ampliação da consciência tanto pessoal como social, ambiental e planetária. Escolas preocupadas com a sustentabilidade, como a escola municipal Visconde de Taunay, em Blumenau, que recebeu recentemente o reconhecimento da Rede Internacional de Escolas Criativas, com sede em Barcelona, na Espanha. Cada vez teremos mais escolas como esta e as que estão trabalhando em outras cidades de Santa Catarina, como Orleans, Vargem Bonita, ou outros Estados, como São Paulo, Fortaleza, Goiás. Elas compõem um importante movimento para a mudança que queremos na educação.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Sayonara Ramos Abreu Soares, 19:08 - 01/09/2013
    Eu acredito, sim, no poder transformador da Arte. Só que em muitos momentos, a falta de apoio e a total falta de estrutura faz com que fiquemos totalmente desanimados. O número excessivo de turmas também é um fator que acaba comprometendo os resultados. Falar de Arte na teoria é muito fácil, mas na prática, com escolas sucateadas, são outros quinhentos. Na verdade, somos verdadeiros artistas!
  • Raquel Todeschini, 12:27 - 24/11/2013
    Concordo com as respostas dadas, porém é fundamental pensar nos formadores dos formadores. Precisamos de professores de arte com conhecimento suficiente para navegar pelo amplo leque de linguagens artísticas, chega de professores que que só trabalham com cênicas, com música ou plásticas e não estão abertos às amplas possibilidades de outros conhecimentos.

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