Boletim Arte na Escola

Novas vivências mexeram com os sentidos dos bebês

Novas vivências mexeram com os sentidos dos bebês

Por Elisângela da Silva de Campos *

Sempre trabalhei na Educação Infantil, com crianças entre 3 a 6 anos, até que no final de 2013 surgiu uma oportunidade na minha instituição, o Centro de Educação Infantil Pão de Mel, em Joinville (SC), para assumir o Berçário 1, com bebês de quatro a 14 meses. A possibilidade me seduziu logo de cara, porque havia lido um livro do professor Paulo Fochi, especializado em Educação Infantil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS, RS), que dizia: “o bebê é curioso para descobrir o mundo, basta dar condições”. Eu sempre acreditei nessa premissa. Tanto na vivência escolar quanto em casa, com a minha filha Jordana, de quatro anos, aprendi que bebês conhecem o mundo por meio de sensações e estímulos. Quanto mais descobertas, maior a evolução, e eu queria muito contribuir com essa fase. Não tinha ainda um plano muito formatado, mas busquei inspiração no poema “As cem linguagens da criança”, de Loris Malaguzzi, e batizei o meu projeto com o nome "Dos bebês nascem... Cem linguagens".

Apesar de super motivada com a nova empreitada, tive receio de lidar com crianças tão novas e com pouca compreensão do mundo, ainda em fase de adaptação. Já nos primeiros dias chamei os pais e contei sobre o projeto que eu gostaria de desenvolver ao longo do ano: trabalhar com o estímulo de diversos sentidos, trazendo materiais novos para a sala de aula, e ocupar praticamente todos os espaços da escola, o que daria aos pequenos muita liberdade, sempre com supervisão cuidadosa. Era importante tê-los como aliados, já que eu estava propondo uma abordagem completamente diferente das escolas convencionais. Enfatizei que me sentia segura com a proposta, que iria colaborar muito para a autonomia, a segurança e individualidade de cada um. Foi fácil ganhar o sinal verde.

A minha revolução começou na sala de estimulação. O ambiente era organizado demais para o espírito inquieto dos bebês. Espaços desafiadores permitem que eles expressem suas "cem linguagens", então transformar a sala em um local mais significativo seria a primeira tarefa.  Os brinquedos ficavam em lugares altos e não havia material que eles pudessem manusear a vontade, rasgar, sujar, levar à boca. Cercamos a sala com estantes baixas, para que tudo ficasse ao alcance dos pequenos, e isso deu outra dinâmica às atividades. Eu acredito que o ambiente também educa, faz pensar, faz com que eles elaborem hipóteses. Era importante provocar novos interesses sensoriais, motores e sócio-afetivos. Por isso, modificávamos periodicamente os ambientes inserindo neles novos objetos e instalações, sempre com muita cautela e bom senso, pois o excesso de estímulos poderia confundi-los. Nossa ideia era dar tempo e espaço para os bebês fazerem suas próprias escolhas. 

Ao lado da sala havia um espaço aberto para o banho de sol de todas as manhãs. Tive a ideia de revestir esse solário com um grande tapete de plástico-bolha. No primeiro dia levei apenas três bebês para explorar a novidade. Só a experiência tátil já foi uma festa: eles não se contentavam em esfregar, apertar, mas deitavam, encostavam o rosto e até tentavam se enrolar na manta de plástico.  Incrementei um pouco mais o espaço, oferecendo formas variadas, como tubos de papelão (de papel higiênico ou toalha) e também formas cônicas de novelos de lã, enfim, objetos que manuseamos sem perceber que têm forma e função interessantes. Segui introduzindo novos materiais, como tinta guache, que ampliou a experiência visual, com as cores e suas misturas. Eles se sujavam bastante, mas também se divertiam e desenvolviam novas percepções.

Outra experiência instigante aconteceu com caixas de leite: higienizamos e as revestimos com papel craft. Deixamos que eles colorissem com a tinta guache, disponibilizada fartamente. Depois que a "obra" secou, colamos em cada uma o retrato de um aluno. Recheamos as caixas com as páginas de revistas que eles rasgavam e demos um volume diferente ao objeto.  Era interessante observar como eles se reconheciam ou identificavam os outros bebês nas fotos. Foi um exercício de análise da autoimagem e da imagem do outro: em geral, eles entregavam a caixa ao amigo cuja foto estava estampada. Havia uma comunicação não verbal ali, um diálogo de grupo. O bebê em sua interação com o ambiente torna-se sujeito de sua aprendizagem, explora constantemente suas “cem linguagens” e nos mostra infinitas outras que deles nascem.

Também confeccionamos móbiles que penduramos na altura dos bebês para servir à exploração visual, tátil e sonora. As crianças podiam descobrir as potencialidades de seu próprio corpo por meio de suas ações sobre esses objetos. O bebê tende a providenciar maneiras próprias de executar tais ações, seja andar e se segurar no móbile, tirar e colocar bolinhas dentro da cesta, permanecendo longos períodos naquela livre exploração. 

Criamos um túnel em formato de casa com papelão decorado, com imagens variadas coladas em seu interior. Além de interagir com as figuras, as crianças puderam experienciar conceitos de fora e dentro, em cima e embaixo, ausência temporária no jogo do esconde-esconde e desafios motores, alguns dos aspectos intencionalmente planejados para essa construção. 

O conhecimento de si mesmo e do mundo foram explorados com as imagens dos bebês coladas na casa/túnel: eles se reconheciam e identificavam os coleguinhas. A sala dos bebês já dispunha de um espelho na parede, mas ampliamos a brincadeira colocando outro no chão. Diante do reflexo das próprias imagens e dos amigos, as crianças externaram espanto e admiração, e se divertiram dando muitas gargalhadas. 

Mobilidade

Como se sabe, os pequeninos não podem correr livremente pelo pátio, como fazem as crianças do Maternal, mas também não é justo que fiquem confinados em salas à prova de qualquer risco. Comecei a levá-los para banhos de sol no gramado. Ficávamos debaixo de um ingazeiro, com vista para o parque onde os maiores brincavam. Assim, além do estímulo visual, eles podiam ouvir as risadas, os gritos, as músicas que os mais velhos cantavam. Levávamos livros, contávamos histórias e eles pareciam adorar a experiências de engatinhar por ali, sentir a grama, a textura do papel celofane, de tecidos. 

Alguns começaram a andar ali, e quando ganhavam confiança iram direto para o ateliê de arte, um espaço aberto, com uma parede de azulejos para pinturas, uma mesa grande para as diversas produções, utilizado por todas as professoras conforme planejamento de cada uma, contemplando atividades artísticas/de artes referentes aos projetos desenvolvidos pelas turmas. Eles já reconheciam o ateliê como um espaço deles. 

Mais até do que a sombra do ingazeiro eu queria dar mobilidade à turminha. Queria que eles pudessem se apropriar de cada canto, só que muitos dependiam do meu colo ou das duas professoras assistentes para ir de um lugar a outro. Resolvi isso com a ajuda de um servente da escola, que colocou rodinhas de rolimã em caixas de madeira. Revestimos os "vagões" e formamos um trenzinho. Os bebês iam a bordo satisfeitos, descobrindo novos espaços e percepções. Depois fizemos a mesma coisa com berços antigos: colocávamos os bebês neles e saíamos deslizando pela escola, reforçando a noção de pertencimento. 

A turma tinha 14 bebês e como todas as atividades eram experimentais, eu começava sempre por pequenos grupos. Três em um dia, outros três em outro... Levava um tempo para que todos estivessem no mesmo espaço, envolvidos com a mesma proposta. Todas as atividades tinham muita vigilância, mas pouca interferência, já que um dos aspectos do nosso trabalho era justamente reforçar a autonomia e a segurança de cada um.

Fui ganhando a certeza de que estávamos no caminho certo quando notei que não se ouvia mais choro de bebê pela escola, pelo menos não aquele padrão, manhoso, incansável. Eles ficavam de fato focados nas atividades propostas, e alternavam bem as atividades com o descanso, além de comerem melhor.

Mais encorajada, parti para a exploração de novas vivências, afinal a proposta era mexer com todos sentidos. Aproveitei a oralidade aguçada dos bebês para trabalhar também o paladar. Preparamos gomas comestíveis e bem coloridas para que eles percebessem as diferenças na cor e no sabor. Qual é, afinal, o sabor do verde, do rosa etc.?

Tintas e barro

Cheios de estímulos, os bebês pareciam mais e mais prontos para novos desafios. Partimos, então, para a iniciação artística: uma pintura vertical sobre papel craft, que despertou novas sensações com o manuseio de tintas e pincéis e percepção de cores. Usamos vários suportes para a pintura, deixando a nossa marca no interior da escola, num exercício de corporeidade, movimento, experimento. Sempre fiz questão de valorizar muito a produção deles. As pinturas, tanto as verticais quanto as feitas em cima da mesa, foram expostas no corredor da escola e eles ficavam superatentos sempre que passavam por suas elas.

Introduzimos a argila para que os bebês sentissem como o barro amolecia ao se misturar com a água. A bagunça e a sujeira compensavam: bastava observar como eles se concentravam na atividade e ampliavam a percepção do tridimensional.

Os pais se mostravam parceiros e eram também um estímulo para seguir adiante. Resolvi envolvê-los em uma atividade e juntos tecemos o que chamei de "tapete das sensações". Oferecemos a eles pedaços iguais de algodão grosso, cru, e pedimos que, em casa, os revestissem com materiais diversos. Cada família customizou a seu modo e, juntos, costuramos os pedaços com espuma, plumas e outros tecidos.  Depois de pronto, o tapete entrou para o "acervo" dos pequenos como mais uma peça para exploração de formas e texturas.  Foi também apresentado na exposição que o CEI promoveu com os melhores trabalhos do ano.

Luz e sombra

Crianças ficaram fascinadas com jogos de luzes

Crianças ficaram fascinadas com jogos de luzes

Um das atividades mais gratificantes aconteceu por acaso, mas ensejou muitos desdobramentos. No começo do inverno chove muito em Joinville. Estávamos há dias presos às atividades na sala de estimulação até que, numa manhã, o sol voltou a brilhar forte. Corri para a sombra do ingazeiro com a minha turminha, mas tivemos que recorrer a pedaços de tecidos de malha para protegê-los do sol. Os bebês ficaram maravilhados quando viram a sombra dos maiores, que brincavam no pátio, refletida na nossa cortina improvisada. Convidamos alguns desses alunos para se movimentar atrás do tecido e os bebês mostraram curiosidade com as formas que apareciam ali.

Dentro da sala de aula continuamos a explorar o jogo de luz e sombra e mantivemos a presença de dois ou três alunos maiores. Escurecemos a sala, usando cortinas de TNT preto, pedimos aos pais que mandassem lanternas e usamos aqueles enfeites comuns de Natal, luzes dentro de mangueira, assim os bebês poderiam mexer e até colocar na boca sem perigo nenhum. Um dos pais, que trabalhava com eventos, emprestou um jogo de luz profissional. Foi uma festa de cores e sensações.

Os bebês se mostravam mais e mais preparados. Quando havia festas na escola eles davam show. Ninguém chorava nem ficava envergonhado. Eles apreciavam tudo com muito bom humor e os que já tinham desenvoltura motora dançavam, cantavam, com total noção de pertencimento.

Cheguei ao final do ano 2014 totalmente satisfeita com a evolução do grupo. Provei, na prática, que os bebês podem perceber a arte desde os primeiros meses de vida e são capazes de expressar seus saberes e percepções de mundo talvez em muito mais do que cem linguagens. 

*Elisângela da Silva de Campos é pedagoga e participa do Grupo de Estudos do polo Univille da Rede Arte na Escola 

Referência bibliográfica

FOCHI, Paulo.  Afinal, o que os bebês fazem no berçário?: comunicação, autonomia e saber-fazer de bebês em um contexto de vida coletiva. Porto Alegre: Penso, 2015.

Brincar com tintas e barro foi prazeroso

Brincar com tintas e barro foi prazeroso

Comentários Deixe o seu comentário

  • MIRIAM CARNEIRO CRUZ, 19:07 - 11/08/2015
    adorei esse projeto . parabéns
  • Amanda Gasparetto, 10:09 - 02/11/2015
    Trabalho com musicalização para bebês em Santos/SP e fico muito feliz em ler sobre iniciativas como essa. A rigidez do modelo tradicional de ensino não permite que os bebês explorem os espaços, os objetos e se expressem em suas cem linguagens. Isso é muito limitador para o aprendizado e o desenvolvimento deles. Parabéns pelo projeto criativo e sensível e que outros trabalhos como esse possam se multiplicar por todo o Brasil!

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