Boletim Arte na Escola

A escola é o lócus privilegiado da formação do docente, reconhecendo essa dimensão em seu trabalho, aperfeiçoando as práticas e gerando mais conhecimentos

A escola é o lócus privilegiado da formação do docente, reconhecendo essa dimensão em seu trabalho, aperfeiçoando as práticas e gerando mais conhecimentos

Rosiane Moro 

Todo professor sabe que a graduação universitária é apenas o primeiro passo da sua formação e que ainda terá muitos anos de estudo pela frente para complementar sua educação inicial.  O problema é quando vai para sala de aula, e atuando em dois ou até três turnos, não sobra tempo para se dedicar à pesquisa, e muitas vezes nem dinheiro para investir em cursos, seminários e congressos. Há ainda a falta de incentivo e de reconhecimento por parte das escolas e até de um plano de carreira específico. 

A boa notícia é que esse cenário está começando a mudar. O Plano Nacional de Educação, estabelecido pelo MEC, lançou metas importantes a serem implementadas nos próximos anos com foco no docente, como a formação, em nível de pós-graduação, de 50% dos professores da educação básica, a formação continuada na área de atuação do professor e planos de carreira que devem ser estabelecidos por cada município. 

Dentro desse contexto de valorização da educação continuada, ganha destaque a figura do professor que consegue incorporar a pesquisa às atividades do dia a dia. “Isso é inerente ao exercício da docência, considerando que os processos de ensino e aprendizagem pressupõem a construção de um conhecimento específico. A partir desse ponto de vista, não existe professor que não seja pesquisador. O que ocorre é que a dimensão da produção de conhecimento, por não ser sistematizada, acaba não sendo reconhecida”, explica a educadora Maria Alice Setúbal. E completa: “Mesmo sem intencionalidade explícita, o professor no exercício da docência está produzindo um conhecimento que é expresso tanto na sua atividade, como na produção do aluno no ato de aprender. A escola é o lócus privilegiado da formação desse docente, reconhecendo essa dimensão em seu trabalho, aperfeiçoando as práticas e gerando mais conhecimentos. É importante que as redes de ensino forneçam as condições necessárias para que a escola exerça seu papel de formação do professor”. 

A compreensão da pesquisa como componente da prática educativa, assim como a prática oriunda da ação de pesquisa é uma relação pouco explorada no processo de formação inicial do professor. Essa é a opinião de Jalmira Damasceno, professora do curso de Pedagogia e coordenadora do polo Arte na Escola na Universidade Federal da Paraíba, campus Bananeiras. “Produzir sentido, acerca dessa relação, no fazer cotidiano da profissão se torna mais difícil pela própria demanda de trabalho que esse cotidiano absorve. Porém, acredito ser esse o nosso desafio, como professor da educação básica e como professor da universidade no contexto da formação de professores. É necessário compreendermos que não há uma dicotomia entre pesquisa e prática, mas características diferenciadas que constituem a relação entre as duas.” 

Paixão como referencial

A pesquisa ganha mais força ainda quando avaliamos a frágil formação do professor. Por isso, complementar os estudos com leituras constantes e com a articulação da teoria com a prática é fundamental para docência. “Buscar referenciais teóricos e confrontá-los com a prática é um exercício muito valioso”, acredita Celso Vasconcelos, especialista em educação e autor de vários livros sobre o tema. Para ele, todo professor deve selecionar um tema pelo qual seja apaixonado e transformá-lo em seu referencial de pesquisa. “Sei que muitos alegam falta de tempo, mas se você levar em consideração que até a aposentadoria o professor tem 30 anos de atividades, não acredito que ao longo desse período ele não seja capaz de se aprofundar no seu tema de interesse.” 

Outra dica do educador, que já foi professor, coordenador pedagógico e gestor escolar, é utilizar a reunião pedagógica semanal para complementar a pesquisa com a troca de experiências com os outros professores. Ele alerta que no caso específico do ensino de artes, a pesquisa ganha maior relevância, uma vez que a disciplina não tem o mesmo reconhecimento que as demais dentro das escolas, cabendo aos professores da área reverter essa visão equivocada. “A arte será o referencial da aprendizagem no futuro, já que os professores de outras áreas vão entender que por meio dela é possível ensinar qualquer disciplina de forma lúdica, mas até lá temos um longo caminho pela frente”, assegura. 

Em algumas regiões do país, o trabalho será ainda mais árduo, como nos conta o professor da Escola Liceu Nóbrega, de Recife (PE), Marcelo José Santos. “Acho que o nosso Estado está bem atrasado em relação aos outros. Por aqui ainda é muito comum termos professores de outras disciplinas dando aulas de artes”, afirma. A busca por atualização é feita com muito esforço. “Leio muitos livros, faço pesquisas na internet e participo das reuniões do polo Arte na Escola da Universidade de Pernambuco. É lá que estou aprendendo a sistematizar e documentar as minhas pesquisas”, diz o professor. Outra dificuldade é conseguir liberação das escolas para participar de cursos e congressos. “É preciso explicar para os gestores a importância da atualização”, desabafa Marcelo. 

Sala de aula

Poucas são as profissões que têm um vasto laboratório de pesquisa, como a sala de aula, à sua disposição. Nela é possível testar e aperfeiçoar as práticas de ensino no dia a dia, desde que a temática seja séria e bem estruturada. “Não existe prática consistente sem embasamento teórico, por isso quando o professor entra em sala de aula, já começou a sua pesquisa de trabalho, mesmo sem perceber. O que falta a ele é organizar esse estudo, registrar o desenvolvimento das atividades, formatar suas conclusões e experiências em forma de projeto e divulgar para os colegas”, avalia Leila Baptaglin, professora do curso de Artes Visuais e coordenadora do polo Arte na Escola na Universidade Federal de Roraima. “É frustrante ver trabalhos ótimos sendo realizados em sala de aula e o professor não colocar isso no papel, não compartilhar”, reforça. 

Já Eliane Tinoco, professora substituta da área de Ensino do curso de Artes Visuais e coordenadora do polo Arte na Escola na Universidade Federal de Uberlândia, diz que a pesquisa em sala de aula é importante, mas muitas vezes não é valorizada nem dentro da própria universidade – há alunos que se formam sem fazer o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). “Por isso é importante ir além da graduação, cursar mestrado e doutorado, onde se aprende a pesquisar, analisar e sistematizar o seu objeto de interesse”, defende. Outro ponto destacado pela professora é a implantação de um plano de carreira, pois só assim o profissional tem incentivo para voltar para a universidade. 

Tempo de pesquisa

Sistematizar todos os processos em sala de aula requer tempo, disciplina e dedicação do professor, e o mesmo vale para quem se lançar nos cursos de mestrado e doutorado. “Acredito ser esse o nosso desafio. Pensar o registro, a fundamentação da ação, bem como aprender a construir questionamentos sobre o fazer e formular hipóteses acerca das proposições de aprendizagem é o caminho para a construção da ‘práxis’, no sentido mais amplo desse conceito”, observa Jalmira. 

Todo processo de transformação leva tempo para se tornar realidade, mas os resultados obtidos por quem saiu na frente são claros. No Rio Grande do Sul, a prática de pesquisa já vem sendo incorporada ao curso de formação do professor. “Ainda escutamos nas escolas discurso de alguns professores que afirmam que a academia / universidade está afastada das salas de aula. Por outro lado, percebo que cada vez mais os professores de redes de ensino estão buscando aperfeiçoamento em nível de pós-graduação e realizando pesquisas que problematizam sua prática. Alguns programas do MEC, como o PIBID, também contribuem para a aproximação da universidade com a escola e, com a chegada de egressos desses programas nas instituições de ensino, penso que a pesquisa se torna mais presente no cotidiano do professor. Percebo que atualmente nossas licenciaturas incentivam cada vez mais a pesquisa, panorama bem diferente de anos atrás. Um exemplo é que as práticas vinculadas às disciplinas ocorrem desde o início dos cursos e não apenas nos estágios finais, o que contribui para a relação teoria e prática ao longo da formação”, esclarece Caroline Bertani da Silva, coordenadora dos cursos de Artes Visuais e do Polo Arte na Escola na Universidade Feevale, além de professora da rede pública de ensino em Porto Alegre (RS). 

Comentários Deixe o seu comentário

  • Renilda Laeber, 08:23 - 18/07/2015
    Procuro sempre me reciclar, aprender mais, tenho muita vontade de fazer mestrado, porém são poucas as faculdades que oferecem fora do eixo Rio-São Paulo- Belo Horizonte. É preciso ofertar mestrado à distância ou outra alternativa que torne viável a participação dos professores em pós-graduação ( que não seja somente a nível de especialização).

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