Boletim Arte na Escola

Sim

Sabemos que a escola é um ambiente coletivo, complexo, com uma diversidade de várias ordens, e enfrenta problemas como a desprofissionalização dos professores e demais profissionais da educação, condições de trabalho desfavoráveis, classes com elevado número de alunos, e falta sentido na educação e na escola para muitos estudantes. Tais condições desafiam até mesmo professores experientes e com sólida formação pedagógica.
É por isso que a docência requer uma visão ampla da sociedade, uma compreensão de seus problemas, de seus impactos sobre os alunos e a escola, da educação, da instituição escolar, da prática docente como prática social, da profissão docente, de aprendizagem e desenvolvimento humano. Requer, também, curiosidade pelo conhecimento e capacidade de pesquisar.
O professor de Música, além disso, necessita de uma sólida formação pedagógica. Deve ser um músico sensível, capaz de promover uma prática com fazeres articulados de execução (tocar instrumentos e/ou cantar), composição (criar arranjos musicais, improvisar) e apreciação musical, enriquecidos com conhecimentos de e sobre música, e oferecer técnicas que promovam uma prática musical significativa e uma compreensão da diversidade da música da sua cultura e de outras. Deve,
também, ser capaz de considerar a vivência musical do aluno fora da escola, seus interesses e significados musicais, de compreender e acompanhar os seus processos de aprendizagem.
A falta de uma formação ampla, pedagógica e musical inviabiliza uma prática consciente e contextualizada, que dialoga com a realidade social e institucional, de compreensão e valorização dos alunos, suas experiências e seus interesses. Pode, também, gerar uma prática imitativa, baseada num modelo que não atende às realidades tão distintas e desafiadoras das escolas da Educação Básica no Brasil, ou ainda colocar a aula de música em função de outras disciplinas e objetivos, sem alcançar o desenvolvimento musical e cultural do aluno.
Walkíria Teresa Firmino Lobato - é Mestre em Educação pela Universidade de Brasília, especializada em Música Brasileira, licenciada em Educação Musical e Bacharel em Música.

Não

Sou violinista e licenciado em música e reconheço muito bem o valor dos professores especialistas na minha formação. Entretanto, é necessário destacar que também tive o privilégio de aprender com professores que, mesmo reconhecendo suas próprias limitações no domínio da música, foram capazes de me cativar, semeando em mim um “deslumbramento musical” que dura até hoje.
Destaco que meu objetivo não é fazer apologia a uma polivalência simplista e superficial que tanto marcou de forma negativa o ensino da arte no Brasil, mas de destacar que a problemática da formação acadêmica do professor de Música é complexa e deve, por exemplo, ser analisada para cada etapa da Educação Básica. Dessa forma, meu ponto de vista não é de que qualquer um pode dar aulas de Música, mas que o professor unidocente pode, se bem orientado e por meio de parcerias com especialistas, fazer um excelente trabalho, mesmo sem formação acadêmica na área. Esse professor, também chamado generalista, normalmente atua
na Educação Infantil e nos anos iniciais da Educação Básica e tem uma função importante na formação das crianças, pois é o único que tem a possibilidade de trabalhar com todas as áreas do conhecimento (incluindo a Música) de forma não fragmentada. Entretanto, por conta da abrangência de sua formação, é raro que possa se aprofundar academicamente na Música.
Não podemos afirmar, entretanto, que educadores e professores não têm condições de fazer um bom trabalho em Educação Musical apenas porque não têm formação. Evidentemente, não se pode ensinar o que não se sabe, mas está fora de questão afirmar que este professor não sabe nada de Música. Sua relação com
ela se iniciou antes mesmo de nascer, e representa um conjunto de experiências musicais que podem ajudá-lo a sistematizar ações sérias para o ensino.
Uma das alternativas é o trabalho colaborativo entre professores generalistas e especialistas, como se verifica no projeto de pesquisa realizado em conjunto entre a UFPR e a SME de Curitiba, em seu terceiro ano. Essas parcerias permitem afirmar que o professor de Educação Infantil é capaz de construir conhecimento de alto nível
em Educação Musical, mesmo sem formação acadêmica em Música. Afirmo que em certas situações não é fundamental que o professor tenha formação acadêmica em Música, como é o caso dos primeiros anos de escolarização. Entretanto, isso não o exime de buscar exaustivamente informações sobre como levar música às suas crianças, o que inclui a ampliação de repertório e muita pesquisa.
Guilherme Romanelli - é graduado em Educação Artística – Habilitação em Música pela Faculdade de Artes do Paraná, Doutor e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná, onde é professor adjunto.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Julia Pinho, 10:21 - 12/10/2013
    Sim No Pará, para ministrar o conteúdo de música proposto pela SEDUC é necessária a formação em música. Os professores com Licenciatura em Artes Plásticas não possuem a capacitação para desenvolver, de forma integral, esse conteúdo que se tornou obrigatório dentro da displina Artes. Julia Pinho - Arquiteta e Licenciada em Artes Plásticas pela UFPA.
  • Sandra Goemes Pereira, 11:45 - 17/10/2013
    Eu acredito que a formação musical de professores não especialistas em música nos cursos de licenciatura em pedagogia possibilitam uma aproximação dos alunos da educação básica com o universo musical. Esses profissionais através do dia a dia e com conhecimentos didáticos e metodológicos terão condições, quando preparados a mostrar as infinitas possibilidades que a música é capaz de oferecer no aprendizado de qualquer disciplina. A Música, sendo oferecida aos poucos às crianças, no dia a dia escolar, será uma maneira de deixar essas crianças mais críticas e, pelo menos, serem bons ouvintes. A Educação Musical tem que vir desde cedo na vida das crianças que com certeza, transformariam-se em ouvintes mais criteriosos e com isso, melhoraria a qualidade das músicas que nos são despejadas pela mídia.. músicas "quadrúpedes", de éguas e cachorras.....
  • Maria das Dores da Silva Cardoso, 02:11 - 16/11/2013
    Acredito que sim.... O profissional da música pode sim ensinar sem formação, porém em ambientes não institucionais. Naqueles que são regidos pelas Diretrizes e Bases da Educação Nacional, visto que é bem claro ser necessário ter formação, o profissional deve ser habilitado como os demais professores.
  • Lidiane Cristina Loiola Souza, 11:58 - 04/12/2013
    Não. Minha formação é um Artes Visuais e no ano de 2012 realizei um projeto maravilhoso de possibilidades musicais na educação infantil. Participei de formação e fiz leituras que me deram embasamentos para tornar esse momento possível com as crianças! Esse projeto foi premiado neste ano pela revista Nova Escola como "Educador nota 10", e mostra as possibilidades musicais na sala de aula. Enviei também para o Prêmio Arte na Escola, no entanto não fui premiada. É possível sim um trabalho tanto com música quanto com as outras linguagens. Não estamos formando músicos, mas sim pessoas com um "ouvir" mais atento.

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