Boletim Arte na Escola

Fátima comandou uma cruzada pelo empoderamento das crianças, em um projeto horizontal e coletivo permeado pela arte

Por Raquel Alves

O projeto vencedor na categoria Educação Infantil do XVI Prêmio Arte na Escola Cidadã, Dr. Djalma Ramos e o seu amor por Riachão, da professora e coordenadora pedagógica Fátima Santana Santos, se valeu da arte para convidar alunos e professores do CEI Dr. Djalma Ramos, em Lauro de Freitas (BA), a refletirem sobre sua própria identidade. 

Fátima ficava incomodada com o fato de que as crianças, negras em sua maioria, desenhavam seus autorretratos usando cor rosa, e nunca preta – para citar um exemplo dos muitos comportamentos de negação da própria origem. A professora sabia que a única forma de mudar a percepção dos pequenos seria um trabalho focado na valorização da história, da tradição e da estética negra. "Eu quis propor uma mudança de postura, mostrar que ser negro não é um problema, e usei a estética, a arte e as tradições para exaltar isso", resume.

Mais do que mudar percepções, Fátima comandou uma cruzada pelo empoderamento daquelas crianças, em um projeto horizontal e coletivo que mexeu com toda a escola. "Talvez amanhã elas tenham que enfrentar situações de racismo, mas com certezas se sentirão mais fortes", acredita a educadora. A escola, instalada em um bairro pobre de Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador (BA), é vizinha de uma comunidade quilombola – daí a ideia de valorizar a história, a cultura africana e afro-brasileira. "Queríamos fugir de um currículo eurocêntrico e transportar as nossas crianças para dentro de seu próprio legado cultural, a fim de que pudessem se ver a partir de seus pares ou daqueles que de fato as representam", explica Fátima.

O fio condutor foi a obra do compositor Riachão, autor do clássico "Chô Chuá", imortalizado na voz de Gilberto Gil, e "Vá morar com o diabo", gravado por Cassia Eller, entre outras. O artista representa a face mais alegre do samba baiano e, aos 94 anos de idade, o corpo negro e franzino teve energia e alegria de sobra para fazer dançar os alunos do Centro de Educação Infantil. A visita do sambista foi o ponto alto de uma série de atividades realizadas em 2014. Por meio da vida e obra do compositor, as crianças mergulharam na cultura baiana, tendo contato com danças, ritmos musicais, teatro de fantoches, cinema, etc. Uma das atividades mais saborosas, no sentido literal, contou com a presença de uma baiana de acarajé, que num bate-papo com os pequenos alunos falou sobre herança cultural na culinária, explicando sobre ingredientes e modo de fazer de pratos típicos como vatapá, caruru, mungunzá. O encontro terminou com a degustação de deliciosos acarajés saídos diretamente do tabuleiro da baiana.

Os resultados apareceram logo. Crianças já usavam o preto para imprimir seus autoretratos, ajudavam a dar forma a um boneco negro em tamanho real, feito colaborativamente e que homenageou Riachão, expressavam sua baianidade no canto, na dança, relembrando brincadeiras típicas das ruas de Salvador. Tocada pelas atitudes afirmativas, uma das professoras decidiu assumir a cabeleira negra natural, escondida por anos em químicas e penteados. "A arte permitiu às nossas crianças a experiência da felicidade no que se refere às suas marcas identitárias. O samba de Riachão despertou o sentimento de pertencimento, já que conta a história de pessoas próximas a eles, fala de seus ancestrais e da comunidade em que vivem", analisa Fátima.

A culminância do projeto ficará para sempre na memória da escola. "No dia na nossa festa, com a presença de Riachão, um pai de aluno deu um testemunho que emocionou a todos. Ele queria que o projeto fosse expandido para toda a rede de ensino de Lauro de Freitas. Assim, talvez não houvesse mais casos como de sua filha, de sete anos, que não quis mais ir à escola porque os amigos caçoavam do cabelo duro", finaliza Fátima. 

Assista ao documentário.

Por meio da vida e obra de Riachão, as crianças mergulharam na cultura baiana, tendo contato com patrimônios materiais e imateriais

 

Fotos: Cleide Sales

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