Boletim Arte na Escola

A arte, em suas diferentes formas de expressão, figura entre os objetivos curriculares gerais da Educação Básica na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Nas últimas décadas avançamos em políticas públicas, com a decisiva participação de educadores, escolas, universidades, instituições culturais e associativas. Por outro lado, o número de professores com formação específica na área não vem acompanhando a demanda gerada nas redes escolares. Conforme censo realizado pelo MEC/Inep/DEED e elaborado pelo Movimento Todos pela Educação, em 2013 havia 535.964 docentes lecionando a disciplina no país, mas apenas 6% eram formados em Arte, sendo a maior parte com Bacharelado Interdisciplinar e os demais graduados em Artes Visuais, Música, Artes Cênicas ou Dança, nessa ordem.

Diante desse quadro, é viável pretender que 100% dos professores de Arte tenham formação na área que lecionam? O que seria necessário para suprir a lacuna? É possível ser um bom professor sem a formação específica? Em que pesem as diversidades regionais e as especificidades de cada escola, professores de diferentes regiões do Brasil estimam que se trata de um desafio para no mínimo uma geração, ou seja, para os próximos 20 ou 30 anos. Conheça, aqui, a opinião dos educadores com os quais conversamos.

Vitória Amaral, presidente da Federação dos Arte-Educadores do Brasil (FAEB) e coordenadora do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
É possível, viável e imprescindível que tenhamos professores de arte com formação em Artes Visuais, Dança, Música e Teatro em todas as escolas públicas do Brasil. Para isso, é necessário planejamento e levantamento das necessidades em todo o território nacional, realização de mais concursos públicos para admissão de professores formados, em todas as instâncias do sistema público; cursos de formação integrados aos programas federais; ampliação de vagas nas universidades; núcleos de Arte acessíveis aos estudantes, com professores de Artes Visuais, Dança, Música e Teatro, e com aulas obrigatórias em todos os anos da Educação Básica.
Temos como referência de uma escola pública que dá certo, em todo o Brasil, os Colégios de Aplicação, com professores de dedicação exclusiva, contemplando em seu currículo todas as áreas de conhecimentos artísticos, salas específicas para essas aulas e estudantes com os índices mais altos de IDEB no país.

Rosilene de Lima Neves, professora de Artes Visuais e Música | Ensino Fundamental Boa Vista, Roraima
O professor é um pesquisador sempre. O professor que gosta de arte, que corre atrás do conteúdo, que envolve o aluno e a comunidade, como um pedagogo, por exemplo, pode ser um bom professor de arte, sim. Desde 2004 participo de atividades no Polo Arte na Escola em Boa Vista (RR) e agora estou fazendo o curso de especialização em Metodologia da Arte. Procuro aprender. No início de cada semestre, faço uma auto-avaliação e utilizo os registros do trabalho realizado como base para fazer melhor. Os alunos fazem pesquisas, trabalham conteúdos de arte e as secretarias municipal e estadual reconhecem e elogiam nosso trabalho, dos gestores da escola e dos alunos. Em Roraima faltam professores de arte, somente neste ano a UFRR abriu as primeiras turmas para cursos na área.

Ivone Bins, artista plástica e professora há 25 anos no Colégio João XXIII, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
O que forma o bom professor são as experiências diversificadas com a arte. Gostar de conhecer artistas e produções, visitar espaços de arte, ler sobre o assunto e também viver e experimentar as linguagens artísticas. Vejo muito professor trabalhando com sucata sem ter noção de estética, de harmonia de cores, etc. O importante é estar aberto às experiências, comprometer-se com o que ensina, vivenciar na prática as atividades que propõe. O bom professor de arte é um apaixonado, promove o diálogo com os materiais e técnicas e vibra com os processos de seus alunos. Instiga e desacomoda, inventa o novo. A vivência com a arte é importante na medida em que propicia um constante mergulho no fazer artístico, que não se esgota nunca.

Cristina Wolffenbüttel, professora da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) em Montenegro/RS | Pesquisadora e assessora da área de Música na Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre
Será muito importante termos um professor formado em cada escola, mas enquanto isso não for possível, não vamos deixar de trabalhar com quem não é formado. Esses professores também dão sua contribuição. Às vezes, um professor não especialista trabalha melhor do que um especialista, dependendo de sua formação anterior. De toda forma, vão coexistir e é obrigatoriedade do sistema de ensino prover formação continuada nas redes, como está explícito na LDB. (...) Não se preparam professores de artes para a educação infantil e a universidade também precisa se adequar a isso. A construção da escola ideal, conforme as diretrizes do sistema de ensino, requer professores melhor preparados, com mais conhecimentos para exercer com autonomia os projetos político-pedagógicos, e isso inclui a formação das equipes diretivas para uma melhor compreensão das diferentes linguagens artísticas.

Maria Cristina da Rosa Fonseca da Silva, professora do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina (CEART-UDESC) | Pesquisadora da formação dos professores de arte em Florianópolis
É possível que todos os professores em atividade tenham formação em suas áreas, mas os governantes precisam investir em programas emergenciais, de qualidade e oferecidos por universidades conceituadas. (...) Mesmo que tenhamos professores com formação, mas que apresentam dificuldades em sala de aula, e professores sem habilitação, que atuam muito bem em classe, esses são uma minoria, exceção à regra. Nossa realidade mostra – e acabei de participar de um processo seletivo de mestrado profissional para a área de artes – que os profissionais com formação foram capazes de fazer uma proposta de profissionalização mais adequada do que os outros. São muitos os professores de outra área que ensinam arte para complementar sua carga horária em nossa rede estadual. Já o município de Florianópolis, que tem professores concursados por área (Música, Teatro e Artes Visuais), apresenta uma avaliação educacional muito acima da média brasileira. Professor sem habilitação não ministra aulas. Claro que nesta realidade também os salários são melhores, existe um plano de cargos e salários para os efetivos, e as condições de trabalho também são bastante adequadas se comparadas à rede estadual, por exemplo.

Isabel Petry Kehrwald, diretora da Fundação Municipal de Artes de Montenegro/RS (Fundarte) | Ex-coordenadora do Polo Arte na Escola
Defendo a formação específica ou, em último caso, pelo menos, a atualização em cursos de educação continuada, preparatórios para assumir um componente curricular do qual pouco ou nada se sabe. (...) Os professores com formação têm uma prática mais coerente que vem das experiências da “cozinha” das artes, das oficinas, do estudo, da reflexão. Conseguem planejar e executar projetos abarcando práticas artísticas, conhecimentos sobre a história da arte, apreciação e leitura do mundo da arte e da cultura. Conseguem estabelecer relações entre esses campos e, em alguns casos, também com diferentes áreas do conhecimento. Professores sem formação geralmente acham importante apenas as práticas, as atividades artísticas, não ampliam os referenciais com outras discussões. Temos exceções, sim, e às vezes de qualidade quando o professor busca informação, é curioso e interessado, se atualiza, procura ampliar seu repertório e o dos alunos. (...) Pelo que conhecemos do Prêmio Arte na Escola, sabemos que o bom professor transforma uma sala de aula, uma escola, uma comunidade. E é isso que queremos, um bom professor de Arte com formação específica, pois o mundo da arte é vasto e complexo como qualquer outra área do conhecimento, e as crianças e jovens merecem um profissional à altura das suas expectativas.

 

Por Sylvia Bojunga

Comentários Deixe o seu comentário

  • Claudia Pola, 12:53 - 01/10/2014
    Refletindo sobre esse questionamento, vejo de extrema relevância uma formação continuada de professores,sendo de extrema importância valorizar o ensino das artes alinhando as tecnologias. Com certeza a formação será sempre necessária e imprescindível, lamentável que ainda exista esse deficit educacional, talvez pela falta de interesse dos governantes. Portanto seria de suma importância uma iniciativa eficaz de promover capacitações e alargar os cursos de artes nas Universidades.
  • LOURIDES APARECIDA FRANCISCONI, 05:20 - 02/10/2014
    Por mais que concorde que a formação é curso contínuo na vida profissional docente, independente da área, defendo a formação Específica para o Professor em Artes Visuais, assim como nas outras Linguagens, como a Dança, o Teatro e a Música. É lamentável não termos saído de discurso tão sem propósito, sobre requisitos pedagógicos essenciais, quando a preocupação deveria ser entre ensino de arte, tecnologia e vida.Até quando permitiremos a invasão sem respeito às especificidades epistêmicas da ARTE e à nossa Profissão? Tenho ouvido colegas com formações diversas dizerem-se Professor de Arte Visual e apresentarem como proposta de trabalho desenhos impressos (agora usam a impressora a laser) para os alunos colorirem; Propostas de pesquisa: Seminário com leituras de imagens: o professor dá a biografia do artista e as imagens para o aluno olhar e chama a isso de seminário. O aluno, não fala, não pensa, não age. Apenas ouve e vê (nem ouso imaginar o conteúdo). Sem generalizações, pois, conheço profissionais que, mesmo não tendo a formação especifica fazem um excelente trabalho, pois, Pesquisam, estudam, buscam a segunda formação ou uma especialização e ou mestrado. Parabenizo-os pelo compromisso maior com a aprendizagem, sua própria e de seus alunos, por isso, buscam aprimorar o saber ensinar. Para ser professor de Artes Visuais necessita estudar as interfaces Arte, vida e ensino.
  • MARIA RAIMUNDA MARTINS TORRES, 11:39 - 02/10/2014
    Fui efetivada pela lei 100 MG como professora de artes em 2007. Amo o que faço e creio, faço bem. Pesquiso muito e sempre me atualizo, mas não possuo licenciatura em artes por estar sempre despreparada financeiramente. As SEE/MEc disseram que capacitariam os docentes em suas áreas de atuação, porém nunca consegui ir além da inscrição. Como fazer valer meus direitos? Quero estar melhor preparada e documentada.
  • Solange Mach, 17:16 - 02/10/2014
    Só não admito que algumas universidades ofereçam cursos rápidos e online em um ano e meio. Que vão aprender? Se a formação em quatro anos não prepara, você acha que este tipo de formação preparará? A maioria já é professor e arrasta os pontos para a disciplina de Arte passando na frente daquele professor que fez quatro anos de faculdade de Arte. Isto deveria ser revisto.
  • Daniel Schwambach, 21:05 - 02/10/2014
    Penso que seria um retrocesso o estímulo à polivalência e, da mesma forma, o estímulo à atuação de professores sem formação específica. Apesar de ser sensato levar em conta o fato de que não será formada uma nova geração de professores em número suficiente para a demanda brasileira em um passe de mágica, não deveríamos ignorar a trajetória do ensino de artes no Brasil, que parece apontar para uma especificidade crescente. Obviamente, isso não depõe contra a interdisciplinaridade, contra o diálogo entre as linguagens artísticas e entre estas e as demais áreas, do contrário estaríamos também ignorando todas as contemporâneas reflexões a respeito de um saber complexo, múltiplo e interligado. Penso que não podemos, mesmo face às inúmeras dificuldades concretas, perder de vista um ideal acalentado por décadas. A utopia deve continuar guiando nossas ações e esperanças por maior espaço no currículo para as artes e também por docentes capacitados em suas áreas específicas e orientados para o diálogo.
  • Betânia Tavares, 16:50 - 21/10/2014
    Particularmente, acredito que graduado ou não, com licenciatura ou não, se o docente pratica arte, ele é capacitado para lecionar. A única pergunta que me faço sobre o ensino das artes (no caso do ensino fundamental e médio), desde que comecei a lecionar é: porque a arte tem uma carga horária tão curta nas escolas? (50 minutos por turma, uma vez por semana!!!). É possível que o aluno dialogue com as linguagens artísticas com uma carga horária tão pequena? Essa carga horária me gera muita angústia e acredito que também em outros artistas que estão nas escolas lecionando! Eu considero mais interessante a discussão da carga horária do que a formação acadêmica do docente (no caso das artes); haja vista que é comprovado que diploma, em qualquer área que seja, nunca garantiu bons profissionais.
  • Ma, 21:00 - 01/11/2014
    Sou Licenciada em Artes visuais e cursando pós em Ensino à Distância: Gestão e Tutoria. A Arte é tão importante quanto as demais disciplinas e necessita, sim, de profissionais Licenciados em Artes. E concordo com a Betânia sobre a curta duração da aula de artes, pois temos vários seguimentos e a história da arte é imensa. Precisa ser revisto e valorizado esse tempo...
  • Seanne - acadêmica em arte e artista visual, 17:02 - 17/02/2015
    É interessante todas as colocações, porém o que é preocupante que sabemos todas as dificuldades em relação ao Ensino da Arte no Brasil e não fazemos praticamente NADA...Ficamos em discussões e discussões ...Em resumo de tudo acabamos na mesma...Até quando colegas vamos ficar assim?????
  • LISANDRA PAULA MARENGO SCHELLE, 11:35 - 27/04/2017
    ola, venho questionar se um pedagogo pode atuar em artes na escola para ensino médio?

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