Boletim Arte na Escola

Maíra Martinez

“Usamos as artes para construir histórias de sucesso em escolas com grandes dificuldades”. É assim que o projeto Turnaround Arts se apresenta. Desenvolvido pelo Comitê de Artes e Humanidades do governo americano e liderado pela primeira–dama Michelle Obama, este é um projeto relativamente jovem. O Turnaround Arts foi lançado em 2012 como um programa-piloto e ainda hoje mantém o seu fôlego experimental. O projeto surgiu para testar uma hipótese: a ideia de que uma educação artística de alta qualidade, integrada às outras disciplinas, pode ser uma ferramenta eficiente para fortalecer reformas estruturais dentro das escolas, aumentar a motivação dos alunos e alavancar seu desempenho acadêmico.

Em uma fala oficial do início do projeto, a primeira-dama americana Michelle Obama reforçou que “a arte-educação não é algo a se acrescentar, depois que outras prioridades foram conquistadas, como melhorar as notas dos alunos ou fazê-los entrar na faculdade. Pelo contrário, ela é uma aliada para se conquistar estas mesmas prioridades. Este é o objetivo do Turnaround Arts”. Ao lado do Comitê de Artes e Humanidades, o projeto é gerenciado pela Americans for the Arts, a principal organização americana sem fins lucrativos direcionada a impulsionar as artes e a arte-educação nos Estados Unidos.

Turnaround Arts é um programa que o governo americano instituiu para designar esta intervenção em escolas públicas que representam os 5% piores rendimentos escolares do país, consideradas escolas de “baixa performance”, e que por isso recebem recursos e intervenções especiais do governo, sendo percebidas como campos de pesquisa para reformas educacionais.  Em 2012, o programa-piloto foi lançado em oito escolas públicas e hoje contempla 49, atingindo 27 mil estudantes.

Uma dessas escolas é a Mary Chapa Academy, na Califórnia. Lá, o professor de música Christopher Lopez atua como especialista em artes integradas. Ele conta que foi levado à escola especialmente por causa do Turnaround Arts e ficou muito impressionado com o cenário que encontrou: “Quando cheguei eu só enxergava medo nos olhos daquelas crianças. Era um medo de mostrar para os outros quem elas eram por dentro, um medo de se expressarem. Era evidente para mim porque lá ninguém nem se cumprimentava, as relações eram muito difíceis.”

Para participarem do programa, as escolas passam por um processo de seleção concorrido. As escolas selecionadas recebem treinamentos e recursos que procuram atender as necessidades específicas de cada local. O Comitê de Artes e Humanidades viabiliza a contratação de mais professores de artes visuais, teatro, dança e música, fornece materiais diversificados e instrumentos musicais, e também propõe treinamentos sobre liderança, consultorias especializadas dentro das escolas e parcerias com organizações culturais das comunidades.

Uma peculiaridade do Turnaround Arts é convidar artistas famosos a adotarem uma das escolas e participarem das atividades de arte-educação no local, usando sua carreira artística e reconhecimento do público como forma de motivar alunos e professores. Entre as celebridades envolvidas estão a atriz Sarah Jessica Parker, o músico Jack Johnson, o mágico David Blane e o baterista Chad Smith, da banda Red Hot Chili Peppers.

A proposta é que a expansão das artes dentro do ambiente escolar aconteça não só nas aulas mais direcionadas, como teatro e dança, mas também de forma integrada com as outras disciplinas, como matemática e ciências. Nesse sentido, o Turnaround Arts trabalha próximo às lideranças de cada escola participante, para incorporar as artes nas estratégias educativas. De acordo com os comunicados divulgados pelo Comitê de Artes e Humanidades, o Turnaround Arts seria um marco no sistema educacional americano no que diz respeito à integração das artes nas reformas educacionais.

O professor Christopher Lopez lida diretamente com essa tentativa de envolver as artes em outras disciplinas. “Eu sou professor de música. Eu guio as crianças para explorarem o mundo e elas mesmas através da música. Mas eu também trabalho com professores de todas as séries, para criarmos juntos aulas que incorporem as artes.” Ele percebe com entusiasmo as mudanças que o Turnaround Arts trouxe para a escola: “Estamos finalizando nosso segundo ano com o Turnaround e a mudança é dramática. Desde que começamos, surgiram na escola uma série de clubes de teatro, corais, uma banda de rock e até um clube de dança. Os alunos estão curiosos, eles dizem ‘Bom dia!’ e vêm me perguntar sobre performances, querem tentar coisas novas e, o mais importante, vejo que estão saindo das suas zonas de conforto. Eles usam outras habilidades para resolver os problemas. O que antes era o resumo de um livro, agora pode ser feito em forma de rap. O que antes era uma aula passiva sobre as estações do ano agora é ouvindo As Quatro Estações de Vivaldi. Eles estão usando mais do que os olhos para explorar o mundo”.

De acordo com um estudo divulgado pelo Comitê de Artes e Humanidades em 2015, os resultados do programa-piloto estão de acordo com as impressões do professor Christopher. A pesquisa apresentou uma melhora de 23% na aprendizagem de matemática e 13% em leitura nas escolas que participaram do Turnaround Arts por três anos. Houve também uma redução de 86% em problemas comportamentais e as frequências dos alunos nas aulas aumentou. O Comitê afirma que o Turnaround Arts segue demonstrando um impacto mensurável muito positivo nas escolas de baixo rendimento, através do engajamento artístico dos alunos.

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