Boletim Arte na Escola

O projeto brasileiro <i>Era Virtual</i> possibilita a localização do usuário no espaço - tempo

O projeto brasileiro Era Virtual possibilita a localização do usuário no espaço - tempo

Raquel Alves

Primeiro é preciso deixar claro: nada substitui a experiência presencial. Atravessar a porta física de um museu, observar o prédio, seu entorno, a cidade, sentir os cheiros, os sons e perceber os olhares alheios é colocar todos os sentidos a serviço da apreciação. Mas é inegável que poder conhecer acervos dos mais diversos países com apenas um clique torna a arte muito mais acessível. Museus de todo o mundo têm procurado andar no ritmo da tecnologia, disponibilizando acervos, criando exposições exclusivas para os visitantes virtuais e oferecendo inúmeras informações adicionais ao internauta.

Em 2011, o Instituto Cultural Google colocou a experiência virtual de visitar um museu em outro patamar. Seu Art Project, apoiado na tecnologia street view, permite ao público "andar" por galerias, explorar espaços externos e ampliar imagens para observar detalhes de cada obra. Para quem achou que a ferramenta poderia desestimular a visita presencial, convém rebater com números.  O Museu do Louvre, em Paris, o mais visitado do mundo, recebe cerca de 9,3 milhões de pessoas/ano e deve chegar a 12 milhões até 2025. Segundo a revista eletrônica Art Newspaper, o British Museum e o Metropolitan, de Nova York, vão pelo mesmo caminho. Em São Paulo, a tendência parece ser a mesma, como relevam os números da SPTuris (empresa municipal de turismo e eventos paulistana): os 10 maiores museus da cidade registraram recorde de visitantes em 2014 e o viés de alta se mantém.

Habituada a levar grupos, de educadores inclusive, pelos principais museus físicos de São Paulo e do mundo, Anamelia Bueno Buoro, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, acredita que as experiências, virtual e real, podem ser complementares: "não abro mão de nenhuma das duas. O que eu percebo nos meus grupos é que a memória do corpo no espaço é fortíssima, o que faz a visita presencial ser muito mais significativa", compara. Ela dá como exemplo espaços de arquitetura muito marcante, como o espanhol Guggenheim, de Bilbao: "o visitante é envolvido por aquele prédio exuberante. Levar o corpo para andar naquele espaço é parte de uma experiência que ele não irá esquecer", acredita.

A pesquisadora, também professora de História da Arte, diz que não organiza um roteiro sem gastar horas e horas na internet: "uso as visitas virtuais para estudar o acervo e destacar o que cada museu tem de mais representativo. Faço um recorte e ofereço o que parece ter mais afinidade com aquele grupo, até porque acho improdutivo caminhar sem objetivo num museu. Depois de duas horas o cansaço bate e a qualidade da leitura já não é a mesma", ensina.

Para o diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, Martin Grossmann, que já dirigiu instituições como o Centro Cultural São Paulo o Museu de Arte Contemporânea da USP, a ideia de museu virtual está ainda em desenvolvimento: "é um momento de passagem, mas não de substituição", analisa. Para ele, uma cultura na virtualidade se propõe a explorar novas dimensões. "Sempre faço uma analogia com o hipercubo, ou seja, cubo é a forma que todo mundo é capaz de entender ou desenhar, segundo a geometria cartesiana. Já o hipercubo é a quarta dimensão".  Os museus, segundo o professor, enfrentam o desafio desses novos códigos e dimensões, que são necessários à experiência humana.

Grossmann colocou no ar, em 1995, o primeiro site da Universidade de São Paulo, e nunca mais deixou de acompanhar o avanço da tecnologia e sua relação com a apreciação artística. "A internet ajuda muito, desde que se tenha uma estrutura conceitual e pedagógica. Entendo que o bom professor vai, sim, usar o recurso em sala de aula, mas será capaz de subverter, colocar ali a sua visão crítica", considera.

Roteiro é fundamental

Antes do advento da internet e das inúmeras possibilidades das incursões virtuais, livros e revistas cumpriam o papel de aproximar museus e galerias das pessoas – difícil era acompanhar a obra, o autor, o estilo ou a técnica que acabava de surgir, já que as publicações importadas custavam a aportar por aqui. "A internet possibilita estar em dia com o cenário artístico mundial. Os museus virtuais são como catálogos online: oferecem uma experiência mais rica do que os livros e revistas, com a possibilidade de complementar a incursão nas páginas do Google Maps, da Wikipédia e nas enciclopédias virtuais. Mas tem que ter plano de voo, do contrário perde a funcionalidade", pontua Grossmann, que dá um exemplo bastante ilustrativo: "ao guiar alunos por uma visita virtual, o professor deve atuar como um diretor de cinema. Ele tem que montar um roteiro de apreciação de arte dentro do contexto de um mundo multicultural", sugere.

Não há dúvida de que as visitas virtuais a museus podem enriquecer o repertório artístico do professor e também dos alunos, mas os pesquisadores recomendam antes uma reflexão, a fim de contextualizar o que vai ser apresentado. "Tem que ter intencionalidade, pontuar como aquele espaço ou aquela obra se relacionam com a ciência, com a arquitetura e com a própria arte", reforça Grossmann.

Preparo

Com larga experiência como educadora em grandes exposições e há oito anos atuando em sala de aula no Ensino Fundamental, a professora de Artes Andrea Aly adverte que é preciso testar e vivenciar os espaços virtuais antes de qualquer proposição. "Os recursos e as possibilidades são muitos, mas não se pode perder de vista que toda incursão virtual tem de ter um objetivo. Deve fazer parte de um planejamento pedagógico e precisa de uma estratégia bem definida para que não se torne uma ferramenta de puro entretenimento".

Com uma visão mais pragmática do uso da tecnologia em sala de aula, Andrea sabe que a maior dificuldade dos professores é o que selecionar para apresentar aos alunos em sala de aula, devido ao difícil acesso a obras de arte in loco: "muitos educadores não têm museus ou instituições culturais próximos à cidade onde residem, ficando restritos às imagens da internet ou de livros. Felizmente existem muitos sites e ambientes virtuais de qualidade, onde se podem encontrar referências de artistas, imagens e muitas informações para serem oferecidas aos alunos".  O Google Art Project é uma interessante experiência de apreciação na virtualidade, acredita a professora: "Na versão virtual do Museu de Inhotim, por exemplo, pode-se até contornar uma escultura para perceber sua tridimensionalidade".

Não fossem a distância, o custo, as questões de acessibilidade, é claro que os museus físicos levariam a melhor, tanto na preferência de educadores quanto dos alunos. A melhor receita é conciliar os dois, sempre que possível, e navegar sem medo pelo acervo que a tecnologia coloca ao nosso alcance de forma cada vez mais estimulante.  "É melhor trabalhar com experiências virtuais do que não fazer nada em termos de apreciação. E temos que considerar que a apreciação é um dos eixos da aprendizagem em arte, muito importante dentro de uma abordagem completa”, finaliza Andrea.

Dicas de Martin Grossmann

ü  Um projeto brasileiro bem interessante, simples e direto, usando ferramentas disponíveis na internet e que é contextual, pois conta com informações que facilitam a localização do usuário no espaço-tempo, real e virtual, é o Era Virtual. Em especial sugiro a visita ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro 

ü  O tour virtual, com tecnologias de navegação 3D por meio de fotografias do Pitt Rivers Museum, em Oxford, Inglaterra, possibilita ao internauta uma experiência fascinante. Não apenas nos deparamos com os objetos etnográficos, mas percebemos como eles estão dispostos neste projeto museográfico único (nota da redação: o educativo do site é imperdível e oferece diversas proposições quem podem ser aplicadas em sala de aula). 

ü  Outro dado importante do poder de acesso cultural da internet é a possibilidade de baixar reproduções de obras de arte de importantes coleções, como as do Metropolitan Museum of Art de Nova York. Por exemplo: entrei e fiz uma seleção do artista espanhol Goya, em particular da série "Desastres da Guerra" (1810-15). Posso vê-las em excelente qualidade na tela, mas também posso baixá-las no meu computador e imprimi-las, se for o caso. Isso para o professor é um recurso primoroso. Se quiser explorar com os alunos o tópico entre Arte & Guerra, será uma experiência incrível!  

Baixar e imprimir imagens de acervos como do Metropolitan Museum of Art de Nova York são recursos primorosos para o professor

Baixar e imprimir imagens de acervos como do Metropolitan Museum of Art de Nova York são recursos primorosos para o professor

Para trabalhar com os alunos

A arte/educadora Andrea Aly faz sugestões para uma experiência na virtualidade com alunos de 3º ou 4º ano do Ensino Fundamental 1.

Peça aos alunos que entrem em um site de museu (reforço o interesse por usar sites nacionais para que eles possam visitar o museu pessoalmente após o estudo) e pesquisem um artista do acervo. Eles podem, por exemplo, acessar o site do MASP e pesquisar trabalhos de Van Gogh. 

Orientar para que observem as imagens das obras e leiam as respectivas fichas técnicas, anotando os dados no caderno e escrevendo um pequeno texto reflexivo sobre o que sentem nesse processo. 

Algumas perguntas podem ser disparadoras para a observação e reflexão: 

ü  O que as pinturas passam para eles?

ü  Como se sentem ao observar essas imagens?

ü  Que material acham que o artista usou para fazer as pinturas?

ü  Essas pinturas parecem atuais?

ü  A partir das imagens observadas, qual o motivo, para eles, de Van Gogh ter sido tão importante para história da arte?

Nesta proposta, é importante que os alunos pesquisem um artista e depois visitem o museu ao vivo

Nesta proposta, é importante que os alunos pesquisem um artista e depois visitem o museu ao vivo

Comentários Deixe o seu comentário

  • Aríete ferreira, 10:00 - 22/07/2015
    Achei muito bom, pois podemos viajar para qualquer lugar e pesquisar o que queremos . Parabéns.
  • Martina Inngauer, 08:42 - 18/08/2015
    Está na hora de nossos museus colocarem em prática todos estes projetos para envolver o público infantil, pois senão não haverá público mais em breve e a arte vai continuar sendo encarada como chata.

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