Boletim Arte na Escola

Mariana: bordar é desenhar com a linha

A agulha perfura o tecido, o papel e a fotografia, mas não deixa buracos. Ao contrário, os fios vão unindo ponto a ponto histórias de vida, poesias, sentimentos, desabafos e transformam uma prática milenar e artesanal em uma linguagem artística contemporânea. Apesar de todo o conceito que envolve o projeto "A bordadura nas artes visuais", desenvolvido pela professora Mariana Guimarães com o 9º ano do Ensino Fundamental 2 do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os alunos ficaram um pouco desconfiados ao saber que iriam aprender a bordar. “Observar a reação dos estudantes na proposta e depois vê-los apaixonados pela técnica e pelo trabalho dos artistas que utilizam o bordado em suas obras é uma das maiores realizações que o projeto pode me trazer”, conta Mariana.

O bordado promove a escuta íntima, estimulando a disciplina e concentração

O projeto desafia desde o princípio: os alunos são convidados a criar os seus próprios pontos de bordado. Mesmo tendo sido apresentados a algumas técnicas, ninguém precisa seguir modelos pré-determinados. “Bordar é desenhar com a linha e desenvolver o próprio ponto é um trabalho de muita criatividade”, ensina a professora. E completa: “A tecnologia, o consumo desenfreado e a mecanização de técnicas artesanais fizeram com que os trabalhos manuais fossem esquecidos. A perda do trabalho criativo é um dos grandes problemas da sociedade contemporânea, já que o uso das mãos para produção de objetos está cada vez mais distante das práticas cotidianas. Devido à facilidade na aquisição de objetos prontos, o homem perdeu parte de sua capacidade criadora, motora e reflexiva, separando as mãos do seu trabalho intelectual”, lamenta Mariana.

Alunos fizeram intervenções em suas cadernetas escolares

O objetivo do projeto é justamente resgatar essa prática artesanal, promovendo o diálogo entre o tradicional e o contemporâneo e criando conexões com outras linguagens, como a literatura e a fotografia. Para colocar a atividade em prática, o projeto foi dividido em três etapas. Na primeira, os alunos aprenderam a história do bordado, conhecendo o trabalho do Grupo Matizes Dumont, que utiliza essa arte na sua forma mais tradicional, leram contos relacionados ao tecer, experimentaram técnicas e pontos e produziram livros de pano. A segunda etapa foi reservada para um mergulho nas obras de artistas como Leonílson, Edith Derdyk, Louise Bourgeois, Lia Menna Barreto, entre outros, e também para o uso do bordado na fotografia – os alunos fizeram uma intervenção na fotocópia das próprias cadernetas escolares, propondo uma reflexão sobre a construção da identidade e da individualidade por meio da poética. Já o foco da terceira fase foi o estudo e análise de obras de artistas como João Modé, Sonia Gomes e Artur Bispo do Rosário. O trabalho saiu da sala de aula e ganhou o espaço urbano com intervenções poéticas bordadas em tecido de algodão aplicadas nas árvores no entorno da escola. O colorido das linhas também decorou áreas internas, como o pátio, e foi parar em móveis e objetos quebrados guardados até então no depósito.

Rede de diálogos
Durante todo o trabalho, os alunos eram constantemente provocados para falar sobre determinado assunto, que variava de identidade pessoal até sexualidade. “O diferencial do bordado é que é uma arte que mexe com as emoções. É individual, feita no silêncio, mas, ao mesmo tempo coletiva, porque o silêncio provoca diálogos. E não são palavras ao léu, é algo que aflora lá do íntimo, que expõe sentimentos, frustrações, esperanças, alegrias e tristezas. Quando a educação não permite que o jovem fale de si mesmo, de sua realidade de vida, é frustrante demais”, reflete Mariana.

O Colégio de Aplicação é um laboratório para os que licenciandos da UFRJ também se envolvam nas aulas, aproximando a universidade da escola. “É muito bom contar com a participação desses futuros professores”, garante Mariana. “Primeiro porque eles ficam encantados com o projeto, vão a fundo nas pesquisas, contribuem com o conteúdo. E segundo porque trazem energia, um olhar atualizado, uma vontade de mudar o mundo pela educação. Acho muito produtivo para todos nós”.

Extraclasse
A experiência de Mariana Guimarães com o bordado tornou-se foco de pesquisa para sua tese de mestrado. A ideia de resgatar as práticas artesanais para construir a identidade de um determinado grupo ultrapassou os muros da universidade e ganhou vida própria quando a professora fez seu primeiro projeto com 150 idosas oriundas de oito centros convivência e lazer das cidades de Resende e do Rio de Janeiro. O resultado foi tão produtivo que o projeto teve, anos depois, uma segunda versão com a participação de mais 100 mulheres. Depois foi a vez de levar a temática do bordado para uma oficina de arte-educação no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. “Dessa vez fizemos um trabalho com os catadores de lixo da cidade de Brumadinho”, conta Mariana. Mais recentemente, a professora desenvolveu outra oficina com militantes da Marcha das Vadias. “Acho que sou eu quem mais aprendo com esses projetos. Essas histórias de vida mostram o quanto cada um carrega dentro si e o quanto é importante falar de si mesmo para estar conectado com a própria vida”, reconhece Mariana. Para conhecer mais sobre esses projetos, visite o site.

Por Rosiane Moro
Fotos: Armando Paiva; acervo Mariana Guimarães

Saiba mais sobre o projeto assistindo ao documentário.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Leiliana de Jesus dos Santos, 15:15 - 01/04/2015
    Muito bom
  • Renilda Rocha Laeber, 20:46 - 21/11/2015
    Fico emocionada com trabalhos como esse.

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