Boletim Arte na Escola

Em Cariacica (ES), professores põem em prática o aprendizado fotografando o patrimônio cultural local

Em Cariacica (ES), professores põem em prática o aprendizado fotografando o patrimônio cultural local

Raquel Alves

Enquanto você lê este texto é bem provável que parte dos 320 educadores participantes do projeto Aprendendo com Arte estejam envolvidos com a criação de blogs, com o uso de aplicativos ou simplesmente descobrindo ferramentas com potencial artístico no tablet. Eles estão aprendendo a conciliar o melhor desses universos para tornar a sala de aula um espaço mais atual, dinâmico e instigante para os alunos. Esses professores do Ensino Fundamental e também gestores de escola e coordenadores pedagógicos integram a primeira turma do projeto desenvolvido pelo Instituto Arte na Escola em parceria com a Fundação Volkswagen. “O nosso objetivo é influenciar políticas públicas, por isso procuramos um parceiro de reconhecida competência no mundo das artes", explica a diretora da Fundação, Keli Smaniotti.

Uma das premissas do Aprendendo com Arte, inclusive, é a parceria com o poder municipal nas cidades em que atua. Cabe às Secretarias de Educação convidar os professores e ceder espaço para a realização das aulas, entre outras ações. São 120 docentes cursando a versão semipresencial, 80 na cidade de Cariacica (ES) e outros 40 em Aracaju (SE). Na versão totalmente a distância há mais 200 educadores – só para se ter uma ideia da receptividade do programa, mais de 4.200 candidatos concorreram às vagas.

O curso, que teve início em fevereiro e deverá formar a primeira turma em outubro, é inovador em vários aspectos. Um deles é o foco em conceitos atuais, outro é o cuidado em familiarizar o professor com recursos tecnológicos que serão úteis na sala de aula. A metodologia promete melhorar a prática no dia a dia, atualizar o professor e tornar o aprendizado prazeroso e vibrante. O Instituto Arte na Escola não apenas atendeu às premissas do edital, lançado pela Fundação Volkswagen em julho de 2014, como também contribuiu com seus mais de 25 anos de vivência no aprendizado da arte, propondo abordagens, práticas e apontando novos caminhos. “Temos considerável experiência em formação continuada, além da Rede Arte na Escola (47 polos em 22 Estados), em parceria com universidades e instituições de ensino em todo Brasil", pontua Clarissa Suzuki, coordenadora de projetos do Instituto Arte na Escola. A autoria do projeto, a coordenação geral e o acompanhamento das atividades do Aprendendo com Arte cabem à profa. dra. Jurema Sampaio, que se baseou em sua tese de doutorado, em que desenvolveu a proposta metodológica TPACK Artes Visuais (conhecimento pedagógico do conteúdo tecnológico em artes visuais), para concebê-lo.

Durante as 85 horas de formação, os educadores participam de oficinas teóricas e práticas, debates, seminários e palestras. Com 29 horas/aula, os módulos do curso totalmente a distância incluem temas como metodologias contemporâneas no ensino de arte, patrimônio cultural, contação de histórias, games na educação em artes visuais; arte e mídias como cinema, vídeo, rádio, TV e propaganda e museus virtuais, entre outros. 

Uma das primeiras definições para implantar o Aprendendo com Arte foi focar todo o projeto nas Artes Visuais. "A maioria dos professores têm essa formação específica, e num programa piloto seria importante trabalhar com um público mais homogêneo, até porque não haveria como aprofundar todas as linguagens artísticas", esclarece Clarissa. 

Foco regional

O Aprendendo com Arte não está restrito a museus e nem a um só acervo. A metodologia, inclusive, exige que o conteúdo seja garimpado no contexto onde os próprios professores estão inseridos – o mapeamento do Patrimônio Cultural nas duas cidades ocorreu antes do início do curso.

Para garantir a funcionalidade da metodologia, tutores atuam como facilitadores virtuais.  Eles estimulam, compartilham experiências e informações, articulam diálogos e procuram deixar o ambiente leve e descontraído. Um dos objetivos dessa função é desconstruir as hierarquias educacionais, como explica Maria Juliana Sá, uma das oito tutoras selecionadas para o projeto: “também estamos em constante processo de aprendizagem e somos parceiros nessa empreitada: tutores, cursistas, gestão, parceiros. Isso é maravilhoso!", elogia.

Professora na Educação Básica e em cursos de graduação nas modalidades Ensino a Distância e presencial, Maria Juliana está entusiasmada diante do desafio de propor atividades e reflexões às quais muitos docentes não estão familiarizados: "a estrutura do curso favorece o aprendizado, pois a cada abertura de módulo acontecem HangOuts (videoconferências)e o professor que não conhecia esse recurso vai se adaptando ao desafio. Além disso, há vários tutoriais de programas e aplicativos que ele irá usar durante o curso e que ficarão para sua jornada profissional".

A formação teve alguns desafios, como a dificuldade de acesso ou a pouca intimidade dos professores com as ferramentas tecnológicas. Portanto, quem estiver disposto a participar das próximas turmas deve se preparar: "o professor precisa falar a mesma linguagem do aluno, uma geração que já nasceu com ‘chip’ e domina o código virtual. O educador tem que correr também atrás desse conhecimento, para lidar com as novas ferramentas na sala de aula", reforça a diretora da Fundação Volkswagen, acrescentando que a instituição pretende exportar a versão semipresencial para outras praças: "O mapeamento das futuras cidades leva em conta não só a carência da região, mas principalmente a disposição do município em nos receber. Tem que liberar o professor em horário de expediente, dar suporte em tecnologia e estar alinhado com a nossa proposta".

Descobertas

A Fundação Volkswagen, aliás, já mantinha conversas com a Prefeitura de Cariacica, na região metropolitana de Vitória (ES), há algum tempo e tanto na esfera municipal quanto estadual havia um vivo interesse em receber projetos consistentes ligados à educação. Quando o Aprendendo com Arte amadureceu, a escolha do município aconteceu de maneira quase natural. Sorte da professora Eliane dos Santos Menezes, que trabalha na Escola Municipal de Ensino Fundamental Joana Maria da Silva e também na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Dr. José Moyses, ambas em Cariacica (ES). Formada em Educação Artística, com licenciatura plena pela Universidade Federal do Espírito Santo, Eliane tem 10 anos de sala de aula e é atuante no polo Arte na Escola na Faculdade Novo Milênio. "Esses encontros vêm proporcionando descobertas e novos desafios que despertaram a necessidade e a vontade de criarmos um grupo de estudo por nossa iniciativa, eu e mais quatro amigas que também estão na formação. Tem sido maravilhoso", resume.

Entre as atividades mais significativas, experimentadas nos encontros presenciais, Eliane destaca a construção dos relicários, a partir de registros da história e do patrimônio cultural da região.  "Essa proposta me tocou de forma sensível. A experiência foi de uma riqueza fantástica, que provocou relatos emocionantes, em que conhecimento, apropriação e valorização da herança cultural estiveram presentes."

Formada pedagoga pela Universidade Federal de Sergipe, com mestrado em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (RS), e doutorado sanduíche na Université de Cergy-Pontoise, Franca, Roselusia Teresa de Morais Oliveira é outra que tira proveito do aprendizado para turbinar as atividades em sala de aula. Os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Rachel Cortês Rollemberg, em Aracaju (SE), não perdem por esperar.  "O programa me auxilia a repensar a minha prática, a resignificar os sentidos da docência e processos de ensino-aprendizagem. Foi a partir do programa que construí dois projetos para a minha turma de segundo ano e disponibilizei material bibliográfico para as de Ensino Superior", finaliza.

Conceitos como seleção, preservação, relíquias, cultura e patrimônio foram trabalhadas na confecção de relicários. Na foto, alunos de Aracaju (SE)

Conceitos como seleção, preservação, relíquias, cultura e patrimônio foram trabalhadas na confecção de relicários.
Na foto, alunos de Aracaju (SE)

Comentários Deixe o seu comentário

  • Sonia Tobias Prado, 20:00 - 15/07/2015
    Muito legal! Pena eu não ter conseguido participar desse primeiro curso. Mas aguardo o próximo!
  • marcia aprecida alves dearruda depman, 19:04 - 16/07/2015
    Eu me interessei muito pelo projeto e gostaria de realizá-lo na minha cidade, se for possível, afinal temos grande nomes da arte dentro de nossas cidade principalmente na dança e da arte visuais .
  • Angela Maria Rosseto Sencio, 14:45 - 22/07/2015
    Tenho o privilégio de participar desta primeira oferta ! O curso proporciona e estimula a utilização de diferentes recursos tecnológicos, disponibiliza textos excelentes para um embasamento teórico sobre os mesmos. A tutoria do curso é bastante presente e atuante, estimulando o diálogo e a troca de experiências entre os participantes. Os hangouts, com profissionais altamente qualificados, oferecem muito além de informações, eles permitem a interação dos cursistas com os professores, tirando dúvidas, expondo opiniões e experiências vivenciadas com o assunto em questão. Resumindo, o curso é ótimo, pois propõe o "aprender através de experiências, do fazer" .
  • Maria da Penha Fonseca, 08:12 - 23/07/2015
    Parabéns pela matéria e pelo belíssimo trabalho que estão desenvolvendo nos dois grupos: Cariacica e Aracajú. Torcemos para que o projeto tenha continuidade em outras cidades.
  • Adalcy Costa dos Santos, 21:51 - 26/07/2015
    Parabéns á equipe Arte na Escola pelo elo de conhecimento estendido, aos grupos que se encontram no fazer artístico de novas apreciações e práticas metodológicas. Deixo aqui meu apelo à continuidade deste para engrandecer o conhecimento de profissionais, tão importante na prática escolar o profissional de arte. Estou no aguardo.
  • Valéria Gomes, 10:41 - 13/08/2016
    Estou fazendo o curso a distância e estou encantada com tudo... Valendo demais...

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição