Boletim Arte na Escola

Conhecer a si mesmo, conhecer os outros e inserir-se no mundo de modo mais comprometido e crítico. Para a pedagoga, coreógrafa e diretora do Instituto Caleidos Isabel Marques, essas são as premissas que devem nortear os professores no ensino da dança nas escolas. O componente curricular precisa estar no contexto do que o aluno vivencia na sociedade, do que ele realmente é e trazer novos aprendizados, não apenas sobre a temática da dança, mas acima de tudo sobre o que acontece ao seu redor. “O meu trabalho é sugerir uma reflexão sobre o ensino da dança como linguagem artística, e não como repertório, como são conhecidas as coreografias midiáticas ou as danças populares. Precisamos acabar com o mito de que a dança é um conjunto de passos a serem decorados e reproduzidos. Na minha visão, os alunos precisam ser os criadores de sua própria obra”, explica Isabel, que ministra diversos cursos de formação para professores.

Avessa aos pré-conceitos que ainda norteiam o ensino da dança no Brasil, Isabel foi buscar na filosofia dos movimentos não codificados de Rudolf Laban a base para o seu trabalho. “Ninguém vê o mundo da mesma maneira, e com o corpo é a mesma coisa. O que um movimento, um gesto representa para mim pode ser interpretado de outra forma por outra pessoa”, defende a pedagoga. Para exemplificar, usa a imagem de uma pessoa em pé, com os braços abertos, e pergunta: “O que você enxerga? O Cristo Redentor, um espantalho, uma cruz? As possibilidades são infinitas, dependem da imaginação, da criatividade, da vivência de cada um e, claro, do conhecimento que se tem sobre a linguagem da dança.” Isabel também alerta que a dança é uma experiência sensorial e pode estar ou não atrelada à música. “Não é a música que dita os movimentos da dança, ela é uma parceira da informação que o corpo pretende passar naquele momento. Mesmo no silêncio o corpo ainda se movimenta”, ensina. 


O conceito da dança, sua origem, seu contexto social e histórico também devem integrar o currículo. O que a coreógrafa não aconselha são as aulas meramente expositivas, aquelas que explicam, por exemplo, a origem do frevo e nas quais os alunos são convidados a repetir a coreografia mecanicamente. “Isso é robotização. O professor pode trabalhar a cultura artística de forma consciente e criativa, de modo a cada um fazer sua leitura pessoal do trabalho e a transformar em sua própria arte.”

A coreógrafa e diretora do Caleidos Cia. de Dança, mestre em dança pelo Laban Centre for Movement and Dance, de Londres, e doutora pela Faculdade de Educação da USP, comemora o momento que o ensino da dança vive no Brasil. “Essa é uma grande conquista para os arte/educadores. Quando comecei a cursar pedagogia existiam menos de dez faculdades de dança no país. Hoje já são mais de 45. Apesar de defender a formação de professores especialistas em dança, dada a situação atual das escolas, Isabel acredita que o mais importante é o aluno ter contato com a dança enquanto arte. “O conteúdo pode ser trabalhado por qualquer professor com conhecimento e vivência de dança. Porém, é preciso que ele esteja confortável e consciente do trabalho que está realizando. Para ajudar nesse aprendizado, existem vários cursos de formação de curta duração”, aconselha a coreógrafa.

Para trabalhar com os alunos
Isabel Marques sugere uma experiência vivencial em sala de aula, mas alerta: “Isso não é uma sequência didática. É uma proposição que deve ser adaptada por cada professor de acordo com a sua vivência. Não me acho no direito de interferir na aula de ninguém”, avisa. O exercício, que faz parte do espetáculo Coreológicas Ludus, produzido por Isabel e apresentado pelo Caleidos Cia. de Dança, tem o objetivo de preencher com o movimento do próprio corpo os espaços vazados deixados por outro corpo no espaço. Assim, pouco a pouco, os bailarinos vão se entrelaçando e construindo formas e redes infinitas de movimento. Inspire-se!


 

Para ir além:


MARQUES, Isabel A.; BRAZIL, Fábio. Arte em questões. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2014.

______. Dançando na escola. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

______. Linguagem da dança: arte e ensino. São Paulo: Digitexto, 2010.

 

Por Rosiane Moro

Comentários Deixe o seu comentário

  • Isabel Marques, 15:15 - 07/10/2014
    Obrigada Rosiane e equipe pela oportunidade de compartilhar DANÇAS....! Bela matéria

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