Boletim Arte na Escola

Projeto resgatou a identidade e aumentou a autoestima dos estudantes

Lilian Kelen Sousa Pinto *

O projeto Recriando as Raízes do Brasil foi desenvolvido na Escola de Referência em Ensino Médio de Beberibe, em Recife (PE), onde leciono Artes e Teatro para alunos de 14 a 17 anos. 

Há quatro anos, os professores Pedro Henrique de Melo e Constantino Melo, das disciplinas de Português e Sociologia, fizeram um trabalho de grande repercussão. Trata-se do livro Dissertando as raízes do Brasil, que reúne textos escritos pelos alunos a partir de estudos do tradicional livro de Sérgio Buarque de Holanda, As raízes do Brasil. Participei do projeto coordenando as ilustrações da obra. Achei o trabalho tão rico que sempre tive vontade de aproveitá-lo com os alunos dos anos subsequentes. 

A alternativa foi adaptar o conteúdo produzido pelos alunos para as linguagens de Dança e Teatro. Como a Escola de Beberibe funciona em período integral, o trabalho com os alunos é feito em oficinas fora do horário das aulas regulares. Para colocar a atividade em prática trabalhei em conjunto com a professora de Educação Física e Dança, Ediane Ramos, e juntas convidamos um ex-aluno, Arylson Matheus, hoje bailarino profissional. 

Nosso objetivo era resgatar a identidade de cada estudante e fazê-los mergulhar nas próprias raízes. Muitos nem sabiam, por exemplo, que tinham descendência indígena ou portuguesa. Até possuíam hábitos e costumes típicos de seus antepassados, mas não imaginavam qual a origem de tal comportamento. 

O grande desafio foi transformar a linguagem do livro em linguagem de espetáculo. Com 25 alunos inscritos no projeto demos início às atividades, resgatando o grupo de dança Fulôres de Palco, existente na escola desde 2011. 

Passo a passo

Levamos cerca de dois anos (2013 e 2014) para tornar o projeto realidade. A quantidade de detalhes que envolvem uma produção como essa é enorme, e com os recursos limitados, o prazo também aumenta. 

Dividimos o projeto em três fases: primeiro explicamos os objetivos da nossa proposta e colocamos o grupo em contato com os textos do livro. Trouxemos os professores responsáveis pelo projeto inicial para dar uma palestra e pedimos para cada participante fazer um levantamento das próprias raízes. Também trabalhamos com exercícios de conscientização corporal e estudamos vários ritmos de dança e música, como frevo, caboclinho, afro, coco, maracatu, entre outros. 

O grupo era bem heterogêneo. Alguns alunos tinham noções de dança porque já participavam de oficinas, outros começaram praticamente do zero. Para nivelar as habilidades, a professora de Educação Física e Dança utilizou técnicas expressivas do método Laban, estimulando a criatividade e a autonomia corporal dos estudantes, e os ensinamentos da coreógrafa e educadora Isabel Marques para caracterizar o significado e os valores que o corpo traz. 

O foco da segunda fase foi a montagem do espetáculo. Para contar a história da nossa colonização de forma coerente e lúdica, dividimos a apresentação em nove coreografias distintas. A primeira parte foi dedicada à descoberta dos índios, à chegada dos portugueses e às questões sociais e religiosas trazidas pelos europeus. Depois mostramos a vinda dos negros e a miscigenação. Por último, apresentamos o homem dos dias atuais, representado pela figura de um estudante, com todos os conflitos que envolvem a sua formação racial, social e religiosa. Além disso, fizemos o trabalho de produção, como criação de figurino, cenografia e iluminação.  Para a sonoplastia procuramos selecionar músicas universais e pernambucanas, para dar maior ênfase à questão das raízes culturais. 

A terceira fase foi reservada para os ensaios e a execução dos cenários, figurinos e adereços. Contamos com o reforço de alguns alunos de fora da oficina na produção do material, como as máscaras individuais feitas de atadura gessada. Cada bailarino usa três máscaras durante o espetáculo, ou seja, produzimos 75 no total. Esta técnica é demorada e com muitos detalhes. Primeiro, usamos a vaselina em gel para proteger o rosto dos bailarinos, sobre os quais são aplicados pequenos pedaços da atadura umedecida. Este molde é coberto com massa corrida e, depois de seco, recebe a pintura. Os desenhos das máscaras buscavam identificar cada etnia. Para os portugueses, por exemplo, usamos as cores da bandeira de Portugal. Para os índios, pinturas corporais características das tribos do alto Xingu e, para os negros, elementos das tribos africanas.  

O estilo que marcou o figurino foi a praticidade. Um macacão cor de pele serviu de base para utilização de adereços como coletes, calças e bermudas largas, sungas e tops coloridos. Para construção dos cenários usamos tecido branco, cordas e cestarias. 

Nesta fase também precisamos de recursos financeiros para finalizar a montagem. Apesar da boa vontade do grupo e da colaboração de outros alunos e até familiares, a conta não fechava. Foi preciso o envolvimento da gestora da escola para buscarmos parcerias na comunidade. 

 Toda a produção, como criação de figurino, cenografia e iluminação, teve participação dos alunos

Longo aprendizado

Não foi um caminho fácil, mas acredito que é da adversidade que vem o crescimento, o amadurecimento, a responsabilidade. E esse, com certeza, foi o maior aprendizado do projeto. No início, os próprios alunos não acreditavam ou não tinham a real dimensão do que estavam prestes a construir. Porém, o envolvimento cresceu na mesma proporção do espetáculo. Eles perceberam que não estávamos ali apenas para ensinar passinhos de dança, e sim que atrás do palco existe técnica teatral, dança profissional, que há um trabalho de criação muito grande. Pouco a pouco, foram se vendo como artistas de verdade, porque cobramos esse comportamento deles, de respeito, disciplina e postura profissional. Em troca, ganhamos um grupo com a autoestima elevada. 

Além disso, a presença de um ex-aluno que tornou-se bailarino, que vive hoje exclusivamente de seu trabalho, mostrou que a arte não é uma atividade marginalizada e pode, sim, ser um caminho profissional. 

Resultados

Ao longo do projeto o espetáculo cresceu e conseguimos apresentá-lo no mais tradicional teatro de Recife, o Santa Isabel. A maioria dos 400 alunos da escola que o assistiram nunca havia ido ao teatro, e quem trabalha com artes cênicas sabe como isso é importante. 

Com a repercussão do projeto, fomos convidados para participar do “21º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco”, no início de 2015, no Centro de Pesquisa Teatral Apolo /Hermilo, em Recife. Os resultados positivos deram projeção ao nosso trabalho, ganhamos mais alunos e hoje já estamos montando um novo projeto. Conseguimos, enfim, fincar as nossas raízes. 

*Lilian Kelen Sousa Pinto (à direita, ao lado de  Ediane Ramos) é professora de Artes e Teatro na Escola de Referência de Ensino Médio de Beberibe, graduada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco e participa do Grupo de Estudos do Polo UPE.

Bibliografia 

FERRAZ, Maria Heloísa C. de T.; FUSARI, Maria F. de Rezende e. Metodologia do ensino de arte: fundamentos e proposições. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Cortez, 2009. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 

LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. 3. ed. São Paulo: Summus, 1978. 

MARQUES, Isabel A. Dançando na escola. São Paulo: Cortez, 2003. 

______. Ensino da dança hoje: textos e contextos. São Paulo: Cortez, 1999. 

MELO, Constantino José Bezerra de; MELO, Pedro Henrique Lacerda de (Org.). Dissertando as raízes do Brasil. Beberibe: Escola de Referência em Ensino Médio -EREM;  Recife: 2P2 Comunicação, 2013. 

REVERBEL, Olga Garcia . Jogos teatrais na escola: atividades globais de expressão. Il. Mariângela Haddad. São Paulo: Scipione, 2009.

SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva, 2005.

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