Boletim Arte na Escola

Estamos em obra e produzindo arte
Materiais da obra foram tema de um inusitado ensaio fotográfico

Barulho, bagunça, poeira, coisas fora do lugar. Reformar é sinônimo de transtorno e desordem, certo? Não quando o endereço da reforma é uma escola transbordante de criatividade, que extraiu da ampliação da sua sede, em 2012, a matéria-prima para um ano inteiro de atividades artísticas. Em rápidas pinceladas: assim que os acordes das primeiras marteladas invadiram a sala do sexto ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental 25 de Julho, em Ivoti, interior do Rio Grande do Sul, a professora Cecília Etzberger pediu para que os alunos prestassem atenção ao ritmo do batuque. Então veio o som do serrote, depois o ruído metálico da serra elétrica, o estalo dos tocos de madeira caindo uns sobre os outros... Estava feita a sinfonia. “É o som da mudança”, provocou a professora de artes.

Era o começo do projeto “Formas da reforma”. Em grupos, os alunos foram desafiados a gravar os sons dos “instrumentos” e, com a ajuda de um software, o Audacity, a editar e compor as melodias. O resultado foi tão surpreendente que a mudança deixou de ser um incômodo para virar paisagem sonora. E não parou por aí: tapumes viraram painéis para um manifesto sobre a mudança. Botas, pás, argamassa, areia e muitos outros elementos da obra deram foco um inusitado ensaio fotográfico e ainda sobrou material para uma profunda reflexão sobre a mudança e o que ela representa na vida de uma pessoa, de uma escola e de uma cidade.

A escola hoje

As inusitadas propostas da professora Cecília foram inicialmente recebidas com certa resistência, mas em pouco tempo a empolgação contagiou a turma e toda a comunidade escolar e ensejou algumas mudanças, como a nova sala de artes, com tanque e mobília para guardar materiais.

Outros professores também se mobilizaram para trocar ideias e trabalhar em parceria – este, talvez, tenha sido o principal legado do projeto. “Em meio à adversidade, pudemos criar, inventar, trazer o cotidiano para a sala de aula -, acho que essa foi a grande conquista”, resume Cecília.

Paisagem sonora

Nem tudo dá certo da primeira vez. Para conseguir transformar prosaicas gravações de marteladas e pauladas em música, a professora mostrou como referência clipes do grupo Stomp. Com a ajuda do pessoal da informática, o que parecia barulheira ganhou ritmo e cadência, graças a uma ferramenta bastante simples de operar: o software gratuito Audacity. Os alunos precisaram de apenas dois cliques para se familiarizarem com a tecnologia. Fazer arte ficou tão prazeroso quanto jogar um game e em pouco tempo de trabalho despontaram sonoridades curiosas como esta.


Pais ajudaram mandando martelos e ferramentas
Sala-escultura

Ripas de madeira impregnadas de história vieram do galpão derrubado na reforma e que durante a fase de crescimento da escola serviu como sala de aula de artes. Alunos garimparam arames, fios, outras formas e outros materiais, e os pais ajudaram mandando martelos e ferramentas. O desafio era montar pequenas esculturas e discutir com os colegas a ideia, o processo criativo e o significado de cada peça.
 

Fotografia

Munidos de celulares e máquinas fotográficas, os alunos vasculharam o canteiro de obras em busca de formas, cores e texturas para captar imagens que representassem a história da mudança. Depois da edição com o software gratuito Gimp, as imagens foram emolduradas e expostas no pátio da escola. Para o vernissage foram convidados os próprios funcionários da obra, que se surpreenderam ao reconhecer ali partes de seus corpos e suas ferramentas de trabalho. A equipe pode atravessar os tapumes e ver a obra por dentro e em primeira mão.

Alunos representaram em maquetes o que gostariam de ver na cidade
Maquetes representam a cidade dos sonhos
Arquitetura

Motivados com a visita à obra, os estudantes mergulharam em mais uma atividade. Conheceram o trabalho dos arquitetos Oscar Niemeyer e Frank Gehry e entrevistaram a comunidade de Ivoti para conceber a cidade dos sonhos, com cinemas, postos de saúde e até um planetário, desenvolvida em maquetes.

Reflexão

“Explorar a reforma trouxe aos alunos e professores a possibilidade de olhar a obra com outros olhos, desenvolvendo uma leitura poética e estética do mundo. O projeto colocou a turma em contato com artistas contemporâneos e mostrou que a arte abrange um território mais amplo. Foi uma oportunidade para exercitar questões relativas à cidadania e autonomia.”

Cecília Etzberger é professora de Artes na rede municipal de ensino de Ivoti (RS) e participa do Polo Arte na Escola Feevale

Comentários Deixe o seu comentário

  • Silvana Troian Patussi, 13:30 - 03/06/2014
    Poucos temos esta capacidade de olhar para algo e enxergar o potencial que se esconde por trás da primeira impressão ainda não estudada e trabalhada. Parabéns Cecília, pois percebo que isto tu tens e sabes fazer uso dela muito bem!
  • Daniela , 20:19 - 05/07/2014
    Parabéns! Adorei teu trabalho! Muito interessante e soubeste dar voz às crianças, bem como estar ligada ao que estava acontecendo no universo de vcs! Excelente trabalho!
  • Daleth, 16:02 - 11/02/2018
    que legal

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