Boletim Arte na Escola

O Instituto Arte na Escola disponibiliza diversos materiais específicos para o ensino da Arte em sua Midiateca, dentre os quais a DVDteca Arte na Escola, atualmente com 162 documentários sobre artistas brasileiros. A proposta de ofertar esse tipo de material para o professor surgiu há 25 anos, na Fundação Iochpe, em Porto Alegre (RS), a partir da pesquisa A Imagem Móvel na Aprendizagem das Artes Plásticas em Escolas de 1º e 2º Graus, coordenada pelas professoras Denyse Vieira e Analice Dutra Pillar.

A investigação, desenvolvida em escolas públicas e privadas com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, demonstrou a eficiência do vídeo como recurso didático, capaz de despertar o interesse de alunos e professores pela arte como linguagem, fonte de informação e de conhecimento. Essa pesquisa deu origem aos dois pilares centrais do Projeto Arte na Escola: a instrumentalização do professor, por meio da Videoteca com documentários sobre artes, e a capacitação, através das ações de educação continuada.

No início da década de 1990, reunir o acervo da Videoteca foi um desafio para o cineasta Henrique de Freitas Lima, consultor responsável pela tarefa. “Ótimas descobertas vieram ao lado do reconhecimento das carências de documentação do fazer dos nossos artistas, especialmente no Rio Grande do Sul, a sede do projeto então. Numa época em que os produtores não tinham veículos interessados em suas obras – diferente de hoje, em que canais por assinatura buscam conteúdos –, a existência de um ‘comprador’(eu) em festivais de cinema era saudada efusivamente”, recorda Lima. “Encontramos ótimos exemplares do gênero videoarte, que já era uma vertente importante de expressão, e um número razoável de documentários sobre o fazer artístico de produção simples, muitos registros de trabalho nos ateliers.” (Leia e entrevista na íntegra).

Em duas décadas e meia, a Videoteca migrou por diferentes suportes, das fitas U-MATIC e VHS aos DVDs. Em 1992, com apoio do Ministério de Educação e consultoria de Marcelo Costa Souza (Unicamp), foi importado do Japão o equipamento LVR Laser Record e LVS Laser Videodisk Processor. Com a chamada “matrizeira” a laser, os vídeos foram digitalizados em formato de disco para preservar a qualidade da imagem e prolongar sua vida útil, em sistema inédito no país. Nesse período, o acervo era apresentado aos professores em Porto Alegre por meio dos Ciclos Iochpe de Vídeo, realizados em parceria com a Casa de Cultura Mário Quintana.

Olhar pedagógico
O ano de 1993 assinalou a internacionalização do acervo, com a aquisição de vídeos de produtores italianos, americanos e argentinos, e a fase piloto de elaboração dos materiais de apoio para acompanhar cada título, por uma qualificada equipe de arte/educadores. Na sequência e com o apoio da Fundação Vitae, foram produzidos 120 documentários. Com o tempo, os materiais foram recebendo atualizações até chegarem ao formato atual.

Uma segunda etapa se iniciou em 2001. Afinal, quem era o usuário da Videoteca? Que tipo de material era mais adequado para a Rede Arte na Escola? Em Santa Catarina, a professora Neide Pelaez (UDESC) coordenou a pesquisa cujos resultados apontaram novos critérios para seleção do acervo. Junto com ela, as arte/educadoras Marília Diaz e Dora Maria Dutra Bay formaram o primeiro Comitê de Vídeo, passando a analisar cerca de 600 produções, de várias regiões do país, para compor a futura DVDteca Arte na Escola.

Levando em conta a realidade nacional de coexistência de professores com conhecimento das linguagens artísticas e de professores não habilitados nas redes escolares, os vídeos passaram a contemplar diferentes níveis de complexidade quanto ao entendimento de arte, de forma a possibilitar tanto a aprendizagem dos alunos como a formação continuada dos professores.

O acervo como inspiração
“A catalogação e posterior indexação do acervo da Videoteca me trouxe sempre muito prazer! Eu adorei assistir a cada um daqueles filmes, aprendi muito sobre vários artistas, técnicas, ou seja, sobre Artes Plásticas e História da Arte em geral. E o trabalho de indexação, apesar de bem trabalhoso na era pré-computador, era para mim tão divertido como um jogo de encaixe de peças no qual eu precisava imaginar em quantos lugares possíveis cada uma delas poderia ser encaixada concomitantemente. Uma delícia!”. É assim que Rovena Gobbato Marshall guarda as lembranças dos tempos de bolsista de iniciação científica do Projeto Arte na Escola. E acrescenta: “Tinha a convicção de que estava criando algo que iria ajudar muito em um projeto fantástico, extremamente relevante para a formação artística, cultural e identitária dos jovens brasileiros”.

A catalogação começou em 1992 e durou dois anos e meio. Enquanto elaborava as sinopses dos vídeos, Rovena percebia que poderia ir além. Intuitivamente, foi anotando as temáticas que apareciam nos filmes e criando um índice por assuntos, para facilitar a identificação dos conteúdos pelos professores usuários. Com o fim da bolsa, o processo foi interrompido e depois retomado em 1997, quando ela foi contratada pelo projeto para continuar a tarefa, já com a ajuda de um computador.

Ampliando horizontes

Recém-formada em História pela PUC-RS e cursando o Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, Débora Steinhaus Quellmann sonhava em ser artista plástica quando começou a atender ao público da Videoteca Arte na Escola, em 1990. Na época, o acervo contava com cerca de 60 vídeos sobre artistas e suas obras, abrangendo todas as linguagens das artes visuais. “Fazíamos um resumo dos temas abordados, para que os professores e artistas tivessem uma visão rápida do conteúdo. Quando devolviam os vídeos, tínhamos interesse em ouvir sua opinião, em saber como foi o resultado, a aceitação e o entendimento do material em sala de aula”, lembra. “Tratava-se de uma super novidade, numa época em que computador não era tão usual, tampouco existiam as redes sociais, e as informações sobre as artes visuais ficavam restritas ao pouco que circulava na grande mídia.”

Foi por meio da Videoteca que Débora descobriu e se encantou com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde estudou pintura por quatro anos depois que a Fundação Iochpe transferiu-se para São Paulo. Ali começava a trajetória da artista. Enquanto estudava, trabalhava com cenografia, pintava telas grandes e fazia amigos no mundo artístico. Casou-se, teve um filho e a família foi morar na Alemanha, terra natal do marido. Depois retornaram ao Brasil e residiram em Florianópolis (SC) por alguns anos, onde ela seguiu pintando. Expôs no Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha (ICBRA), Berlim; em Dilston Grove, Londres; na Usina do Gasômetro, Porto Alegre; no Instituto Goethe, São Paulo; na Casa de Cultura de Ribeirão Preto/SP e no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), Florianópolis. De volta a Berlim, hoje Débora Steinhaus Quellmann mergulha mais uma vez em seus projetos de arte, um pé lá outro aqui, e com a cabeça sempre transitando pelo mundo das imagens.


Por Sylvia Bojunga

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  • Maria da Penha Fonseca, 17:28 - 04/10/2014
    Parabéns pela matéria. Muito bom fazer este resgate histórico, para que os professores que se utilizam dos documentários em sala de aula, tenham conhecimento da origem do material.

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