Boletim Arte na Escola

Maíra Martinez 

Educadores-artistas ou artistas-educadores. É muito válido quando um professor consegue transportar para a sala de aula o seu fazer artístico pessoal, assim como levar para sua arte a experiência com educação. Um exemplo notável dessa transposição é a trajetória do artista e educador argentino Gustavo Kurlat. Meio sem querer, ele começou sua atuação profissional há 33 anos fazendo música para teatro e trabalhando com educação infantil. Desde então, essas duas facetas sempre estiveram lado a lado. “Foram coincidências da vida que me levaram a esses dois caminhos paralelos, que se interligam o tempo inteiro. São caminhos independentes, um não precisa necessariamente do outro, mas eles se alimentam mutuamente.” 

Na verdade não são dois, mas muitos os caminhos que se entrecruzam na trajetória de Gustavo. Além de educador e músico, ele tem um envolvimento forte com o teatro, é dramaturgo, roteirista, escritor, diretor e segue experimentando diferentes linguagens. “Às vezes as pessoas me perguntam ‘Como você não enlouquece?’ E na verdade o que eu pretendo fazer é poesia. O recurso, a ferramenta para isso vai mudando de acordo com a vida. O meu trabalho como educador também procura essa poesia. Então para mim são todas procuras poéticas.” 

O Menino e o Mundo

Nos últimos meses, Gustavo Kurlat tem recebido os louros pela trilha sonora do filme O Menino e o Mundo, que compôs em parceria com Ruben Feffer. O longa, dirigido por Alê Abreu, foi indicado ao Oscar deste ano na categoria de melhor animação. Mas se o Oscar trouxe uma visibilidade inegável, o filme já vinha conquistando reconhecimento em festivais internacionais desde 2013, quando foi lançado. 

O Menino e o Mundo é uma animação completamente sinestésica e ilustra muito bem o casamento entre imagem e som. A trilha sonora é como uma personagem da narrativa. “Desde o início partimos do pressuposto de que a música teria o papel de conduzir o filme. Como o processo começou praticamente com um roteiro não escrito e sim com ideias, às vezes nós musicávamos imagens, às vezes fazíamos música para ser animada, e às vezes criávamos juntos.” Outra característica do filme foi o cuidado com os efeitos sonoros, que são muito palpáveis durante as cenas e têm uma relação estreita com a música. Gustavo e Ruben também foram os responsáveis pela Supervisão de Som no longa e quiseram criar essa fluidez entre a sonorização e a trilha. “A música sai do som e volta para o som, e é essa onda que se instala o tempo inteiro, entre som e música, que nos interessava”. 

Despenteie-se!

A pluralidade que Gustavo coloca em seu trabalho, seja costurando imagem e som em um filme ou propondo atividades lúdicas na sala de aula, partem de uma busca por sentido. “Essa procura me interessa. Mesmo que seja para chegar a conclusão de que você não precisa procurar sentidos, eles vão vir sozinhos.” Ele conta que tanto o seu fazer artístico quanto educador se orientam pelo afeto, no sentido de afetar o outro. “Eu sou compositor, sou escritor, sou diretor e não sou nada ao mesmo tempo. Sou alguém que quer dizer coisas. Quero te comover, quero que você pare para pensar, para sentir. Você aluno ou você público, é isso que faz sentido.” 

Gustavo veio para o Brasil com 19 anos, fugindo da ditadura, mas se lembra com carinho da época em que estudou na Argentina em um instituto chamado Sentir e Pensar. “Só o nome já diz muita coisa. Foi uma experiência de educação maluca, maravilhosa, onde eu experimentava a liberdade da criação. Isso está muito presente em mim.” Ele conta a história de um professor com quem estudou nesse instituto quando tinha nove anos, e com quem manteve a amizade até os 50. “Ele era um cara genial. Uma vez o chamaram para dar aula de desenho para crianças de quatro anos, ele aceitou e foi andando, porque sempre gostava de ir andando para as aulas. E no meio do caminho percebeu que nunca tinha dado aula para crianças de quatro anos, mas já não podia desistir. Quando chegou na escola estavam todas as crianças sentadinhas no chão, com papel e lápis de cor. Então ele falou: ‘bom, para desenharem, vocês têm que estar despenteados!’ Todas as crianças o olharam, se despentearam e começaram a desenhar... Eu me emociono até hoje, isso está na minha memória. O que esse professor me passou naquela época é o que tento manter vivo. É isso, se despenteie para criar.” 

Troca de experiências

Gustavo conversa também sobre a época em que trabalhava com estudantes de teatro e como a prática teatral o levou a entender alguns mecanismos de ensino-aprendizagem, abrindo para ele novas possibilidades criativas e a integração de diferentes expressões, como a dança, o ritmo, a voz. “Você pode até estudar separadamente as disciplinas, mas se você pensa num brincante do nordeste, por exemplo, ele dança, canta e representa, tudo ao mesmo tempo, e é natural. Então há a possibilidade de juntar um ensino mais acadêmico com as suas experiências, que vieram dos seus mestres, agregando várias linguagens.” 

Gustavo acredita muito na relação mestre-aprendiz, mais do que professor-aluno, porque isso envolve uma troca de experiências. “A gente fala das nossas experiências com entusiasmo. E se na sala de aula você não tem entusiasmo, você está frito. Se você vai passar conhecimento como quem está lendo uma lista telefônica, você está perdido, e o coitado do seu aluno também.” 

Seguindo essa linha, o cenário ideal para um educador, especialmente para um educador que trabalha com arte, seria encontrar na sala de aula um espaço para sua própria arte, seja escrevendo, desenhando, atuando. “Se ele puder exercer isso, seu trabalho como educador com certeza fica mais rico e corre menos riscos de ficar repetitivo, cristalizado. Supõe-se que a gente escolhe trabalhar com arte porque tem alguma coisa a dizer no mundo e quer um espaço de expressão para compartilhar com o mundo. O educador também é alguém que está compartilhando suas experiências com o mundo, com as pessoas com quem trabalha o tempo inteiro. Então os dois caminhos se aproximam muito.” 

Sugestão de atividades

“Eu acho que a gente tem que trazer a obra para dentro da sala de aula”, Gustavo reflete. Para ele, é preciso dialogar com a obra junto aos alunos, promover uma conversa e uma experiência. Discutir e refletir é fundamental, mas não basta. “Você tem que agir, você tem que dançar a obra, cantar a obra, desenhar a obra, contar a obra do seu jeito, recontar.” 

A proposta que ele sugere para uma atividade prática com alunos tem a muito a ver com a sua forma multidisciplinar de trabalhar, interligando vários sentidos. A sugestão é exibir um trecho de filme em sala de aula (que poderia ser inclusive o próprio O Menino e o Mundo) e a partir do filme trabalhar a sonoridade. 

Prestar atenção nos sons do filme e depois recriar uma cena tentando sonorizá-la só com objetos da escola, por exemplo. Ou recontar a história assistida apenas através dos sons. Ou ainda dublar os personagens inventando línguas imaginárias, como acontece em O Menino e o Mundo. 

Inspirado pelos colaboradores do filme, Gustavo dá ainda outras ideias. “Tivemos a colaboração dos Barbatuques (referência internacional em percussão corporal), então uma proposta pode ser a sonorização das cenas usando apenas o corpo. Tivemos a colaboração maravilhosa do Naná Vasconcelos, que com uma panela consegue fazer uma cena de luta fantástica. O Emicida fez o rap, então dá pra pensar como podemos organizar as palavras de maneira rítmica para contar uma história. E o quarto colaborador no filme, o GEM – Grupo Experimental de Música, que trabalha com instalações sonoras, pode estimular criações que juntem o som e a imagem, em construções sobre o filme assistido.”

“Aos olhos de uma criança” – Música de Emicida

Comentários Deixe o seu comentário

  • Helena Beatriz Galvani, 10:41 - 07/04/2016
    Sempre me emociona,chego realmente as lágrimas, adorei, e me remete a festa no céu, a musica africana, canto coral, Paul Simon no Zimbabwe.
  • Idelvânia Passos, 09:59 - 08/04/2016
    Fantástico!! O Memino e o Mundo já faz parte do meu planejamento e será usado como atividade no eixo temático "sonoplastia", em curso de formação continuada em música para professores da Educação Básica do DF. No entanto, acredito que irá além da sonoplastia diante de tantas abordagens musicais que ele sugere. É uma verdadeira obra de arte! Obrigada! Parabéns!
  • iara maria jannuzzi, 19:46 - 19/04/2016
    Excelente. pode ser trabalhado em qualquer faia etária. É so mudar o foco.
  • Mariza Missako Sakamoto, 13:33 - 01/07/2016
    É interessante observar que as linguagens artísticas se integram, formando um conhecimento amplo. Desenvolver no professor a sua faceta artística ou vice-versa possibilita um nível de sensibilização muito profícuo ao estudo da arte na escola, enriquecendo a experiência estética de ambos, professores e alunos. A sugestão de atividades a partir de um filme é inspiradora. O trabalho com imagem, som e movimento contém uma dinâmica que vem de encontro ao interesse natural de crianças e adolescentes e a prática artística aliada à reflexão possibilita novas leituras de mundo, tal qual o título do filme "O Menino e o Mundo", muito sugestivo, que abre portas para um ensino de arte rico e inovador.
  • Mariza Missako Sakamoto, 13:35 - 01/07/2016
    É interessante observar que as linguagens artísticas se integram, formando um conhecimento amplo. Desenvolver no professor a sua faceta artística ou vice-versa possibilita um nível de sensibilização muito profícuo ao estudo da arte na escola, enriquecendo a experiência estética de ambos, professores e alunos. A sugestão de atividades a partir de um filme é inspiradora. O trabalho com imagem, som e movimento contém uma dinâmica que vem de encontro ao interesse natural de crianças e adolescentes e a prática artística aliada à reflexão possibilita novas leituras de mundo, tal qual o título do filme "O Menino e o Mundo", muito sugestivo, que abre portas para um ensino de arte rico e inovador.

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição