Boletim Arte na Escola

Diário do Busão: um outro olhar para as visitas mediadas às instituições culturais

Simone Castro

O hábito de carregar um caderno de desenho e registrar as cenas cotidianas que lhe chamavam a atenção acompanha Diogo de Moraes há muito tempo, muito antes ainda de pensar em fazer Artes Visuais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. O jovem que cruzava a cidade de transporte público para ir aos treinos dos times paulistanos Juventus e Nacional, abandonou a carreira promissora como jogador de futebol para fazer, pensar e discutir Arte sob diversos aspectos. Ainda como estudante universitário, começou a trabalhar em exposições como mediador nos setores educativos das instituições culturais e depois como pesquisador na área de arte e educação e programação cultural.

Há cerca de um ano o artista juntou alguns de seus interesses: o trabalho como artista e como mediador em sua pesquisa de mestrado em Poéticas Visuais na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e dessa mistura nasceu o “Diário do Busão”. A série de desenhos que registram visitas de grupos escolares a instituições culturais de São Paulo começaram a ser publicadas em 2015 em seu site e Tumblr e dão corpo a pesquisa que ainda está em processo.

O trabalho de Diogo apresenta vários lados de uma mesma moeda. Ao acompanhar os grupos nas exposições, ele participa de todo o processo, desde a reunião dos estudantes ainda na escola, as orientações dos professores, o translado no ônibus e as percepções das ruas, do caminho. A chegada à instituição cultural, o acolhimento que é comum por parte dos mediadores que contextualizam a mostra antes de entrar com os estudantes na exposição e a relação que é criada entre esse profissional com os alunos ao longo de todo o percurso. Mas o foco de Diogo está nas ações, no que é dito e especialmente nos gestos revelados no silêncio, nos comportamentos e nas percepções do acompanhamento. Os ruídos lhe interessam. O discurso não oficial e menos institucionalizado que considera o repertório dos estudantes tanto quanto o do educador.

Diário do Busão é inspirado no Diário de Classe, um documento formal, comum nas escolas, em que os professores relatam o comportamento dos alunos, o controle de presença, as notas e as médias. “A intenção era inverter um pouco essa lógica e usá-la para amplificar as discursividades e os enunciados dos estudantes”, completa Diogo.

Os desenhos do artista mostram um outro lado quase sempre colocado em segundo plano nas visitas. O olhar das crianças e jovens, quase todos da periferia da região metropolitana, vindos de escolas públicas. Suas relações com os espaços culturais, suas observações sobre as obras e a fala dos mediadores, com tudo que envolve uma visita de uma escola a uma instituição cultural cuja intenção quase sempre é acolher e transmitir conhecimento. O diálogo geralmente defendido nas ações educativas das instituições culturais é colocado em discussão, assim como o discurso de cultura popular e erudita. E Diogo, por ser mediador, olha por todas essas vertentes e as problematiza. Os desenhos começam com a imagem de um ônibus e com a identificação da instituição cultural, mas o nome da escola e dos personagens são fictícios. Os traços são feitos após o acompanhamento, a partir de suas anotações.

Das dez visitas programadas de acompanhamento, seis foram realizadas e se transformaram em desenhos, mas quatro delas já ganharam as paredes da Red Bull Station, em São Paulo, na exposição “Diário do busão: visitas escolares a instituições culturais” que esteve em cartaz  de 11 a 25 de junho na Galeria Transitória. A antiga subestação de energia Riachuelo, localizada ao lado do Terminal Bandeira, na região central da cidade, tem despontado como um espaço de vanguarda e visibilidade para jovens artistas.

E o curioso é perceber que alguns artistas contemporâneos têm se dedicado a incorporar em suas obras o contexto da escola e das ações educativas de instituições culturais em seus trabalhos. Além de Diogo, nomes como os brasileiros Jorge Menna Barreto, Graziela Kunsch e o uruguaio Luis Camnitzer propõem discussões que consideram a educação como material para produção de arte. A mostra “Educação como matéria-prima” realizada entre os meses de fevereiro e junho de 2016 no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), também propunha esse olhar.

 

 Entrevista com Fernando Velazquez, curador da Red Bull Station:


1) Como você avalia a relevância do Diário do Busão e do trabalho do Diogo de Moraes no cenário da arte hoje?

 

O que chama particularmente a atenção nesta série de Diogo de Moraes é a forma como aborda um território a princípio árido: o dos processos de mediação educativa em arte. Como arte educador, ele poderia refletir sobre o assunto através de um ensaio ou texto, porém ele desdobra o tema em narrativas nas quais os dilemas e impasses da mediação voltam ao circuito como obra. Com este tipo de formalização o tema assume um viés poético e irônico, sem deixar de lado o senso crítico, mas sobretudo, o artista faz com que um tópico periférico passe a ocupar o centro do sistema: a exposição.

 

 

2) Como uma instituição cultural como a Red Bull Station observa o trabalho de um artista que olha para as visitas mediadas?

 

Entendemos que é importante apresentar as artes como uma trama complexa que penetra no tecido social desde múltiplos vetores e com diversas intensidades. As anedotas exploradas pelo artista nos fazem perceber as intricadas relações existentes entre as estratégias estabelecidas pelas instituições culturais no campo da educação e a penetração e alcance destas ações. Vivemos um tempo no qual as relações hierárquicas estão sendo colocadas em xeque, neste sentido uma das leituras que faço dos trabalhos é a urgente necessidade de estabelecer processos dialéticos, dinâmicos e horizontais entre os diversos atores, neste caso particular os departamentos educativos das instituições e o seu público.


3) Qual a importância de discutir a relação do público, das escolas, as ações educativas das instituições e a arte na sua opinião?

 

No senso comum a arte ainda é entendida principalmente como um âmbito de produção, a produção de obra. Uma das mudanças mais significativas acontecidas durante o século XX no contexto da arte é a de valorizar a reflexão, os processos e a experiência. Neste sentido, o paradigma vigente é o da transdisciplinaridade, hoje ouvimos recorrentemente falar na tríade arte, ciência e tecnologia, por exemplo. Ou seja, conjugar diversas formas de conhecer, refletir e documentar o mundo como forma de expandir o conhecimento sobre o mesmo e consequentemente sobre nós mesmos. Neste cenário, a mediação educativa nas instituições culturais assume um papel central e urgente, o de amplificar o entendimento da arte em todas as suas dimensões.

 

 

4) Há desdobramentos estéticos e políticos a partir do Diário do Busão? Se sim, você acha que pode ter algum tipo de impacto?

 

Sim, a estratégia de deslocar o assunto da periferia para o centro do debate é significativo em ambos sentidos. Acredito que o trabalho de Diogo de Moraes já seja fruto de um contexto no qual as instituições estão dando maior protagonismo aos departamentos educativos, um desses sintomas é o grande número de artistas, arte educadores e profissionais especializados no assunto.

Sobre o artista:

Diogo de Moraes é artista visual, mediador cultural e, atualmente, assistente técnico cultural no Sesc SP, na Gerência de Estudos e Desenvolvimento. Como artista, é representado pela Galeria Virgilio. Expôs seu trabalho no Centro Cultural São Paulo, Funarte RJ, Galeria Vermelho, Ateliê 397, Paço das Artes e Museu de Arte de Ribeirão Preto. Em colaboração com Rafael Campos, Fabio Tremonte e Marcelo Comparini, realizou a curadoria do projeto expositivo Gabinete, que esteve em cartaz em São Paulo (Galeria Virgilio), Recife (Museu Murilo La Greca) e Florianópolis (Museu Victor Meirelles). Como mediador, colabora com o grupo mediação extrainstitucional, já tendo coordenado o Núcleo Educativo do Paço das Artes. Foi docente do programa de cursos para professores da 29º Bienal de São Paulo. Publicou trabalhos na Revista Concinnitas - UERJ (ano 15, volume 02, número 25); Revista Urbânia (números 3 e 5); Revista Piseagrama (número 7); Periódico Permanente (número 4); Revista Errata (número 16: Saber y poder en espacios del arte: pedagogías/curadurías), Bogotá; e no livro Como (falar sobre) coisas que não existem, a partir da 31ª Bienal SP, no Museu Serralves, Porto. Foi editor residente, em parceria com Cayo Honorato, da revista Periódico Permanente (número 6), com curadoria focada nas problemáticas da mediação cultural. É mestrando no programa de Poéticas Visuais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde desenvolve a pesquisa "Públicos em emergência".

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