Boletim Arte na Escola

Por meio da Arte, Joice transformou a relação afetiva dos estudantes com a comunidade e com a própria escola

Por Raquel Alves

Joice Idaiane da Silva, vencedora do XVI Prêmio Arte na Escola Cidadã na categoria Ensino Fundamental II com o projeto "A expressão do bairro Funil: culturas, emoções e experimentações dentro de um processo artístico", trabalha com educação desde 2010, mas somente em 2014 realizou o sonho de se tornar arte/educadora. Um ano antes de sua graduação pela FEEVALE, em Novo Hamburgo (RS), Joice encarou o maior desafio profissional de sua carreira: a turma do 70 ano da EMEF Profa Marieta Melita da Silva, em Parobé (RS), distante 80 km de  Porto Alegre, com um histórico de indisciplina e agressividade. Tentar compreender os motivos de um grupo tão reativo foi o primeiro passo da professora, que buscou no próprio bairro Funil, onde a escola está instalada, a inspiração para um projeto de Arte que contribuiu para melhorar a autoestima e a noção de pertencimento dos estudantes.

De fato o bairro Funil, onde a maioria dos alunos residia, tinha todos os problemas de uma região periféria: pobreza, violência, invasões, baixa oferta de atividades culturais e quase ausência do poder público. Isso explicava, de certo modo, o comportamento arredio da turma que, de cara, mostrou resistência em falar da própria realidade. Quando Joice consultou a internet e a imprensa local, só achou notícias ruins sobre o bairro. Buscou, então, no próprio acervo da escola, trabalhos interessantes que já haviam tocado positivamente a comunidade. Os achados foram levados para reflexão em sala de aula: que realidades os estudantes queriam para si? As respostas, no entanto, deixaram clara a descrença em mudar a realidade do bairro.

Identificado o problema central, Joice propôs o desafio: "Vamos fazer um livro sobre o bairro Funil". A publicação era apenas parte de um projeto maior, que teve também atividades de teatro, música e artes visuais. A própria educadora explica: "Minha ideia inicial era mostrar que eles tinham muito a falar e a expressar sobre o lugar em que vivem, e que não precisavam ter vergonha. Trabalhei movida pela certeza de que desinteresse e desmotivação não podem ser palavras de ordem para quem tem uma vida inteira pela frente".   

O percurso construído a partir daí surpreendeu Joice, que participa do grupo de estudos da Rede Arte na Escola, no polo Universidade Feevale, desde o início da graduação. O ceticismo cedeu espaço à curiosidade. Afinal, uma das primeiras missões do grupo, depois de muita reflexão em sala de aula, era sair a campo para fotografar detalhes e recantos do bairro Funil, ocasião em que a professora trabalhou a arquitetura e  meio ambiente. Antes, os jovens estudaram a cartografia por meio de obras de artistas contemporâneos da Bienal do Mercosul, com o objetivo de criarem poeticamente as suas cartografias do bairro. Estimulado, o grupo queria investigar mais. As fotos deram subsídios para novas propostas, como desenhos de observação. Uma tesoura enferrujada, por exemplo, fotografada por um dos alunos, ensejou a produção de poemas, depois lidos em um sarau. Do poema para o conto foi um pulo. Alguns se inclinaram para as letras, outros para as formas, produzindo intervenções sobre as imagens.

Numa das expedições o grupo, munido de câmeras e celulares, captou os sons do bairro, perto do riacho, à beira da estrada, etc., para posteriormente trabalhar em sala de aula a percepção sonora. Nas andanças, os alunos também conversaram com os moradores, bate-papo inserido depois no livro e que também disparou outras atividades, como o teatro. "Aos poucos, os estudantes perceberam que o bairro tinha sua própria história e foram perdendo a vergonha de serem oriundos de lugares humildes. Aprenderam também a reformular suas opiniões, sem julgar previamente", explica Joice.

O projeto, que começou em 2013 e se estendeu até o início de 2014, mereceu prêmio da Prefeitura de Parobé, foi objeto de reportagem em várias mídias locais  e mudou para sempre a realidade dos alunos da EMEF Profa Marieta Melita da Silva. Abriu novos horizontes, novas formas de olhar e perspectivas de vida. A partir dele, a própria escola resolveu reorganizar sua dinâmica e trabalhar de forma interdisciplinar, alcançando também os conteúdos de Ciências, História, Geografia e produção textual. "Podemos dizer que fizemos a diferença por meio da arte. Todas as vivências ampliaram a bagagem cultural dos nossos alunos, fazendo com que valorizassem o seu lugar, as suas histórias e ainda praticassem valores como compreensão e cooperação", conclui a educadora.

Assista ao documentário.

Após fotografarem a região, os estudantes criaram interferências nas fotos

 

Fotos: Jhony Tomas/Studio Tomas

 

 

Comentários Deixe o seu comentário

  • Celia Nedir, 17:42 - 27/08/2017
    A arte aprimora o desenvolvimento da criança e é uma excelente válvula de escape para a concentração em sala de aula.

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