Boletim Arte na Escola

O artista e educador Rolf Laven fala sobre o professor que influenciou o ensino socializado da arte.

Simone Castro

Rolf Laven é artista visual e professor titular do Departamento de Escolas Secundárias, na Universidade de Educação para Professores de Viena (University of Teacher Education Vienna). Nascido na Alemanha, mas com formação austríaca, ele é um dos principais pesquisadores do trabalho de Franz Cizek, que atuou na Áustria dos Séculos XIX e XX e hoje é tido como uma referência na história da arte-educação.

Laven esteve em São Paulo para falar sobre sua dissertação compilada no artigo “Franz Cizek and the Viennese Juvenile Art, p. 181-202* (Franz Cizek e a arte juvenil vienense)”, apresentado no “III Simpósio Internacional Espaços da Mediação: a Arte e suas Histórias na Educação”. O evento foi realizado no fim de agosto deste ano pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (PGEHA – USP), no Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP).

A redação do Instituto Arte na Escola conversou com Rolf Laven sobre sua visão no que diz respeito à influência de Cizek no ensino da Arte mundial, às similaridades e às diferenças comparando com a arte-educação de hoje.

Para o pesquisador, Cizek era um artista. Suas práticas estavam à frente do seu tempo e até hoje podem ser vistas como contemporâneas. As metodologias de Cizek aproximavam o fazer artístico do ensino da arte. Para ele, o fundamental era provocar, questionar seus alunos e não apontar respostas ou técnicas. Cizek dizia: “Eu sou um artista e meu local de cultivo da arte (...) não deve se tornar uma escola! (...) Eu não sou um pedagogo, mas um mediador, provocador, estimulador e catalisador!”. Sua intenção era que a arte tivesse uma função política, apresentasse escolhas e opções às crianças.

Para Laven, é interessante perceber como o posicionamento de Cizek continua atual ainda hoje. “A liberdade de expressão é vista com grande importância nas artes – mas isso é na teoria. Na prática, essa liberdade não é assimilada pela maior parte dos sistemas educacionais”. O pesquisador observa que a maioria das pessoas não acredita que a arte pode ser avaliada com notas, e por isso a arte-educação não parece se encaixar nos sistemas tradicionais. “Franz Cizek já dizia isso 100 anos atrás!”

Cizek revolucionou a forma de ensinar arte apresentando ideias reformistas. Acreditava que o desenho das crianças se aproximava dos desenhos mais primitivos, dissociados de um único estilo. E que a expressão, assim como as questões subjetivas de cada aluno, deveria ser evidenciada nos trabalhos. Mas o que era revolucionário foi praticamente paralisado com a ocupação do regime nazista. O professor-artista morreu em 1945, aos 81 anos, próximo do ostracismo. Apesar de hoje não ser muito conhecido na própria Áustria, Franz Cizek é reconhecido no Canadá e nos Estados Unidos por seus feitos.

Quanto ao ensino da arte hoje, na Áustria, Laven aponta que há um culto à arte elitizada no país. “As escolas particulares estimulam o acesso à música, à alta cultura, mas ainda é um ensino moldado pela forma, pelo clássico, sem espaço para questionamentos ou indagações. Já nas escolas públicas, o acesso é precário”. Ele nota também que a Áustria tem uma peculiaridade quanto ao ensino fora dos centros mais urbanizados: “Muitos artistas que moram nas zonas rurais atuam como professores, mesmo sem terem formação universitária ou pedagógica específica em artes.”

Quando questionado sobre ele mesmo ser um professor-artista, Laven acredita que não há diferença entre uma coisa e outra. Ele é um professor artista e um artista professor e para ele o processo é o mesmo, não consegue distinguir um universo do outro. Sua forma de olhar para o mundo, com dúvidas e curiosidade, é tão presente na vida do professor, quanto do artista.

Franz Cizek, 1934

*Artigo disponível em: http://www.usp.br/pgeha/livros/Espacos_Mediacao_A_Arte_e_suas_historias_na_educacao_____.pdf

Comentários Deixe o seu comentário

  • Flavia Angelica, 11:21 - 15/10/2016
    Ótimo conhecer o trabalho de Cizek como arte educador, é uma referência nova e uma nova possibilidade de pesquisa! Eu adoro os informativos ARte na Escola ! Sempre com conteúdos de alto nível! Parabéns!

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