Boletim Arte na Escola

Getúlio Lima*

A diversidade de sujeitos, corpos e experiências dentro de uma sala de aula nos coloca diante de um emaranhado de situações e possibilidades de construção e reconstrução do conhecimento a todo instante. Pensar a dança neste contexto é situá-la num terreno múltiplo, onde a necessidade de observação e percepção do professor se faz indispensável. No entanto, qual a formação do docente que está ministrando a disciplina de Artes na educação básica no Amazonas? Quais conteúdos estão sendo abordados? Como a dança é pensada no ambiente escolar na região? Tais questionamentos são desafios que este texto pretende responder, a partir de breves relatos de professores colaboradores e/ou participantes do grupo de estudos "Arte, imagem e movimento" e da pesquisa que vem sendo realizada pelo Polo Arte na Escola Universidade Estadual do Amazonas (UEA).

A Dança pode ser considerada uma prática pedagógica recente nas escolas do Amazonas. Até a criação da UEA, em 2001, com a abertura da Licenciatura e Bacharelado em Dança, apenas a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) oferecia graduação em Arte. E, ainda que forme profissionais desde a década de 1980, o número de profissionais habilitados para o magistério não atende à demanda na região amazônica. Isso leva muitos professores de outras áreas, sem conhecimento específico, a assumirem a disciplina de Arte para cumprimento de carga horária.

Além desta problemática, as graduações formam licenciados com conhecimentos específicos em determinada linguagem artística, o que gera conflito entre a demanda e as leis vigentes. Quando estes professores chegam à sala de aula, acabam por ministrar conteúdos das outras linguagens sem o devido preparo, fragilizando o processo de ensino e aprendizagem e fazendo prevalecer uma linguagem artística em detrimento à outra.

Será uma problemática em nível nacional, já que as leis determinam o ensino de quatro linguagens artísticas na escola (Música, Dança, Teatro e Artes Visuais) e as graduações formam sujeitos com conhecimento específico em uma delas? Infelizmente questões relativas à polivalência ainda rondam nossos professores de Arte por todo Brasil. Como resolver esta questão? Reflexões à parte, voltemos ao nosso compromisso de responder aos questionamentos apresentados anteriormente.

Embora faça parte do currículo escolar, poucos docentes desenvolvem Dança em sala de aula na região amazônica, e quando isso acontece, geralmente é motivado por mostras culturais, sem praticamente nenhum estudo de movimento e percepção corporal, apenas como uma prática voltada para o lazer, descontextualizada da realidade e das necessidades da educação em/pela dança. Segundo relatos de professores colaboradores do Polo Arte na Escola UEA, a ênfase está no folclore e danças populares.

Existem outras dificuldades, como a falta de espaço adequado para a prática, o preconceito de alguns alunos, principalmente os meninos, além da não valorização por professores e diretores, entre outras. Tradicionalmente as aulas de Dança são pautadas no ensino de passos copiados e executados pelos alunos, onde a ênfase é o movimento, a perfeição técnica e a estética pré-estabelecida pela metodologia empregada.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Arte preconizam aspectos relacionados à dança a partir da capacidade comunicativa e expressiva desta linguagem artística, abordando o respeito à individualidade e à percepção/compreensão das diferenças individuais e culturais, além de questões artísticas que envolvem apreciação estética e produção cultural (BRASIL, 1997).

Neste contexto, o ensino dessa linguagem na escola precisa levar os alunos a aprenderem a "fazer-pensar-sentir-criticar-perceber a dança, ou seja, ler a dança" (MARQUES, 2010, p. 44). Não podemos pensar o ensino da Dança de forma tradicional – isso seria limitar a potencialidade e a capacidade de comunicabilidade, sociabilidade e expressividade desta linguagem artística.

Enquanto prática pedagógica, a Dança pode contribuir na construção do conhecimento e favorecer a criatividade, propiciando outras maneiras de pensar, agir e ser no mundo. Neste contexto, precisa ser pensada/realizada para valorizar as experiências pessoais dos alunos, favorecendo processos criativos e ampliando o olhar deles para a leitura de mundo.

Um dos professores colaboradores do Polo Arte na Escola UEA, Odacy Oliveira, desenvolve projetos nas escolas em que atua baseado na Abordagem Triangular de Ana Mae Barbosa (2012). Ele criou o Núcleo de Arte Contemporânea (NAC), espaço de realização de atividades em Artes Visuais (sua área de formação), Dança, Teatro e Música, que além de envolver uma ou mais linguagens artísticas, articula os conteúdos da disciplina, resultando em apresentações artísticas híbridas com a participação efetiva dos alunos.

Este tipo de iniciativa pautada na sistematização, ampliação e construção do conhecimento por meio das diferentes linguagens artísticas possibilita a interação com o "mundo de forma diferenciada" (MARQUES, 2012). Esperamos que este tipo de ação seja mais recorrente por parte dos professores nas escolas públicas, já que licenciados em Dança/UEA começam a se inserir nessas instituições na capital participando de planejamentos e discussões para reformulação de conteúdos da disciplina de Arte nas diversas séries do ensino fundamental e médio. Estas ações, aparentemente isoladas, já mostram resultados: fazem gestores repensar o ensino das artes em toda a região e levam as Secretarias de Educação a tentarem se adaptar às atuais necessidades deste ensino.

Alguns materiais didáticos já foram reformulados e estão sendo utilizados em sala de aula. Neles podemos perceber, ainda timidamente, a Dança dentro de uma abordagem artística e com propostas reflexivas, que estimulam práticas voltadas para o artista e sua obra, sendo as publicações ilustradas com imagens da cultura local. Este foco gera polêmica: enquanto alguns docentes a consideram de extrema importância outros têm restrições, pois a maioria dos conteúdos estabelecidos ao longo do ensino fundamental se restringe à dança indígena ou exclusivamente brasileira, privando o aluno do conhecimento sobre a prática em outras partes do mundo. Esta realidade começa a ser repensada a partir da reformulação que vem sendo aplicada ao currículo de Arte.

A instituição do Plano Nacional de Formação de Professores - Parfor1 tem contribuído para a transformação desta realidade no Amazonas ao alcançar diversas cidades e agregar conhecimento aos professores participantes.

Entretanto, no interior do Estado, as relações entre ensino e aprendizagem em Arte ainda são bastante frágeis. Isso pôde ser percebido pela equipe do Polo Arte na Escola UEA durante os anos de 2012 e 2013 por meio de um projeto de educação continuada à distância. A partir desta experiência, a equipe do Polo percebeu a importância de conhecer a realidade do ensino de Arte nestas regiões e, desde então, vem desenvolvendo a pesquisa "Uirapuru: a formação de professores em arte e sua ação pedagógica na Educação Básica em municípios do Amazonas2. Esta pesquisa, fomentada pelo Instituto Arte na Escola, já aponta dados concretos de dois municípios, mostrando que os professores que lecionam Arte na educação básica não possuem formação na área – em geral os motivos são os já mencionados anteriormente. Alguns poucos docentes tiveram experiência em Arte no curso de Pedagogia e em palestras e oficinas de curta duração.

Em relação às práticas pedagógicas, os professores participantes da pesquisa relatam que trabalham com as quatro linguagens artísticas propostas nos PCNs – Arte, com conteúdos que incluem desde História da Arte até artistas, compositores e arte amazonenses, diversidade da dança e desenho. Entretanto, a falta de conhecimento limita o desenvolvimento destes tópicos, bem como a ausência de espaços para fruição, como museus e teatros. Assim, propor experiências estéticas aos alunos é quase impossível.

A falta de formação em arte não é a única dificuldade apontada. A carência de material didático, a falta de espaços apropriados para as proposições, o tempo insuficiente para cumprir o conteúdo e o desinteresse dos alunos também são mencionados. Apesar destes desafios, os sujeitos da pesquisa possuem consciência de suas limitações e completam que atuar sem formação específica requer "esforço, dedicação, aprendizado, pesquisa e interação". Para eles, a formação continuada é uma proposta interessante para discussão, reflexão e também para aquisição de conhecimentos que contribuam para práticas pedagógicas que tornem o aluno mais consciente, reflexivo, crítico e participativo.

Os resultados parciais desta pesquisa demonstram que a região amazônica ainda vivencia uma realidade na qual a qualidade do ensino da Arte, principalmente da Dança enquanto componente curricular, está amadurecendo. Nesse sentido, é importante a atuação da UEA no trinômio ensino-pesquisa-extensão, que visa responder "às necessidades da sociedade amazonense na busca de melhor qualificar seus recursos humanos, desenvolver suas potencialidades e garantir a qualidade de vida de seus cidadãos" (Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Dança da Universidade do Estado do Amazonas - PPC - Dança, 2013, p. 07).

A UEA se insere na diversidade artístico-cultural da região na medida em que busca atender às demandas criadas com o próprio desenvolvimento do Estado, ajustando a matriz curricular de seus cursos de graduação periodicamente, levando em consideração as necessidades da região em que se encontra, valorizando a cultura local e suas peculiaridades, sem perder de vista as relações estabelecidas com o mundo.

Para tanto, foram instituídos Núcleos Docentes Estruturantes (NDE) para discutir, refletir, sugerir e apoiar alterações e ajustes que se fizerem necessários dentro de cada curso. O NDE do Curso Superior em Dança da UEA se reuniu durante os anos de 2012 e 2013 e reestruturou a matriz curricular, repensando ementas, objetivos e referências bibliográficas para as disciplinas propostas.

Crescem a cada dia as possibilidades de atuação para o profissional de dança no mercado de trabalho, exigindo do ensino superior a oferta de cursos com formação mais adequada. O grupo de professores do NDE, pensando nas necessidades da licenciatura voltada para a região amazônica, criou disciplinas para que o acadêmico adquira conhecimentos atuais que fundamentem processos pedagógicos em Dança na escola. Assim, o Curso Superior em Dança da UEA vem contribuindo significativamente para a transformação da realidade local, formando cidadãos críticos, reflexivos e participativos na sociedade, capazes de atuar com propriedade no processo de ensino e aprendizagem. Neste sentido, esperamos que mudanças significativas possam ocorrer na percepção estética e na capacidade de fruição e apreciação da arte pela comunidade em geral.
 

1 O Parfor, na modalidade presencial, é um programa emergencial instituído para atender o disposto no artigo 11, inciso III do Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009, e implantado em regime de colaboração entre a Capes, os estados, municípios o Distrito Federal e as Instituições de Educação Superior – IES. Disponível em: http://www.capes.gov.br/educacao-basica/parfor.

2 Pesquisa em andamento realizada pelo Polo Arte na Escola UEA, em 2014, com relatos dos professores: Gernei Goes (professor de Arte na rede pública de ensino, graduado em Artes Visuais - UFAM, Mestrando em Ciência da Comunicação - UFAM e colaborador do Polo Arte na Escola UEA); Odacy Oliveira (professor de Arte na rede pública de ensino, graduado em Artes Visuais - UFAM, coordenador do Núcleo de Arte Contemporânea, colaborador do Polo Arte na Escola UEA); Raissa Oliveira (professora de Arte na rede pública de ensino, graduada em Dança - UEA, Pós-graduada em Dança Educação - UEA); Juliana Luperdiga Saad (professora de Arte na rede pública de ensino, graduada em Artes Visuais - UFAM, Pós-graduada em Dança Educação - UEA); Larissa Sicsú (professora de Arte na rede pública de ensino, graduada em Dança - UEA, Pós-graduada em Dança Educação - UEA).


*Mestre em Letras e Artes pela Universidade do Estado do Amazonas; professor do curso superior em Dança na Universidade Estadual do Amazonas; bailarino e diretor artístico do Corpo de Dança do Amazonas; coordenador Pedagógico do Polo Arte na Escola UEA


Referências

BARBOSA, Ana Mae; CUNHA, Fernanda Pereira da. Abordagem triangular no ensino das artes e culturas visuais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: arte. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro06.pdf>. Acesso em: set. 2014.

MARQUES, Isabel A.; BRAZIL, Fábio. Arte em questões. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2014.

______. Linguagem da dança: arte e ensino. São Paulo: Digitexto, 2010.

PENNA, Maura (Coord.). É este o ensino de arte que queremos?: uma análise das propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais. João Pessoa: Ed. Universitária, 2001.

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  • Regiane, 22:10 - 01/10/2014
    "A falta de formação em arte não é a única dificuldade apontada. A carência de MATERIAL DIDÁTICO, a falta de ESPAÇOS APROPRIADOS para as proposições, o TEMPO INSUFICIENTE para cumprir o conteúdo e (CONSEQUENTEMENTE) o desinteresse dos alunos também são mencionados." Acredito eu que este não seja um problema apenas no Amazonas, mas do Brasil inteiro quando se trata de educação pública, a infraestrutura ruim, a má organização do currículo também já que os alunos tem uma quantidade grande de aulas de língua portuguesa e matemática e 2 aulas de artes separadas na semana, fator este que acarreta ainda mais o desinteresse dos alunos.
  • Getúlio Lima, 11:10 - 11/10/2014
    Querida Regiane, somos poucos, mas acredito que nossa insistência na formação continuada para professores de arte e nossas ações paralelas neste âmbito possam um dia modificar a realidade em que nos encontramos. Sou um sujeito esperançoso e engajado neste processo. Tento alertar meus alunos (Licenciatura Dança/UEA) da realidade que eles vão encontrar nas escolas e proponho, a todos, que utilizem a criatividade para driblar estes contratempos que existem. Sei que o quanto é difícil, pois nas escolas públicas falta isso, falta aquilo, falta mais um pouquinho... Acredito que a apreciação é um caminho que possa despertar o interesse dos alunos. O que você acha? Um abraço.

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