Boletim Arte na Escola

O fazer artístico na pesquisa e na sala de aula

 

Simone Castro

 

Ricardo Marin Viadel, coordenador do curso de Belas Artes e Ciências da Educação na Universidade de Granada, na Espanha, é uma dessas pessoas que não tem medo de ousar. Pelo contrário, aposta nas investigações e na dúvida como potencial para construir e rever conceitos. Reconhecido como uma das principais referências em pesquisa na arte e na educação mundial, ele foi um dos convidados no II Simpósio Internacional de Formação de Educadores em Arte e Pedagogia, realizado na Universidade Mackenzie, entre 08 e 10 de junho de 2016, em parceria com o Instituto Arte na Escola.

No evento falou sobre a metodologia artística de pesquisa adotada no mestrado e doutorado em Artes na Universidade de Granada, que utiliza recursos como a fotografia para a construção textual. Nesta metodologia a imagem tem tanta representatividade quanto a palavra, além de incorporar expressões artísticas a elementos qualitativos e quantitativos. “A teoria também é feita com imagens. As imagens podem construir teorias, elas mesmas são teoria”, disse durante sua apresentação. Por exemplo, ao invés do uso de um conjunto de palavras-chave, o mestrando pode usar como recurso um grupo de fotos que remetam ao mesmo significado. Mas Ricardo Viadel defende que não são todos os projetos que devem utilizar tais mecanismos. Apenas quando o estudante tem algum tipo de formação prévia em comunicação, arquitetura, artes ou educação e quando o projeto dialoga com esses recursos é que esta opção é válida.

O fazer artístico na vida do professor de artes

O discurso de Ricardo Marin Viadel ganha ênfase quando defende que a sala de aula precisa se aproximar do fazer artístico. “Um bom professor de arte tem que ter uma experiência artística pessoal, porque o modo de entender a vida e o modo de viver as coisas de um ponto de vista artístico é uma experiência pessoal, não é algo que se possa ler em um livro. Você tem que estar em uma posição criativa para poder entender qual é o trabalho profissional do artista.” Para ele os professores não precisam ter uma carreira como artista profissional, mas vivenciar experiências criativas que os coloquem em conexão com a poética.

“Na classe que eu dou na Escola de Pedagogia, as poucas horas que temos de arte na formação dos futuros professores, eu procuro que essas horas sejam convertidas em um fazer artístico.” Ele defende que os universitários que pretendem ser educadores precisam se sentir como artistas criadores, em especial no caso da arte contemporânea. Devem perguntar quais são os problemas e como trabalham os artistas contemporâneos hoje, quais são suas perspectivas e seus questionamentos.

Os saberes dos professores de arte precisam ser compartilhados

Para RMV tanto o professor na Espanha como no Brasil é a figura central do sistema educativo, o detentor do conhecimento e do método para ensinar os alunos.  “São os que sabem como se ensinam as crianças e como as crianças aprendem”. Ele acredita que o saber conquistado na prática, fruto de observações, de erros e acertos deveria ser compartilhado com os outros professores. “São pessoas com 10, 15, 30 ou 40 anos de experiência. O conhecimento profissional que eles têm é extraordinário. Sabem muito bem como compreender os alunos, como falar, como organizar sua aprendizagem, mas todo esse saber não sai da sala de aula. Fica somente entre 30, 40 ou 50 alunos e seria importante que todo esse conhecimento profissional expandisse.”

RMV aposta nas novas tecnologias como uma possibilidade de ajudar o professor a trocar informações e experiências. Ele acredita que tecnologias, a internet e plataformas como o YouTube poderiam ser ferramentas para compartilhar conhecimentos,  entender como cada professor resolve as situações reais na aula “da mesma maneira como consultamos vídeos para aprender a cozinhar, preparar uma torta”, diz rindo. “Seria muito bonito se esse professor que tem algum problema para ensinar a somar, a ler, ou algum aluno, pudesse consultar um tutorial no Youtube para aprender a fazer, mas isso não existe. Não há uma tradição entre os professores e professoras até porque muitas vezes eles não têm consciência de tudo o que realmente sabem. De todo o saber e a experiência profissional que têm.”

O pesquisador pontua que esse conhecimento se perde se não é registrado. “É como se desaparecesse todo esse saber. E deveríamos ser capazes de resgatar, de criar algum tipo de plataforma muito aberta, sem controles acadêmicos. Controles acadêmicos são para outro tipo de conhecimento, mas nem sempre respondem a necessidades reais que os futuros professores precisam conhecer em sua profissão.”

Comparação entre a formação de professores em Artes na Espanha e no Brasil

Ricardo Martin Videl diz que tanto na Espanha como no Brasil a formação para professores não é suficiente. No país europeu os universitários que pretendem dar aulas para a educação infantil têm entre quatro e seis meses de prática de estágio, já os estudantes de pedagogia que ministrarão para jovens entre 12 e 18 anos têm um período ainda menor. “Se investe muito pouco em ter bons professores. Então afortunadamente os seres humanos e, sobretudo as crianças, são capazes de aprender muito em condições em que os professores nem sempre são tão bons. Se os professores fossem melhor capacitados, essas crianças aprenderiam muitíssimo mais”.  

O pesquisador espanhol disse também que se surpreendeu com o que viu sobre arte e educação no Brasil no II Simpósio Internacional de Formação de Educadores em Arte e Pedagogia. “O panorama brasileiro é impressionante. Eu vi grupos de pesquisa muito ativos, trabalhando muito. O problema é que muitas vezes todo o trabalho realizado no Brasil não é conhecido no resto do mundo. É necessário fazer um esforço para difundir o que está se fazendo aqui porque realmente é extraordinário. A complexidade dos temas, a diversidade das situações em que trabalham os diferentes grupos é realmente fascinante. A quantidade de grupos de trabalhos é enorme. O Brasil é um país com dimensões continentais em relação à pequena Europa. O Brasil é um mundo enorme”, completa.

O doutor finalizou a conversa comentando que outro ponto que acha fascinante no Brasil e que não percebe na Espanha é que aqui o professor de arte precisa responder necessidades escolares e sociais reais. “Essa dimensão de vínculo direto com a comunidade na Europa não é tão intensa e é uma dimensão importantíssima. Podemos aprender muito com o que está se fazendo no Brasil”.

Ricardo Marín Viadel nasceu em Valência (Espanha) em 1955. É licenciado em Belas Artes (Pintura) pela Universidade de Barcelona e doutor em Filosofia e Ciências da Educação (Estética) pela Universidade de Valência. Foi professor das universidades de Valência (1980-1981), Barcelona (1981-1984) e Complutense de Madrid (1984-1988). Atualmente é professor de Educação Artística na Faculdade de Belas Artes e na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. Publicou diversos livros e catálogos de exposições, entre eles: Utopías ácidas (2000), Equipo crónica: pintura, cultura, sociedade (2003), Didáctica de la Educación Artística (2003), Investigación en educación artística (2005), Colección de arte contemporáneo de la Universidad de Granada (2007), Los dibujos del tiempo. Impresiones del templo de Edfú (2010), Infancia, mercado y educación artística (2011) e Metodologías artísticas de investigación en educación (2012).

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