Boletim Arte na Escola

O novo Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em junho, fala bem perto ao professor: a valorização docente, que na edição anterior do plano era destacada em apenas uma meta, ganhou amplitude. Nunca se deu tanta importância à formação básica e continuada como um dos pilares para melhorar o ensino no Brasil. “Das vinte metas do PNE, quatro se referem à valorização, o que significa que este será um tema prioritário nos próximos anos”, avalia Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

A Meta 16 do PNE estabelece a formação de 50% dos professores da educação básica em nível de pós-graduação lato e strictu sensu, assim como garante a todos formação continuada em sua área de atuação. Daniel afirma que o grande desafio para o cumprimento dessa meta será a colaboração entre os governos federal, estaduais e municipais com os sistemas de ensino para sistematizar o acesso a saberes de acordo com a característica de cada região do país. “É preciso diferenciar, descontextualizar do todo. O problema é que a formação é descontinuada; quando muda o gestor, ela se torna inócua”, explica.

Para a professora da UniRio Malvina Tuttman, integrante do Conselho Nacional de Educação e do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, quando se fala em formação – inicial e continuada – “é preciso puxar outros fios, como a carreira, o salário, condições dignas de trabalho, enfim, um conjunto de ações que precisam ser tocadas juntas”. Para ela, a grande dificuldade da formação continuada nos moldes atuais é a carga horária que o professor enfrenta para completar seus rendimentos. “Às vezes ele trabalha 20 horas na escola pública, mais 20 na particular, e sua formação acontece fora do horário de expediente, quando o ideal seria que se desse dentro da própria escola”, sugere.

Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do movimento Todos Pela Educação, concorda com Malvina Tuttman, e acrescenta uma figura fundamental para a melhoria da formação do professor: o coordenador pedagógico. “Hoje ele se dedica às funções administrativas e atendimento aos pais, quando o seu papel deveria ser olhar para a sala de aula para ajudar o professor a trabalhar.” Para ele, o conhecimento das necessidades dos alunos e das dificuldades dos docentes são de extrema importância para então estabelecer um plano de formação continuada.

Cooperação conjunta
Na área de Artes, os especialistas concordam que a formação continuada deve ser feita em cooperação entre os sistemas públicos de ensino, universidades e organizações. “É preciso buscar parcerias, conhecimento, estratégias, num processo de interação com a sociedade e arte/educadores”, defende Daniel Cara. Malvina Tuttman completa: “As linguagens artísticas são tão importantes quanto Matemática, Português e Ciências – elas são gerentes de todas as disciplinas e precisam estar integradas, não reduzidas a ferramentas de apoio”.

Para Daniel Cara, o novo PNE representa um avanço em relação ao anterior. “Ele ainda não está perfeito, está desequilibrado, com partes mais práticas, com regras estabelecidas e outras, não. A Meta 16 – que trata da formação continuada – está razoavelmente amarrada, mas tudo o que está no papel deve ser feito, este é o desafio”, conclui.

Maria Irene Pellegrino de Oliveira Souza, coordenadora do Polo UEL (Universidade de Londrina) da Rede Arte na Escola e coordenadora-geral do PARFOR/UEL (Plano Nacional de Formação de Professores da CAPES), também concorda que o novo PNE – especialmente a Meta 16 – pode ter um grande impacto para a formação continuada. “Melhoramos muito, mas ainda temos que trabalhar, cobrando quem aprovou o PNE e viabilizando os programas de formação inicial e continuada. A Meta 16 é muito bonita, desde que seja cumprida, e que o professor seja valorizado em outros aspectos, como disse a Malvina Tuttman”, alerta.

“A Rede Arte na Escola é um trunfo enorme que nós e os professores da educação básica possuímos, porque a ação dos grupos de estudos realizados pelos polos é transformadora e, desse modo, podemos influenciar as políticas de formação continuada, além de contribuir para a melhoria do ensino de Arte na educação básica”, destaca Maria Irene. Ela acrescenta que as propostas presentes em todo o material produzido pelo Instituto Arte na Escola são inovadoras, porque provocam o professor a sair das aulas prontas, convidam a desmontar as certezas e trilhar percursos que valorizem todo o processo de formação do aluno e da construção da identidade docente. “Penso que com ações que não só convidem o professor, mas que se solidarizem com ele na formação continuada, a Rede Arte na Escola produzirá muito mais frutos. Além disso, a possibilidade de trocas entre os polos com as experiências particularizadas podem trazer muitos ganhos para os professores de Arte da educação básica, muitas vezes solitários, com poucos argumentos e com necessidade de apoio pedagógico. Tenho registrado bons resultados de professores egressos do PARFOR que hoje fazem a formação continuada de professores dos anos iniciais adotando os cadernos da pasta arte br e conseguem contribuir, de fato, para a melhoria do ensino de Arte.”

Maria Irene lembra, ainda, que o material de apoio didático produzido pelo Instituto Arte na Escola traz a interdisciplinaridade como essência, justamente para levar o professor a caminhar por outros territórios do saber, podendo disseminar a arte de tal modo que a escola e o Estado reconheçam seu real papel na formação dos alunos.

 

Por Sandra Godoy

Comentários Deixe o seu comentário

  • Ivalda Aparecida Sampaio Gomes, 23:12 - 02/10/2014
    Concordo plenamente com os comentários acima, a meta 16 é primordial, precisamos mostrar que um dos meios para a valorização do saber e do ser humano está na arte. Acredito que a arte é o caminho para a transformação da escola pública, e que deveria haver uma grade curricular com opção de maior numero de aulas por sala.
  • Luz Marina de Alcantara, 10:01 - 21/10/2014
    Tenho assumido em meu Estado, GOIÁS, a responsabilidade por um ensino de arte comprometido com a formação plena dos estudantes. Neste percurso, o novo PNE vem fortelecer a proposta do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte/SEDUC GOIås que promove a formação continuada dos professores da rede, por meio de grupos de estudos, cursos, acompanhamento pedagógico, além de provocar os professores à busca por uma pós-graduação., porém, o que mais nos incomoda aqui é a necessidade de criação de cursos de formação inicial que alcancem o interior de um Estado com 246 municípios. Já foram realizados concursos para artes visuais, dança, música e teatro prevendo vagas para todos estes municípios, sem sucesso. Não há quantitativo de profissionais para atender o pleito. Agora, imaginem pensar o Brasil tão grande. PNE pode e deve conduzir para que as universidades saiam de seus espaços confortåveis e avancem nesta direção. FORMAÇÃO INICIAL, luta de todos. Educação estética, direito dos estudantes, dever do Estado. Há outras questões graves também que se mostram é que, a partir do PNE, nos dá o direito de fala: salários ínfimos, salas de aulas sem nenhuma condição de promover um ensino bem feito e nenhuma garantia de aprendizagens significativas. Vejo muito blá blá blá que em vez de aproximar os estudantes da arte, os afugentam. Sou diretora do Ciranda da Arte, instituição da Secretaria de Estado da Educação criada para este fim, acompanhar e gerir as ações da arte na rede. Falo deste lugar, que conhece a realidade do ensino de arte que se faz nas escolas. Precisamos agir, gente! Temos todas estas dificuldades apontadas, mas, temos também, muitas histórias de vida de alunos que têm suas vidas modificadas pela arte.

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