Boletim Arte na Escola

O projeto do professor Leonardo permitiu aos alunos a reflexão sobre os diversos estilos musicais e a criação coletiva

Por Rosiane Moro

É preciso muita confiança para encarar um microfone e cantar. Mais difícil ainda é compor a letra, definir a melodia e escolher os instrumentos. O cenário fica um pouco mais complicado quando os integrantes dessa banda têm diversos níveis de conhecimento musical. Os autores dessa proeza foram os alunos de oito turmas do primeiro ano do Ensino Médio do Instituto Federal Colégio Pedro II - campus Realengo II, no Rio de Janeiro, mediados pelo professor de Música Leonardo Stefano Masquio no projeto “Oficina de Criação de Canções”, vencedor do XVI Prêmio Arte na Escola Cidadã na categoria Ensino Médio.

“No início, a maioria dos estudantes não acreditava na possibilidade de compor uma música reconhecida por eles como boa ou de qualidade, como as referências musicais que tinham. Tudo isso foi discutido e problematizado, buscando dar voz ao experimento, ao erro, ao desafino como elementos estéticos integrantes do processo. Mas, com o desenrolar das atividades, os jovens amadureceram e o resultado surpreendeu não só a mim, como a eles mesmos”, conta Leonardo.

O projeto durou cerca de dois meses e foi dividido em quatro etapas. Na primeira, os grupos discursaram sobre suas preferências, com o objetivo de ampliar o senso crítico e vencer preconceitos em relação à diversidade de gêneros musicais. A segunda fase foi reservada para a  produção coletiva de letra e  melodia. O exercício consistia em listar várias palavras na lousa e dar sentido poético a todas para, pouco a pouco, transformá-las em estrofes e refrões. “Esse processo foi muito rico, porque os alunos tiveram total autonomia para criar. Como o processo decisório era coletivo, foi preciso um esforço extra para que conseguissem finalizar o trabalho. A proposta não tinha a intenção de oferecer um roteiro pré-determinado na criação, mas possibilitar que cada turma desenvolvesse seu percurso”, pontua Leonardo. “Nem sempre no contexto escolar os alunos estão acostumados com a autonomia. Buscamos um envolvimento ativo, para que as questões e insights surgissem durante o processo coletivo”.

O interessante é que, mesmo sendo uma atividade coletiva, as letras das músicas eram carregadas de questões pessoais: um coração partido, a ansiedade com a vida adulta, violência urbana e solidão, além de conteúdos estudados em outras disciplinas. “Essas produções revelam o quanto a abertura temática permite a apropriação de conteúdos extra-musicais e a sua ressignificação”, analisa o professor.

Entre os ganhos, trabalho em equipe

Na construção do arranjo, os alunos que tinham alguma habilidade musical tocavam instrumentos, enquanto os outros contribuíam com a definição dos ritmos e também no comando da percussão. "Houve dificuldades como a timidez ou bloqueios por se considerarem desafinados ou sem ritmo. Foi um trabalho de estímulo à apropriação da prática, permitir-se viver a experiência aceitando as limitações imediatas e aprendendo durante o fazer", relembra Leonardo.  Na sequência, violão, teclado, guitarra, baixo, pandeiros e surdos ganharam a companhia ora de um coral, ora de apenas uma voz. Novamente, os alunos tiveram papel fundamental no consenso sobre qual ritmo utilizar. O professor intermediava as discussões e sugeria adaptações, algumas inclusive rejeitadas pelos grupos.

A parte final do projeto consistiu nos ensaios, na gravação e, finalmente, na edição do material. A construção autoral, a quebra de paradigmas, a ampliação do repertório artístico e cultural, o trabalho em equipe e as tomadas de decisões foram os maiores ganhos registrados pelo professor. “Para mim, esse trabalho possibilitou novas reflexões. Também foi desafiadora a minha atuação como mediador e potencializador dos conhecimentos e do protagonismo dos jovens, fundamental para provar que quando devidamente instigados, eles respondem”, comenta.

O projeto foi documentado por meio de dois songbooks em formato digital, disponíveis para livre acesso na internet, que reúnem as letras e cifras das canções da oficina – a capa, inclusive, foi criada por um dos alunos. 

Assista ao documentário.

A ampliação do repertório artístico e cultural, o trabalho em equipe e as tomadas de decisões foram os maiores ganhos registrados pelo professor

Fotos: Clarissa Suzuki/Divulgação

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