Boletim Arte na Escola

J. Borges em seu ateliê em Bezerros/PE. Foto: Francisco Moreira da Costa

Simone Castro

No espaço de tempo em que a nora de J. Borges vai chamá-lo para falar ao telefone com o Instituto Arte na Escola, é possível ouvir o assobio baixinho ir crescendo lentamente. O senhor de 80 anos começa sua prosa com uma voz baixa, doce, meio desconfiada, típica de um homem do sertão nordestino que já viu de tudo na vida e que retrata suas vivências, causos e narrativas em cordéis e xilogravuras que cruzam o mundo. “Eu me arranjo no dia a dia, no que vejo, no que sinto, no folclore, nas lendas. Tudo isso vai dando inspiração.”

Nascido e criado em Bezerros, onde vive até hoje, o agreste pernambucano sempre foi sua referência. Anexo à sua casa funciona o Memorial J. Borges e Museu da Xilogravura, além de seu ateliê. José Francisco Borges já fez de tudo. Foi agricultor, oleiro, pedreiro, pintor de casas, mas o amor pelo cordel desde pequeno fez com que vendesse as publicações de outras pessoas nas feiras regionais, mas só aos 29 anos criou coragem para escrever seu próprio cordel. Autodidata, “O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina”, foi lançado em 1964. Xilogravado por Mestre Dila, outro grande cordelista e xilogravurista pernambucano, a publicação vendeu mais de cinco mil exemplares em dois meses.

Logo depois, sem ter condições para pagar quem pudesse ilustrar suas histórias em cordel, decidiu ele próprio se arriscar nas escavações da madeira e fazer as xilos. “O Verdadeiro Aviso de Frei Damião”, com a igreja de Bezerros entalhada na capa, fez tanto sucesso que ele próprio resolveu tanto criar as histórias, quanto criar as imagens. “Eu tentei fazer, deu certo, fui bem sucedido e fui aumentando os tamanhos. Depois de um seis, sete anos alguns artistas do Rio de Janeiro conheceram meu trabalho. E eles levam ao conhecimento de Ariano Suassuna que disse que eu era uma fera, o melhor ilustrador do Nordeste.” E a partir desse encontro o escritor pernambucano passou a ser o grande padrinho de J. Borges e o apresentou ao mundo, além de ser um amigo pessoal, contador de causos e cúmplice de risadas. “Sempre que eu ia a Recife eu o visitava, a gente almoçava. Eu devia muita homenagem a ele. Até que ele morreu e fiquei sem amigo.”

J. Borges e o amigo e incentivador Ariano Suassuna. Reproduçao fotográfica do site Cultura Brasil.

Por meio de Ariano Suassuna, galeristas e no meio acadêmico, a obra de J. Borges se propagou pelo mundo. “A recepção é muito boa. No exterior, onde eu vou eu já tenho conhecimento”, diz sorrindo. Ele já expôs em locais como a Galeria Stähli, em Zurique, em 1992; no Museu de Arte Popular de Santa Fé, Novo México, participou de exposições e congressos na Europa e nos Estados Unidos. Em 1970 fez a ilustração de capa do livro “As Palavras Andantes”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Já em 1975 foi convidado pelo dramaturgo Dias Gomes e pelo diretor Daniel Filho a fazer as imagens de abertura da primeira versão da novela “Roque Santeiro”. Infelizmente a novela foi censurada pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) na sua estreia, acusada de subversiva. Em 1985 ela recebeu uma nova versão, com outro elenco, porém sem os desenhos de J. Borges na abertura.

Abertura da versão censurada da novela Roque Santeiro, 1975

J. Borges explica que um problema na perna fez com que sua locomoção fosse prejudicada e hoje seja mais difícil viajar. “Hoje só trabalho sentado e tenho dificuldades para caminhar, só ando com bengala”. Mas, isso não impede o artista de trabalhar. São em média oito horas diárias em seu ateliê, produzindo. Às vezes faz três xilos de 10x15cm por dia, em outros leva até mais de uma semana para finalizar uma obra de 60x90cm. Ele também continua produzindo cordéis. “Eu sou é contador de mentira. Na verdade são mentiras inventadas, mas o que eu quero é fazer história engraçada para o povo rir.”

O artista também é referência por ter uma técnica em realizar xilogravuras coloridas que utilizam apenas uma matriz. Em geral, cada cor tem uma base diferente e o papel passa por todas elas em etapas separadas. Para J. Borges era muito caro e trabalhoso ter matrizes diferentes, então ele desenvolveu a técnica de pintar as placas de madeira de uma vez só, com as cores que deseja na finalização. O que inicialmente era uma solução mais econômica e rápida despertou a curiosidade e o interesse de pesquisadores. Além de artista, J. Borges é também um homem criativo autodidata que procura aperfeiçoar suas formas de trabalho, ainda que de maneira rústica. 

Pai de 18 filhos naturais, seis filhos adotivos, muitos seguiram seu o caminho. Pablo Borges, um dos mais jovens, também faz xilogravuras e cordéis. J. Borges também ensina o ofício a quem quiser e abre as portas do seu ateliê para visitas de grupos escolares. “Os alunos vem de toda parte, Petrolina, Aracajú, Recife, vem muita gente com alunos, mas também muitas pessoas adultas que querem conhecer o trabalho”.

Ele mantém a família e boa parte dos filhos. Apesar na queda das vendas das obras, se prepara para a Feira Nacional de Negócios e Artesanato, que deve acontecer em julho, em Olinda. Em geral para esses eventos J. Borges leva aproximadamente mil cópias de gravuras para vender e é o que garante boa parte do sustento da família ao longo do ano.

Mesmo com as dificuldades, para J. Borges a vida não teria sentido sem os cordéis e as xilogravuras. “Com essa arte eu desbravei o exterior, sem arte eu hoje seria um homem acabado. Tenho muito amor à arte, mantenho o meu traço, não pretendo sofisticar, mudar muito. Conheço 10 países por causa do meu trabalho e só trabalho com o tema da minha região. O Nordeste é o lugar mais rico em cultura.”

O Sol Quente no Sertão é a obra que ilustra o XVII Prêmio Arte na Escola Cidadã

A obra “O Sol Quente no Sertão”, de J. Borges, uma xilogravura de 48x66cm, será a referência da identidade visual da 17ª edição do Prêmio Arte na Escola Cidadã, realizado pelo Instituto Arte na Escola. A imagem foi gentilmente cedida pelo artista para a premiação. O objetivo do Prêmio é identificar e reconhecer trabalhos de professores de arte de todo o Brasil e divulgar essas práticas. As inscrições iniciam a partir de 19 abril de 2016 no site do Arte na Escola. 

Comentários Deixe o seu comentário

  • sonia gattaz, 12:37 - 07/04/2016
    Excelente apresentação do trabalho do gravurista Borges, esse material fará parte das minhas aulas, sou professora de Artes do ensina fundamental 1 e 2 e, ensino médio. Os posts deste site são sempre muito úteis, obrigada por partilhar conosco educadores.
  • Jurema de Paula, 20:40 - 07/04/2016
    Como diz a prof. Sonia para mim também são ótimas para trabalhar na sala de aula.Este ano estou só com ensino fundamental 2 6º anos e 9ºanos. O material em si e muito bom para nossas aulas.Agradecida.
  • Andréia G. Gimenez, 18:43 - 18/07/2016
    Fico feliz em receber tantas informações oferecidas pelo Boletim da Arte na Escola,aumentando assim meu repertório de conhecimento artístico. Agradecida

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