Boletim Arte na Escola

Kelly buscou na animação o disparador do processo criativo de uma classe cheia de energia

Por Raquel Alves

Fosse depender apenas do conteúdo artístico a que teve acesso durante sua escolarização, Kelly Cristine Sabino provavelmente não teria escolhido trilhar o caminho da arte. Desenhos geométricos, reproduções de telas já prontas, cópias de poucos artistas marcaram sua formação básica. Felizmente (para ela própria e principalmente para os alunos) outras experiências fora da sala de aula despertaram na professora a paixão por fazer do ato de criar uma atividade colaborativa. Desde então, é o desafio que ela propõe todos os anos aos seus alunos: trabalharem juntos na construção de uma ideia. O projeto Stop Motion! Motion! Motion!, desenvolvido na Escola de Aplicação da USP e ganhador do XVI Prêmio Arte na Escola Cidadã na categoria Ensino Fundamental I, foi uma das proposições que fez a educadora refletir e se reinventar.

Voltando da licença maternidade para encarar seu primeiro grupo no Ensino Fundamental I, bem no meio do ano letivo, Kelly tinha pela frente o desafio de encontrar um bom disparador do processo criativo em uma classe de alto potencial criativo, mas que se entediava rapidamente com qualquer atividade e se mostrava arredia em proposições em grupo. A docente iniciou, então, um processo de sensibilização usando animação e desenho animado. Primeiro, mostrou aos alunos vídeos de flipbooks, livros em pequenas dimensões, ilustrados por um conjunto de imagens sequenciais que vão variando gradualmente, página a página, dando a ilusão de movimento.

Num trabalho feito em etapas justamente para manter a expectativa sempre em alta, o passo seguinte foi propor à turma o exercício de produzir seus próprios flipbooks. Como o grupo era especialmente bom em desenho, a ação se mostrou bastante estimulante: eles responderam com uma sequência de trabalhos que deixaria qualquer professor de arte cheio de orgulho. 

Depois vieram os brinquedos ópticos, ou taumatrópios, discos de papelão com uma imagem de cada lado presos a duas tiras de barbante que, enquanto girados, dão a ilusão de movimento. Os estudantes manusearam e fizeram seus próprios taumatrópios antes de mergulharem na história do cinema e da animação.

Estava tudo pronto, enfim, para que eles iniciassem seu próprio processo criativo em stop motion. A tecnologia entrou em cena com câmeras digitais compactas emprestadas pelos pais e professores, apoiadas em tripés de mesa. Diante da lente, os alunos capricharam na produção. Divididos em grupos, eles se descobriram autores de diferentes narrativas e se revezaram nos papéis de diretores, cinegrafistas e atores, construindo histórias em cenários de Lego, desenhos na lousa e até por meio de corpos se movendo numa coreografia robótica.  "Durante o processo uma mãe, formada em Cinema, afirmou que só tinha ouvido falar em stop motion na faculdade, e que ficava muito feliz em saber que sua filha, de 8 anos, não só conhecia a técnica, como estava encantada com a história da sétima arte!", relembra Kelly.

Mas nem tudo foi simples. Criar o cenário ideal para favorecer momentos de criação em grupo com a metodologia necessária foi uma questão bastante sensível para Kelly: "Era bem difícil coordenar equipamentos, alunos e roteiros ao mesmo tempo, mas com a ajuda da diretora da escola mantivemos um clima bem gostoso de cooperação."

O ponto alto aconteceu na apresentação dos trabalhos da disciplina de Arte para os pais recebidos pelos alunos na sala de aula transformada em sala de projeção, com direito a tíquete de entrada e pipoca. "Essa certamente foi uma experiência marcante", reconhece a educadora. "Certa vez, uma aluna me parou no pátio para dizer que revia diariamente o seu vídeo em stop motion. Isso para mim é recompensador".

Assista ao documentário.

A criação de taumatrópios ensinou às crianças como se dá a ilusão de movimento

Fotos: Maurino Borges

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