Boletim Arte na Escola

 

Não é sempre que a arte e a educação física se encontram dentro da escola, mas a parceria não deveria trazer nenhuma surpresa. Flexibilidade, equilíbrio, força, coordenação, ritmo, movimento – tudo isto está na educação física, mas está também na arte.

Foi por esse viés que a professora Tatiana Yukie, vencedora do Prêmio Arte na Escola Cidadã na categoria Ensino Fundamental I, trouxe a memória do circo para seus alunos da Escola Estadual Professora Irene Ribeiro. Em um trabalho conjunto com a Educação Física, Tatiana propôs que a percepção e a arte se voltassem para o corpo. Explorar o corpo, respeitar o corpo, se expressar com o corpo.

O projeto recebeu o nome de Em busca da felicidade e surgiu da necessidade de se criar um plano de estudos para área de Linguagens Artísticas/Corporiedade, a qual era parte integrante do plano curricular anual. Foi a primeira experiência de Tatiana com uma turma de Fundamental I. “Durante as aulas, percebi que as crianças precisavam gastar energia, eu não poderia apenas trabalhar conceitos artísticos e explorar o conhecimento no papel. Fui, então, buscando novos caminhos de experimentação, com sonoridades e movimentos do corpo.”

A decisão de aliar o projeto de artes com a educação física serviu para potencializar os conteúdos e o aprendizado, tornando a experiência mais significativa para os alunos. A interdisciplinaridade nem sempre é o caminho mais fácil, mas certamente enriquece os projetos em artes, que passam a conversar mais diretamente com outras áreas do conhecimento.

 

O recorte escolhido para o projeto foi o circo. A professora quis resgatar uma cultura que andava esquecida e trazer alegria para a sala de aula, com as cores, músicas e coreografias circenses. “Eu gostava de ver a lona colorida montada, dando novos sentidos aos terrenos nos bairros, e sempre tive profundo respeito pelos profissionais que ali se alojavam”, se recorda Tatiana. Ao apresentar a proposta para a turma, Tatiana descobriu que muitos nunca tinham ido ao circo. Mas isso não foi impedimento para o entusiasmo dos alunos, que receberam a ideia com alegria.

A professora trouxe diversas referências de circo, entre elas, as obras do artista colombiano Fernando Botero. As crianças logo repararam nas formas arredondadas que o artista usa para representar os personagens circenses. Esse foi o mote que Tatiana usou para aprofundar a reflexão sobre o corpo e abordar temas como preconceito e bullying.

O respeito entre os alunos, principalmente no que diz respeito à aparência, era uma grande preocupação da professora durante o projeto. “Ao visualizarem as obras, diversos alunos estranharam as formas volumosas dos corpos representados. O estereótipo midiático ainda está fortemente impregnado. Os estudantes debateram sobre o bullying e descobriram que somos diferentes, mas podemos realizar as mesmas atividades físicas e motoras, cada um dentro do seu limite.”

 

Foram propostas diferentes experimentações com expressões faciais e corporais. Os alunos criaram números, ensaiaram coreografias, investigaram as possibilidades do corpo. “As mudanças significativas observadas durante o projeto aconteceram nas relações interpessoais dos próprios alunos. Na comunicação, na concentração, na ampliação do conhecimento e da percepção do seu próprio corpo. No decorrer das atividades, os estudantes perceberam o valor da coletividade. A cada construção de números com equilíbrio, por exemplo, se um membro da estrutura faltasse, a pirâmide não se sustentaria. Os exercícios propostos contavam com a empatia, o coletivo, o respeito, o cuidado e o comprometimento de cada aluno”, ressalta Tatiana.

Uma família tradicional circense foi convidada à escola para contribuir com alguns questionamentos dos alunos. “A dupla de irmãos Rigoletto, a bailarina Paloma, o equilibrista Luan e o palhaço Will realizaram uma oficina de palhaçadas, acrobacias e equilíbrios. Aconteceu ainda uma roda de conversa onde todos puderam se manifestar com opiniões e perguntas.”

O gran finale do projeto foi a apresentação do espetáculo circense que os alunos tinham criado para os pais e toda a comunidade escolar. No dia, o galpão estava cheio com os olhares encantados do público e os alunos foram ovacionados. O projeto articulou várias linguagens – performance, teatro, dança, música, artes visuais – e (talvez o mais importante) colocou as crianças na posição de protagonistas do espetáculo, das suas criações, do seu corpo.

Assista aqui o documentário do projeto Em busca da felicidade

Comentários Deixe o seu comentário

  • Tatiana, 20:00 - 06/01/2017
    Linda reportagem! Me emocionei, mais uma vez!

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