Boletim Arte na Escola

Luciane Isabel Ferreira Henckemaier*

Grafite realizado na Biblioteca da E.E.B. Industrial de Lages – 4.00 x 2.70 m

O projeto de grafitagem na Escola de Educação Básica Industrial de Lages mostra ao longo do seu percurso que a proposta pedagógica pode ser desenvolvida pelos pincéis e sprays nas mãos dos estudantes, que manifestam seus anseios, suas necessidades e suas expressões nas mais diversas formas.

Na cidade de Lages, na serra de Santa Catarina, onde se localiza a Escola de Educação Básica Industrial de Lages, a cultura do grafite, quando ocorre, é esporádica, praticamente isolada. Além do mais, quase não existe expressão de arte efêmera, mas, por outro lado, há grande preservação da cultura tradicional de raízes nativistas gauchescas, talvez pela proximidade com o Rio Grande do Sul. Em alguns espaços, como muros e outros locais, existem garatujas e pichações feitas sem autorização, o que, de certa forma, contribui para a negação do grafite como arte. Por este motivo, coube ao ambiente escolar fomentar a discussão e a realização da arte pública do grafite de dentro das salas de aula e inserida no cotidiano da cidade.

Realizar um projeto que envolve não só a técnica, mas a arte como área de construção de conhecimento e linguagem, foi o que motivou este mergulho no grafite. Conhecer e refletir através da arte, neste caso o grafite, ampliou o senso crítico e transformou olhares curiosos, tanto da comunidade escolar quanto de transeuntes que percorrem o espaço público e convivem com a rotina frenética da cidade.

O grafite agrega conteúdo artístico e poético. Texto, imagem, poética e mensagem. Pinturas rupestres ou murais, afrescos ou painéis, são elencados como origens das formas de expressão humana. Por isso, as atividades realizadas durante o primeiro bimestre se iniciaram com a fundamentação teórica junto aos estudantes. Foi feita uma retomada de informações pertinentes ao desenvolvimento da arte em paredes – desde a pré-história da arte, com as pinturas rupestres, passando pela arte mural no período das primeiras civilizações, pelos afrescos renascentistas, e pelos principais nomes de muralistas que ficaram marcados na história.

O caráter transgressor do grafite e a sua até então “não-legitimidade” foram abordados e contextualizados, na tentativa de criar um fio condutor para a melhor compreensão dessa linguagem que utiliza suportes diferenciados, como paredes, muros, túneis, pontos de ônibus ou até, recentemente, em galerias – ressaltando-se, porém, que os grafites são, principalmente, feitos em espaços públicos gratuitos. Percebeu-se que o grafite é um tipo de linguagem bem aceito pelos estudantes. Tem algo que cativa, atrai a atenção e tem significado efetivo na expressão deles.

Dois anos após a experiência realizada na biblioteca, a necessidade de ganhar o espaço público tornou-se realidade. A interação entre estes ambientes foi um ingrediente importante para realização do grafite em dois pontos de ônibus situados em frente à escola. A realização do grafite ocorreu em 2012. É deste estopim que surge a proposta desta pesquisa: a intervenção no espaço urbano, partindo das trocas em sala de aula, com a participação efetiva dos estudantes e da comunidade escolar.

Assim, mesmo não conhecendo partes do processo da grafitagem, os estudantes se sentiram estimulados e dividiram-se em grupos para a realização das tarefas. Alguns fizeram a limpeza dos pontos de ônibus; o servente da escola se habilitou a fazer a pintura de fundo do suporte; outros se encarregaram de arrecadar tintas para pintar partes do ponto de ônibus e outros colaboraram na pintura propriamente dita.

Foram diversos os ambientes escolhidos para a realização do projeto. Para a apresentação da temática, o espaço da sala de artes foi fundamental: usado para fazer os desenhos e projetos que poderiam servir de pano de fundo para as pinturas dos pontos de ônibus.

A escolha deles, neste sentido, foi um passo “fora da escola”, pois em outras oportunidades, grafites e pinturas em mural foram feitas, só que dentro do espaço escolar. Um espaço que anteriormente apresentava registros de palavrões, sujeira e cartazes, foi percebido como ideal para receber um trabalho artístico contemporâneo, com poética – que movimentasse a comunidade escolar na perspectiva de construir conhecimento através do grafite. A partir desta ideia, houve apoio dos estudantes, que encararam o projeto como algo realmente pertencente a eles.

O grafite é uma forma de arte que permite desdobramentos. Expõe autoafirmação, expressa um grito de liberdade. Com isso, os estudantes aprenderam sobre várias formas de expressão através das paredes, muros e espaços públicos antes de partirem para a prática. Compreenderam que um trabalho artístico realizado dentro da escola tem diferenças em relação a algo que se produz no espaço público.

A colaboração mútua, o planejamento da atividade, a organização e a distribuição das tarefas, foram fundamentais para a aprendizagem. Os estudantes que participaram do projeto estavam conscientes de que as ações deveriam ser desenvolvidas com responsabilidade e o que estaria ali pintado poderia gerar reflexos no entorno da escola.

O processo de avaliação se deu desde a concepção até a finalização do projeto. Os estudantes propuseram esboços e projetos em papel A4, com o que pretendiam grafitar. Pesquisaram sobre grafiteiros famosos; visualizaram vídeos sobre grafite; pesquisas de fontes para os grafismos e, ainda, alguns videoclipes sobre rap e o contexto acerca do tema nos grandes centros urbanos, principalmente em São Paulo.

A partir daí, os estudantes, com orientação e mediação da professora, definiram as funções a serem desempenhadas por cada membro da classe. Desta forma, cada um dos participantes do projeto desenvolvia uma função, sendo responsável por dar sequência às atividades.

O registro ocorreu por meio de fotos, posteriormente postadas em redes sociais. Isto repercutiu na mídia local: quando fomos entrevistados para dar depoimento sobre a proposta. A TV local, jornais escritos e a Câmara de Vereadores se interessaram em saber do registro de grafite no espaço público. Uma vereadora, aliás, propôs uma moção para tornar efetivo o trabalho em mais pontos de ônibus da cidade, com a perspectiva de fazer parceria com escolas municipais, possibilitando desdobramentos.

Na perspectiva de aprender e tendo a oportunidade de trabalhar em grupo, os estudantes também conviveram com a expectativa de conseguir as devidas autorizações junto a Secretaria de Meio Ambiente, além do material para a grafitagem. Aprender a lidar com dificuldades não impediu a realização o projeto. Pelo contrário, ajudou no crescimento de todos os envolvidos. Tudo isto possibilitou a observação sobre importância do planejamento da atividade e dos resultados, que a fortaleceram e a legitimaram.

Pontos de ônibus grafitados em frente à escola

O grafite permaneceu no espaço por dois anos. Um dos pontos foi restaurado e outro foi pintado, pois já estava com a cor esmaecida. O grafite, sendo a arte do efêmero, indica a necessidade de uma constância na atitude artística: pede que se persista, transgrida e arrisque mais de uma vez, apesar da duração e da temporalidade de seus traços. Submetido à lógica feroz da incompreensão do ambiente urbano e do tempo, o grafite pode passar pelos muros, mas ficará gravado em forma de experiência e na bagagem cultural de quem foi protagonista, presenciou, participou e viveu a experiência.

A mensagem do grafite revela os projetos dos estudantes da escola, a valorização de suas aspirações e ideias projetadas. A proposição realizada traduz-se na provocação do olhar, onde se percebe que mesmo sendo um trabalho que foge de características convencionais, tem em seu âmago algo mágico que, pode-se entender como algo sedutor, onde os estudantes recriaram a percepção comum da escola, tornando a arte desenvolvida um suporte suscetível tanto a críticas quanto à reflexão – características intrínsecas ao grafite e à arte de rua.

REFERÊNCIAS

Livros:

BARBOSA, Ana Mae (Org.). Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2012.

FERREIRA, Sueli (Org.). O ensino das artes: construindo caminhos. Campinas: Papirus, 2001. (Ágere).

HARVEY, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1994.

SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. As ideias estéticas de Marx. Trad. Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 8. ed. rev. e ampl. Campinas: Autores Associados, 2003. (Coleção educação contemporânea).

Periódicos:

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Sinopse do Censo Demográfico 2010: Santa Catarina. Brasília, 2010. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

FURTADO, Janaina Rocha. Tribos urbanas: os processos coletivos de criação no graffiti. Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 24, n. 1, p. 217-226, jan./abr. 2012. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

REIS, Alice Casanova dos et al. Mediação pedagógica: reflexões sobre o olhar estético em contexto de escolarização formal. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 17, n. 1, p. 51-60, 2004. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

SILVA, Rodrigo Lages e. Escutando a adolescência nas grandes cidades através do grafite. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 24, n. 4, p. 2-11, dez. 2004. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

TAVARES, Andréa. Ficções urbanas: estratégias para a ocupação das cidades. Ars: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais ECA/USP, São Paulo, v. 8, n. 16, p. 21-30, 2010. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

ZANELLA, Andréa Vieira. Atividade, significação e constituição do sujeito: considerações à luz da psicologia histórico-cultural. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 9, n. 1, p. 127-135, abr. 2004. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

ZANELLA, Andréa Vieira et al. Movimento de objetivação e subjetivação mediado pela criação artística. Psico-USF, Itatiba: Universidade de São Francisco v. 10, n. 2, p.191-199, jul./dez. 2005. Disponível em: . Acesso em: out. 2016.

 

SOBRE A AUTORA

Luciane Isabel Ferreira Henckemaier é Mestre em Artes Visuais pelo PPGAV - CEART - UDESC – Florianópolis, e tem especialização em Artes Aplicadas pela Faculdade São Luís, em Jaboticabal/SP. É professora da Rede Pública Estadual de Santa Catarina e participante ativa no Grupo de Estudos Arte na Escola - Pólo UNIPLAC – Lages.

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