Boletim Arte na Escola

Na falta de políticas públicas claras de valorização da arte-educação, professores encontram nos prêmios um referencial para medir a qualidade do próprio trabalho e buscar desenvolvimento profissional.

Raquel Alves

Recompensa e reconhecimento são objetivos claros e evidentes, mas é certo que por trás de uma premiação na área da educação há sempre inspiração, motivação, efeito multiplicador de boas práticas e, acima de tudo, um gesto de contribuição para a melhoria da educação no país. É nisso que aposta o Prêmio Arte na Escola Cidadã, o único no Brasil voltado especificamente para professores de Artes. Em seus 17 anos de trajetória, a premiação promovida pelo Instituto Arte na Escola identifica, recompensa e divulga projetos que fazem a diferença em escolas de todo o país. Na grande maioria das vezes, escolas da rede pública.

Mas o Brasil – felizmente – conta com outras iniciativas para destacar práticas excelentes, como, por exemplo, o Prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação, que acontece desde 2005, com a missão de valorizar o trabalho de professores de escolas públicas que contribuem para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem nas salas de aula.

Uma faceta pouco conhecida de qualquer prêmio dessa natureza é que, ao registrar suas vivências, os educadores estão na verdade sistematizando o próprio conhecimento. Foi o que aconteceu com o trabalho Dr. Djalma Ramos e seu amor por Riachão, de autoria da pedagoga Fátima Santana, vencedora do Prêmio Arte na Escola Cidadã 2015. O simbólico troféu se transformou em puro empoderamento para a professora de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Depois que o vídeo produzido pelo Instituto Arte na Escola começou a se multiplicar na Internet, Fátima tem sido solicitada para falar do projeto em escolas e faculdades. “O projeto acabou colocando a escola como um centro de pesquisa”, compara a educadora.

O sucesso da proposta que discute a questão identitária na educação infantil foi tamanho, que além da repercussão a nível nacional, ensejou os primeiros passos de uma nova história. Fátima colaborou com o projeto da professora Cristiane Melo, vencedora do Prêmio Professores do Brasil, na categoria infantil. Ela também contribuiu para que o CEI Dr. Djalma Ramos fosse premiado como escola. A conquista do título “Lugar de brincadeira, cultura e diversidade”, concedido pela Universidade Federal do Ceará, colocou a escola no mapa do MEC como uma instituição inovadora e criativa. Agora, em 2016, a escola já conquistou a etapa estadual e foi finalista da etapa nacional do concurso Pesquisar e Conhecer, promovido pelo MEC.

Para a educadora, por mais que haja iniciativas elogiáveis, o Brasil ainda carece de investimentos em programas de reconhecimento: “há muitos projetos que merecem ser premiados”, acredita Fátima, que sentiu o impacto das premiações em sua carreira.

Projeto “Dr. Djalma Ramos e seu amor por Riachão”, da professora Fátima Santana

Espaços de escuta

“Devo confessar que nunca gostei de atividades competitivas. Para mim, aceitar duas premiações no mesmo ano foi muito difícil, tive que resolver isso na terapia”, brinca a educadora Carmem Machado, sem conseguir disfarçar o orgulho de ter o projeto Sentiver - Inspiração, conteúdo e leveza: Pina Bausch adentra o cotidiano escolar, reconhecido pelo Prêmio Arte na Escola Cidadã, em 2013. Ela conquistou ainda os prêmios de Melhor Grupo de Teatro Infantil, pela Universidade de Sorocaba, e a menção honrosa na fase regional do Festival Estudantil Nacional.

Professora de Arte do Ensino Fundamental 2 na E.E. Professor Benedicto Leme Vieira Neto, de Salto de Pirapora, interior de São Paulo, Carmem sabe da importância de ser reconhecida. “Isso te dá credibilidade e abre espaços para dialogar em diferentes lugares da educação, seja nas escolas, nas Secretarias de Educação, nas universidades, nos congressos, enfim, o prêmio abre espaços de escuta”.

É claro que o prêmio é apenas consequência. Para a educadora, um projeto que tem a participação e o engajamento dos alunos repercute até mesmo no que diz respeito à função da escola. “A postura deles em relação à educação também foi alterada. Eles passaram a exigir mais da direção e pediam novas posturas aos outros professores. Tornaram-se mais participativos nas decisões da gestão escolar”.

Projeto “Sentiver - Inspiração, conteúdo e leveza: Pina Bausch adentra o cotidiano escolar”, da professora Carmem Machado

Veterana

Maria da Paz Melo acaba de se aposentar na escola E.M. Valéria Junqueira Paduan, de Santa Rita do Sapucaí, sul de Minas Gerais, no auge da carreira. Veterana em premiações, ela chegou a finalista do Prêmio Arte na Escola Cidadã em 2011, com a proposta “A sintaxe do desenho”, desenvolvida com crianças do Fundamental 1, de horário integral. O troféu mesmo veio no ano seguinte, a bordo do projeto Arte contemporânea: produção e fruição no Fundamental I. Em 2014, nova conquista, desta vez no Prêmio Educador Nota 10, com o projeto O desenho como expressão.

Nada mau para uma educadora que se formou aos 48 anos e que, com toda modéstia, costuma dizer que o aprendizado veio aos poucos, principalmente através do contato com os alunos e pesquisando em livros, revistas e internet. “Acho estas premiações importantíssimas, porque motivam os professores a desenvolverem projetos que influenciam e mudam os rumos da educação. Independentemente do valor financeiro, muda o olhar da comunidade escolar em relação ao seu trabalho.”

Os prêmios ajudaram Paz a ter certeza de que estava no caminho certo: “Quando motivados, os alunos são capazes de criar de um modo fantástico. Agora, uma coisa que considero super importante nesta formação é o relacionamento afetivo. Sem ele não há aprendizado. O prêmio estimula também a pesquisar, a realizar novos projetos, a querer se superar. A fazer o melhor sempre”, receita a educadora.

Um olhar para a diversidade

Por obra da professora Patrícia Ramos de Freitas, o duelo entre os bois Caprichoso e Garantido saiu da região amazônica para mexer com as sensações e com a imaginação de alunos especiais de uma escola localizada em Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal. Com o projeto Festival de Parintins: Um olhar para a diversidade, Patrícia ganhou o prêmio Professores do Brasil 2015, na categoria Ciclo de alfabetização: 1º, 2º e 3º anos - Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

Dirigida a estudantes com deficiência intelectual, múltiplas e pessoas com autismo, a ideia de Patrícia levou a cultura popular para uma vivência cheia de cor e movimento, por meio de dinâmicas e encenações da expressão amazônica. O prêmio deu visibilidade ao projeto e muitas outras conquistas para sua autora. “O prêmio trouxe reconhecimento de um trabalho coletivo. Recebemos convites para apresentar o trabalho em diversas escolas públicas da região”, conta a educadora.

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