Boletim Arte na Escola

Para Anna Marie, arte é ação, é a performance do próprio corpo, dos sentimentos, da poesia, da linguagem

Para Anna Marie, arte é ação, é a performance do próprio corpo, dos sentimentos, da poesia, da linguagem

Rosiane Moro

A artista plástica Anna Marie Holm circula com frequência pelas escolas públicas da Dinamarca – ela é uma das artistas contratadas pelo governo para dar oficinas de artes para as crianças. Seu peculiar estilo de ensinar e pensar arte são um respiro dentro do sistema tradicional de ensino dinamarquês. “A minha metodologia é bem diferente da que é aplicada nas aulas de arte do currículo. Gosto de trabalhar sem um roteiro predefinido, praticamente improvisado. O processo de aprendizagem é construído junto com os alunos e o resultado é uma energia criativa muito poderosa, que só nasce se for corretamente provocada”, explica. O trabalho da artista visa não apenas desenvolver e instigar o lado artístico das crianças, mas fazer com que se tornem indivíduos mais críticos e cientes de seu papel na sociedade.

Em visita ao Brasil, no final de maio, para lançar o seu terceiro livro traduzido para a língua portuguesa, Eco-arte com crianças, a artista explicou como desenvolve seu método de trabalho. Ciente da dificuldade de usar sua metodologia dentro do currículo tradicional, Anna frisa, antes de tudo, ser artista e não professora, mas defende veementemente a necessidade da educação autônoma como o melhor caminho para potencializar os processos de criação das crianças.  

Segundo ela, existem duas formas distintas de trabalhar. A primeira, pelos métodos tradicionais de ensino, que ela define como forma organizada, com materiais predefinidos, orientações durante o processo e tempo determinado para a realização das tarefas. A outra, que ela acredita, aplica e divulga, é a forma menos determinista, onde a liberdade de criação é quem dita o ritmo das atividades e qualquer material presente no ambiente pode se transformar em ferramenta de trabalho, como terra, areia, pedras, madeira, papéis, galhos, folhas. “O que mais me atrai é que a gente começa a atividade e não tem a menor ideia de como vai terminar. Mas o produto final é o que menos importa, o meio que é o bem mais valioso”, destaca.

Neste caso, o próprio ambiente, repleto de materiais inusitados, já é um convite ao trabalho e os pequenos só precisam de alguns minutos para tomar conta e interagir com o espaço.  “As crianças são artistas natas. Se dermos abertura, elas se encarregam do resto”, acredita. Para ela, arte é ação, é a performance do próprio corpo, dos sentimentos, da poesia, da linguagem. “Na escola ideal deveria existir o dia de arte, sem hora para começar, sem hora para terminar e sem a condução do professor dizendo faça isso ou faça aquilo.”

Só que trabalhar de forma tão liberta exige professores de ouvidos atentos para captar a mensagem das crianças, preparados para encarar imprevistos, incentivadores do processo de criação a partir das narrativas que surgem espontaneamente durante a aula e dispostos a experimentar junto. “Quem consegue atuar dessa forma vai presenciar um momento mágico, com as crianças dando vida aos materiais, transformando tudo em sujeito e se conectando com o meio ambiente e com o outro. É tudo muito holístico”, afirma Anna Marie.

O resultado de suas oficinas são instalações, esculturas, performances, ou seja, tudo que dialoga com a arte contemporânea. Mas frisa: “Eu não ensino arte contemporânea, eu sou a arte contemporânea. Não sou conectada com a arte moderna, o que eu gosto é do ato criador do momento, do hoje, do agora”. 

Arte sustentável

Em Eco-arte com crianças, Anna Marie defende uma mudança radical. “As escolas deveriam abolir a tinta acrílica, as peças de plástico e começar a pensar em uma arte mais orgânica, com outros materiais. Jornais, caixas, descartáveis, qualquer coisa vira arte. Comprar é fácil, mas o consumismo produz um sujeito que não consegue pensar além do objeto adquirido”, alerta, destacando que existe uma variedade infinita de escolhas sustentáveis. “O professor precisa pensar o material mais profundamente. Só movê-lo de um lugar para o outro já muda sua narrativa primária. Sempre é possível fazer melhor do que já foi feito antes.” 

Quem vê Anna Marie falando de forma tão apaixonada pode rotulá-la de radical, mas ser extremista é algo que a artista rejeita com veemência e reforça que sempre está aberta para novas possibilidades. Por exemplo, o uso constante da tecnologia pelas crianças. “Isso faz parte do mundo, não tem como parar e eu não tenho medo desse processo. Só acho que é preciso pensar de que forma vemos a tecnologia, como ela está presente em nossas vidas e como se relacionar com ela de forma sadia”, finaliza. 

Serviço:

HOLM, Anna Marie. Eco-arte com crianças. São Paulo: Ateliê Carambola Escola de Educação Infantil, 2015.

Anne Marie gosta de trabalhar sem roteiro predefinido, construindo o  processo de aprendizagem junto com os alunos

Anne Marie gosta de trabalhar sem roteiro predefinido, construindo o processo de aprendizagem junto com os alunos

 

 

Comentários Deixe o seu comentário

  • Rosangela Montemor, 19:35 - 26/10/2017
    Adoro a filosofia de arte da Anna Marie, penso igual, arte vai além do material. Precisamos urgente! Não adianta pedir socorro , precisamos agir, mudar o nossa atitude em relação ao meio ambiente. Fazer e pensar arte está na forma de transformar, dar outro sentido as coisas.Sem destruir o planeta.

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