Boletim Arte na Escola

A encenação não é o único trabalho artístico possível. É importante não deixar o aluno desconfortável

Rosiane Moro

Ensinar teatro na sala de aula é uma experiência única. As opções de proposições são inúmeras, assim como os benefícios para os alunos, que ganham com a melhor integração do grupo, aumento de repertório cultural, desinibição, maior fluência verbal e até capacidade de improvisação. O maior risco nessa área, segundo Marose Leila e Silva, especialista em pedagogia do teatro e professora da EMEF Tenente José Maria Pinto Duarte, em São Paulo, é pensar o teatro apenas como espetáculo. “Fazer uma montagem teatral não é a principal função da escola. O importante nessa linguagem é o professor saber qual conteúdo deseja trabalhar, o que pretende construir com o grupo e, a partir daí, preparar suas aulas.” 

Joaquim Gama, coordenador pedagógico da SP Escola de Teatro e doutor em pedagogia do teatro com pesquisa voltada para o ensino e formação do artista, acredita que a principal tarefa dos educadores é desmistificar o tema. “Por uma questão cultural brasileira, o teatro é considerado uma arte elitista e, por isso, não faz parte do repertório da maioria dos alunos, muitos acabam confundindo teatro com novela”, alerta. A professora Marose concorda: “Eu mesma só fui ter contato com essa arte na faculdade, por isso acho uma grande evolução os alunos terem essa experiência em sala de aula”, completa. 

Teoria na prática

Uma das vantagens da linguagem do teatro é a dinâmica das aulas, com muita movimentação, exercícios, jogos, brincadeiras. O perigo, no entanto, é transformar a aula apenas em experimentação. “A parte teórica não pode estar desvinculada da prática, principalmente porque a base do teatro é o texto e trabalhar com ele é uma experiência extremamente enriquecedora”, esclarece a professora Marose. Como exemplo, cita dois textos que utiliza em sala de aula: o primeiro é Lisístrata, de Aristófanes. “Os alunos ficam impressionados ao saber que um texto escrito 400 anos antes de Cristo abordava a greve de sexo feita pelas mulheres para acabar com a Guerra do Peloponeso”, observa. O outro é a peça Gota D’água, de Chico Buarque de Holanda, inspirada no mito de Medeia. “Estudar o texto amplia o conhecimento e o repertório e não precisa ser chato.” 

Para trabalhar com os alunos, o professor Joaquim Gama indica as ferramentas didáticas dos jogos teatrais, porque elas estabelecem um campo lúdico de aprendizagem. “Eu acredito que a gênese do teatro está nos jogos de faz-de-conta, nas brincadeiras de infância, nos jogos populares. Dentro desse ambiente confortável, os alunos acabam se soltando, representando vários papéis e sem perceber estão fazendo teatro.” 

Outro ponto a ser trabalhado é a importância de esclarecer aos alunos que a encenação não é o único trabalho artístico possível, principalmente porque há quem não se sinta à vontade diante do grupo. “A atividade teatral é muito ampla, envolve a produção de texto, cenografia, figurino, maquiagem, iluminação, sonoplastia, direção, entre outros. Tem atividades para todos, representar é apenas mais uma delas”, alerta o professor. 

O importante é não forçar o aluno a fazer algo que o deixe desconfortável. “Ele também pode aprender observando”,  ensina Marose e completa: “O fascinante no ensino de teatro é justamente desconstruir o que é teatro na cabeça dos alunos. É fazer quem tem vergonha se soltar porque está todo mundo sendo ridículo junto, é fazer quem não gosta de ler ficar encantado com um texto”. 

As opções de proposições são inúmeras, assim como os benefícios para os alunos 

O profissional

Os dois educadores reforçam, porém, que a atividade de professor de teatro deve ser exercida exclusivamente por quem tem formação na área. “Seria o mesmo que pedir para o professor de Português dar aula de Matemática. Além de não ter experiência e nem vocação, não é ético com o próprio aluno”, reforça Marose.  Para o professor Joaquim Gama, o momento é de ambiguidade. “É um grande avanço reconhecer o teatro como área de conhecimento e vê-lo na escola, porém a prática ainda é uma utopia, pois não temos nem professores em número suficiente nem um programa de ensino efetivo.” 

Para solucionar o problema, além da maior oferta de cursos de formação (hoje existem apenas cerca de 35 faculdades no Brasil), é preciso tornar a escola mais atrativa para esses profissionais, tanto em termos de remuneração quanto reconhecimento profissional. “Vale reforçar, também, que o aprendizado não se restringe à universidade e não termina nunca. Buscar atualização em livros, em cursos e até na internet é tarefa de todo professor. No YouTube, por exemplo, é possível encontrar trechos de teatro de bonecos de qualquer parte do mundo, que podem ser usados como base de algumas aulas”, finaliza Marose.  

Para trabalhar em sala de aula

A professora Marose sugere uma proposição para relacionar a arte e a vida. 

IntervenAção Parangolé na Praça

Objetivo: criar propostas, experimentos artísticos que alcancem a rua, explorem o cotidiano, a relação entre arte e vida.

Conteúdo: Parangolé. IntervenAção no espaço urbano.

Obs.: Os parangolés, criados por Hélio Oiticica, eram capas feitas com tecidos coloridos e para serem usados pelas pessoas. O termo parangolé, no dicionário Aurélio, corresponde a uma gíria carioca que pode ser traduzida como conversa fiada.

Faixa etária: 9º ano

·  Assistir vídeo/ documentário¹ Hélio Oiticica-museu é o mundo;

·  Discutir com o grupo conceitos apresentados no vídeo relacionando-os, por exemplo, com as vanguardas artísticas, com as manifestações da cultura brasileira como o carnaval, as rodas de samba,  o tropicalismo, as montagens teatrais no teatro Oficina como “Roda Viva” etc.

·  Criar parangolés utilizando diferentes materiais: tnt, linha, agulha, tampinhas, botões, barbante etc.

·  Sair à rua (praça) com os estudantes e oferecer os parangolés confeccionados para as pessoas.

·  Avaliar com os alunos como foi a interação com as pessoas utilizando o parangolé e a experiência com a IntervenAção. 

Uma das vantagens da linguagem é a dinâmica das aulas, com muita movimento, exercícios, jogos, brincadeiras

Saiba mais:

Neste vídeo produzido e cedido pela Fundação de Desenvolvimento Escolar, Joaquim Gama dá dicas de como trabalhar o teatro no ambiente escolar. 

Bibliografia

SPOLIN, Viola. Jogos teatrais na sala de aula: um manual para o professor. São Paulo: Perspectiva, 2007.
______. Jogos teatrais: o fichário de Viola Spolin. Trad. Ingrid Dormien Koudela. São Paulo: Perspectiva, 2001.

DESGRANGES, Flávio. Quando teatro e educação ocupam o mesmo lugar no espaço. Disponível em: . Acesso em: abr. 2014.

GAMA, Joaquim. Teatro: uma experiência criativa. Disponível em: . Acesso em: abr. 2014.

KOUDELA, Ingrid Dormien. A ida ao teatro. Disponível em: . Acesso em: abr. 2014.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Francisco Cruz do Nascimento, 20:46 - 04/05/2015
    Adorei a contribuição dos dois profissionais, porque refletiram a desconstrução de um teatro excludente que, de fato, não contribui com a formação criativa dos estudantes e implica numa mera formação de plateia sem gosto, sem tato, sem ato! O teatro na escola precisa ter essa vida pulsante, brincante, inclusiva, disposta à contextualização e a emancipação pela aprendizagem.
  • Maria Ap. Veiga, 09:50 - 05/05/2015
    Muito bom o texto e a proposta de trabalho em sala de aula com intervenção; já trabalhei com jogos de aquecimento e improvisação, mas usando intervenção ainda não. Gostei e vou tentar fazer em trabalho a ser desenvolvido com a linguagem de teatro .

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