Boletim Arte na Escola

Difícil saber onde termina a brincadeira e começa o aprendizado. Quando é fantasia, ou vida real. Mas quando se trata do respeito ao espaço do outro e da responsabilidade, aí sim, os limites são bem claros. Quem cruza os muros da escola Te-Arte, no bairro do Butantã, em São Paulo, pode ter a impressão de que viajou de repente a um território livre, formado por uma grande oca e um quintal, onde pequenos animais passeiam livremente, passarinhos cantam a plenos pulmões e crianças de oito meses a sete anos de idade brincam livres e soltas, como o faziam suas mães e suas avós. Mas à sua maneira, a idealizadora e fundadora da escola, Therezita Soares Pagani, mostra pulso firme para conduzir uma aprendizagem que tem na intuição seu principal pilar. É uma escola diferente das outras, com espaço para interagir com a natureza, exercitar o lúdico e vivenciar histórias. Nesse contexto, a criatividade brota naturalmente, tal e qual as pitangas e carambolas espalhadas pelo quintal.

É brincando que se aprende
Para uma escola que tem arte até no nome, atividades como música, dança, teatro e também o manuseio de tintas e argila são formas de expressão, exercícios para pensar, criar e principalmente sentir. “Se eu vivo, eu sou uma artista”, costuma repetir Therezita. Isso explica porque caixas, triângulos, pandeiros, castanholas e outros instrumentos ficam ao alcance das mãos. Basta que um manifeste interesse e em instantes, uma sinfônica barroca pode estar se formando em busca de novas sonoridades. Os dançantes logo se apresentam e enchem o espaço de movimento e ritmo. Isso quando não resolvem compor, eles próprios, letras e cantigas que retratam o dia-a-dia na Te-Arte. É como se tudo fosse continuação das brincadeiras no quintal, de esconde-esconde, pega-pega, do mexer na areia. O método do “é brincando que se aprende” propõe que as atividades lúdicas estimulem o pensar, o organizar, a coordenação motora fina.

Para manter a conexão com essa origem e com as raízes da cultura popular brasileira, a educadora conta com a ajuda de artistas como Tião Carvalho, que dá aulas na Te-Arte há 35 anos e é dono de um repertório que reúne pérolas do cancioneiro popular. É ele quem apresenta o Bumba Meu Boi e dá o tom na Festa do Divino, uma das mais importantes celebrações no calendário da escola. Músicos de formação mais erudita também costumam visitar os alunos, desmistificando os acordes de Bach e Villa-Lobos. As crianças participam levando discos e músicas preferidas para compartilhar com os amigos, e o gosto apurado delas costuma provar que em matéria de música, a Te-Arte não desafina: “Nunca trouxeram discos da Xuxa”, orgulha-se Therezita.

Até o processo de alfabetização segue o mesmo ritmo. A criança tem contato com letras e números o tempo todo, até enquanto enche o balde de areia ou quando compartilha frutas e brinquedos com os amigos. A única regra é não forçar ninguém a ler ou a escrever, o que acaba acontecendo naturalmente. Aos seis anos os alunos estão prontos para assumir a lição de casa, e o momento é comemorado de forma solene, como um rito de passagem que prova o amadurecimento e o compromisso com o aprendizado, inclusive com a convocação da família para abraçar conjuntamente o desafio. Símbolo do novo ciclo, uma pasta para o caderno de atividades é então entregue à criança, que deve devolvê-la ao final do ano para ser usada por outra.

Os esportes estão presentes no cotidiano da escola, com aulas de judô, capoeira, futebol, jogos, mas não com viés competitivo. Nas Olimpíadas Te-Arte, que acontecem todo mês de setembro, nem sempre vence o mais veloz ou o mais forte. O mérito é sempre das equipes que trabalham unidas, dentro do espírito de colaboração, atitude, respeito e disciplina.

Intuição e criatividade
Importante que tanta liberdade não seja confundida com falta de regras ou de supervisão. Monitores experientes estão o tempo todo apoiando as crianças, dando suporte às suas descobertas. “Nossa missão é formar cidadãos conscientes da necessidade de trabalhar o local onde vivem para transformar. Pessoas independentes, que para o resto da vida pretendam se conhecer de dentro para fora”, resume Therezita.

A intervenção é discreta e até firme algumas vezes, mas o papel desses educadores é muito mais o de contribuir para que o impulso artístico faça aflorar algo que venha de dentro. “A criança é totalmente intuitiva e a sociedade não acredita nessa intuição. Ora, se eu não acreditar naquilo que me transcende, um dia vou pagar um preço muito alto por essa desatenção”, ensina Therezita, uma mulher obstinada, dona de uma sinceridade incomum em tudo que professa. Prova de que seu método ajuda a criar cidadãos transformadores são os ex-alunos hoje envolvidos em projetos artísticos, ambientais e sociais em lugares tão distintos como Israel, Inglaterra, Itália e França. Um dessas alunas, a cineasta Fernanda Heinz Figueiredo, voltou ao Te-Arte adulta, disposta a contar a história da escola que mudou sua relação com o mundo. O resultado de mais de quatro anos de visitas e 500 horas de filmagens está resumido no premiado Sementes do Nosso Quintal, documentário que mostra a rotina e o pensar de uma escola que tem a certeza de que “toda pessoa é criativa se não for podada”.

Para incrementar a sua videoteca:

Quem se interessou pela história da Te-Arte e quer ter o filme Sementes do Nosso Quintal na videoteca da escola pode contatar a produtora Aiuê por e-mail ou pelo Facebook.



*As fotos que ilustram essa matéria são do filme Sementes do Nosso Quintal

Por Raquel Alves

Comentários Deixe o seu comentário

  • Marcia Maciel, 10:40 - 03/10/2014
    Olá Sou educadora de arte e arteterapeuta. Gostaria de primeiramente parabenizá-los por está iniciativa de construir uma escola dos "céus", aqui na terra. Como é recompensador ver pessoas interessadas em direcionar seres humanos a serem bondosos, equilibrados, generosos, solidários, como os de mesma espécie e com os animais. Essa forma de levá-los a criação, realmente sensacional!! Bem, gostaria muito de conhecê-los e de presenciar um dia de aula nesta escola maravilhosa, que sabe um dia será possível!! Desejo que vcs. continuem empenhados nesta linda missão!! Parabéns!!
  • marcia izabel de souza quisselaro, 18:59 - 03/10/2014
    Olá! Sou coordenadora pedagógica da educação infantil municipal. Gostaria imensamente conhecer esse espaço de perto, é possível? Allmejo para todas as crianças escolas com propostas da TE-ARTE. Utopia? Porque não! Abraços!!
  • Célia Beatriz Silva , 17:47 - 04/10/2014
    Oi! Sou professora de Arte Visuais. E estou maravilhada com esta escola dos sonhos. Precisamos disso para transformar as pessoas cada vez melhores para o mundo. Therezita, parabéns! Gostaria de ser criança por um dia para experienciar esse lindo lugar chamado Te-Arte. Lindo!!

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