Boletim Arte na Escola

Rosiane Moro

O debate em torno de novas práticas educacionais é antigo. Porém, na maioria das vezes, o que é discutido em congressos e seminários não se transforma em algo palpável. A verdade é que é difícil tirar o discurso do papel e são poucos os profissionais que têm coragem de quebrar os paradigmas da escola tradicional e testar novas abordagens de ensino. Não é o caso das diretoras da Escola Comunitária Cirandas, em Paraty/RJ, Fabíola Guadix e Mariana Benchimol. Ali, os alunos de 6 a 12 anos são divididos em ciclos, ao invés de séries, seguindo um conceito que prioriza o ambiente colaborativo e respeita o ritmo de cada um.

Trata-se de um projeto educativo pautado pela transformação social. Os alunos aprendem tudo o que está contemplado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), mas não seguem horários fixos, não fazem provas, não usam uniforme – são escolhas que fogem do padrão educacional do país e que propõem novos modos de se relacionar com o conhecimento. A gestão é participativa, na intenção de que a comunidade se envolva nas ações da escola e na proposta de transformação social.

“A Escola Comunitária Cirandas nasceu de uma necessidade da própria comunidade de Paraty. No ensino infantil existem várias escolas que oferecem um ensino mais aberto, participativo, mas bastou entrar no Fundamental para esse processo criativo da criança ser abruptamente interrompido”, conta a diretora e pedagoga Fabíola Guadix. Ao abrir as portas da Cirandas, as educadoras não tinham objetivos bem definidos, mas sabiam exatamente o que não queriam. Foi assim que construíram as diretrizes da escola: promover a autonomia das crianças, fazer com que o aluno seja o gestor do seu próprio aprendizado e transformar o ato de estudar em algo natural e prazeroso. “Não faz sentido para nós ter uma escola que não seja um espaço de mudança social e uma quebra com o paradigma da meritocracia do ensino tradicional”, justifica Fabíola.

Para colocar o projeto em pé as educadoras buscaram inspiração em várias correntes pedagógicas. “Como nosso foco é trabalhar com a diversidade, não faria sentido adotar apenas uma linha filosófica. Temos influência do Paulo Freire, com foco nas práticas dialógicas; Rudolf Steiner, com a visão antroposófica das fases do desenvolvimento humano; Célestin Freinet como metodologia do trabalho artístico e dos estudos de campo; e também José Pacheco, com o olhar para a autonomia dos alunos e as comunidades de aprendizagem”, descreve.

O interessante é que o caminho escolhido para colocar todas as teorias em prática passa pela arte. “Aqui as crianças respiram música, dança, teatro e arte o tempo todo. São esses saberes que fazem com que o ser humano consiga se desenvolver fora da racionalidade. É onde conseguimos despertar os sentidos físicos e emocionais e fazer com que os aprendizados sejam assimilados de uma forma natural”, explica a diretora.

Criatividade solta

As aulas começam às 8h e vão até 15h20. A primeira atividade do dia é o momento de harmonização: uma roda rítmica, meditação ou brincadeiras. O objetivo é acordar o corpo e preparar as crianças para as atividades mentais. Na sequência, os alunos trabalham o desenvolvimento cognitivo em projetos de escrita textual, ciências, matemática ou artes. Ali, os alunos entram em contato com experiências e saberes junto com os professores, associados à diferentes áreas do conhecimento. Têm autonomia para escolher o projeto que desejam desenvolver e decidir se preferem trabalhar em grupo ou sozinhos. As ideias brotam do próprio ambiente. Por exemplo, as pedras encontradas na escola podem servir tanto para um estudo de matemática quanto de ciências. Uma história contada pela professora pode virar uma nova produção textual ou uma peça de teatro.

Após o lanche da manhã, as crianças têm uma hora para brincar livremente. “Eles escolhem o que querem fazer. Alguns pegam os brinquedos, outros vão jogar, outros mexem com as plantas, com os instrumentos musicais ou desenham. É um tempo deles, sem interferência dos educadores”, comenta a diretora. A atividade seguinte é feita por meio de jogos educativos ou rodas de conversa, em que discutem questões que surgiram na sala de aula ou nas brincadeiras.

A parte da tarde é reservada para as aulas de teatro, dança, música, educação física, educação ambiental, línguas e educação alimentar. A cada semestre as crianças escolhem a modalidade em que desejam participar. “As aulas de teatro são as mais concorridas”, conta Fabíola. O importante é os alunos serem estimulados a trabalhar o lado artístico. Nada ali tem uma proposta fechada. Nas aulas de artes plásticas, por exemplo, uns podem trabalhar com modelagem enquanto outros fazem pintura. Já na aula de música, o foco são os instrumentos de percussão. Mas nada impede que os alunos misturem tudo e dali saia um projeto completo, como o Auto do Boi, desenvolvido no ano passado. Foi uma mistura de teatro e música, só que os alunos também criaram as fantasias e ajudaram com os textos. Em um projeto como esse é possível envolver várias áreas do conhecimento. Da matemática à história. Das artes à ciência. “Quando conseguimos fazer esse emaranhado de atividades, temos a certeza de que estamos no caminho certo”, comemora Fabíola.

As crianças ainda podem ficar na Escola Comunitária Cirandas até às 17h. Esse horário estendido é aberto para educadores de fora da escola que desejam realizar oficinas com os alunos. A diretora explica: “Temos um projeto chamado Residência Educativa, aberto a professores de todo o Brasil. Os profissionais ficam hospedados aqui e podem desenvolver projetos alternativos com as crianças. É uma tarefa muito rica porque proporciona uma diversidade de saberes, troca de experiências e aprendizados”.

Escola aberta

O método de trabalho conta com o aval dos pais, que participam ativamente das ações da escola e ajudam na manutenção e reforma do espaço. Quem tem alguma habilidade específica pode se juntar ao grupo e trabalhar diretamente com as crianças. No semestre passado, a mãe de uma aluna dava aulas de tai chi chuan. “Ao colocar a criança na Escola Comunitária Cirandas, os pais sabem que não querem educar os filhos no método tradicional e confiam na nossa proposta”, relata Fabíola.

Fundada em 2014, atualmente a escola tem 11 professores e 44 alunos, sendo que 50% deles são bolsistas. Uma das premissas do trabalho é justamente a de promover a integração social. Como o método é bem inovador, exige que os educadores façam constantemente uma revisão do que deu certo ou não, corrigindo o percurso. “Nem tudo são flores. Algumas propostas não funcionam, mas o importante é saber exatamente o que corrigir”, comenta Fabíola. O próximo passo é fazer uma análise mais profunda e medir os resultados alcançados quando as crianças completarem todo o ciclo do Fundamental I, o que vai acontecer apenas no final de 2018. Para o próximo ano, a Escola Comunitária Cirandas pretende ampliar o projeto para os alunos do Fundamental II. A proposta já está na Secretaria da Educação, aguardando a aprovação.

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