Boletim Arte na Escola

Na poética do Grupo Corpo, nuances de um Brasil cheio de ritmo, que busca inspiração no passado para coreografar o futuro

Raquel Alves

Espetáculo Triz – Foto: José Luiz Pederneiras

Poucos grupos de dança brasileiros têm conseguido se equilibrar com tanta leveza na linha fina entre inovação e identidade quanto o Grupo Corpo. Há 41 anos o balé de Belo Horizonte surpreende público e crítica com espetáculos com um forte quê de transgressão, porém sem deixar jamais de falar o próprio idioma corporal, numa sequência de movimentos que mesmo nunca sendo igual, remete imediatamente à tradição da casa.

Fundado em 1975, o Corpo já estreou disposto a cantar o Brasil, sua gente, suas cores, seus contrastes, desafiando a geografia dos projetos culturais de peso, que tendem a se concentrar no eixo Rio-São Paulo. Com forte sotaque das Gerais, o espetáculo Maria, Maria, com trilha de Milton Nascimento, roteiro de Fernando Brandt e coreografia do argentino Oscar Araiz, arrebatou as plateias dentro e fora do Brasil. Ficou seis anos em cartaz e passou por 14 países. Foi o primeiro passo para a conquista da sede própria, inaugurada na capital mineira, em 1978. A partir daí a continuidade do trabalho não só estava assegurada, como dava à equipe inicial a chance de aperfeiçoar a receita, de ter a própria escola e trabalhar com foco no futuro. O projeto foi, literalmente, ganhando Corpo. Rodrigo Pederneiras assumiu a criação das coreografias e seu irmão, Paulo Pederneiras, a direção artística, com a missão de encontrar o sentido para a expressão “a dança dentro do nosso corpo”, como define Rodrigo. Os alicerces começaram a ser erguidos com o espetáculo Uakti, de 1988, e desde então os irmãos nunca mais deixaram de buscar inspiração no impulso que vem de dentro e, mesmo fazendo uma dança moderna, foram temperando com o samba, o xaxado, as danças de salão, a capoeira. “Quando se vê o Grupo Corpo dançando, é como se as questões do trânsito entre a natureza e a cultura estivessem sendo bem respondidas. São os diversos Brasis, o passado e o futuro, o erudito e o popular, a herança estrangeira e a cor local, o urbano e o suburbano, tudo ao mesmo tempo sendo resolvido como arte. Arte brasileira. Arte do Mundo.”, assinala a professora e crítica de dança, Helena Katz, no site do Corpo.

O sucesso de um dos mais longevos projetos de dança do país talvez possa ser explicado pelo DNA claro e inconfundível, pelo percurso evolutivo e coerente e pelo frescor de cada novo trabalho. Em 2015, ao resumir a trajetória do Grupo, Paulo Pederneiras, traduziu assim o seu desafio diante da direção artística: “É muito raro uma companhia de dança particular durar 40 anos. Agora, durar 40 anos e continuar tendo esse vigor, continuar com essa busca, olhando sempre para frente, tentando buscar coisas novas e continuar com essa força criativa; isso é raro. Não só no Brasil, mas no mundo todo”. 

Espetáculo Lecuona – Foto: José Luiz Pederneiras

Trilhas originais

A partir dos anos 1990, o Grupo escolheu o caminho das trilhas sob encomenda, desafiando compositores brasileiros de sonoridades e linguagens totalmente diferentes entre si. Nomes como Miguel Wisnik, Caetano Veloso, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Samuel Rosa ajudaram a destacar uma expressão essencialmente brasileira, porém sem obviedades ou caminhos fáceis. E sobre esta base foram construídas obras cada vez mais instigantes. Movimento e música em cena, dividindo o palco com cenários que interagem com os bailarinos. Luzes que não apenas acentuam cada passo, mas que também dançam. E o cuidadoso trabalho de Freusa Zechmesiter com os figurinos. Arquiteta de formação, ela confessa que precisa “ver”os bailarinos em ação para “enxergar” a roupa que devem usar. “Minha preocupação não é vestir o bailarino, mas sim, permitir que a dança aconteça”, resume.  O caminho perseguido por Freusa encontra seu ponto máximo em Triz, de 2013. Num cenário de cordas simétricas, a figurinista vestiu dançarinos em um paralelismo de preto e branco que deu total sentido aos movimentos, criando efeitos e um jogo cênico cheio de significados. 

A tradição das trilhas originais, no entanto, não é regra rígida. Em 2004, o Grupo Corpo levou aos palcos seu Lecuona, com composições do cubano Ernesto Lecuona, para falar de amores ardentes, volúpias, ciúmes e corações partidos. Em 38 minutos de um vertigonoso pas-de-deux, a coreografia assume a emoção e o drama, sem perder a leveza e a elegância. Os paulistanos tiveram a chance de rever Lecuona agora em 2016. Separada por um hiato de 12 anos, desde a estreia, a nova montagem coloca em confronto o próprio percurso do Grupo. Poucos foram tão criativos e produtivos como eles, que levaram para os palcos do Brasil e do mundo 35 coreografias e mais de 2.200 récitas. Na cena internacional da dança, o Grupo também fincou pé. Já se apresentou em países tão distintos quanto Islândia e Japão, Líbano e Itália. Atuou como residente na Maison de La Dance, em Lion, França, de 1996 a 1999, mostrando a força de uma identidade única, madura, robusta e muito longe dos clichês do país do carnaval. E foi com essa elegância que subiu ao palco do Maracanã, no encerramento das Olimpíadas Rio 2016, para mostrar que a dança brasileira vai muito além do rebolado.

Espetáculo Lecuona – Foto: José Luiz Pederneiras

Corpo Cidadão

Deu tanto trabalho refinar o próprio DNA, que o Grupo Corpo cuida para que novas gerações de bailarinos, professores e coreógrafos levem adiante a beleza, a arte e os ideais da companhia. Parte dessa filosofia fica a cargo do Corpo Escola de Dança, que vai muito além de ministrar aulas e promove encontros, oficinas, workshops que contribuem para uma autêntica educação em dança. A escola mantém no escopo coisas que falam do seu próprio repertório, como a oficina que está em cartaz no mês de setembro de 2016: “Improvisação a partir de danças brasileiras”.

Outra iniciativa que permite ampliar o acesso à dança de qualidade como um disparador para a sensibilização social é o projeto Corpo Cidadão. A iniciativa, que tem à frente Miriam Pederneiras, leva arte e cultura às regiões vulneráveis, com o objetivo oferecer para inúmeras crianças, adolescentes e jovens, na faixa de 6 a 14 anos, a oportunidade de ter contato com a música, dança e as artes visuais. As ferramentas estão todas ali para que eles descubram o próprio talento. O Corpo Cidadão atua com 650 crianças e jovens de baixa renda, incluindo os com necessidades especiais.

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