Boletim Arte na Escola

 

Emanuel Guedes Soares da Costa é professor de artes na cidade de Itambé, na Zona da mata Pernambucana, divisa com a Paraíba. Ele fez um resgate da cerâmica com seus alunos do Ensino Fundamental II. Pouco a pouco, esse fazer tão tradicional no contexto nordestino foi sendo resignificado pelo olhar dos alunos e, no percurso, eles se depararam com o desafio de incorporarem os próprios erros no trabalho.

Pelo projeto Cerâmica: arte elementar, Emanuel recebeu o Prêmio Arte na Escola Cidadã em 2016. O professor conheceu o Instituto Arte na Escola através do Polo que existia na Universidade Federal da Paraíba. Ele já vinha inscrevendo seus projetos no Prêmio desde 2011. “Quando saiu o resultado, demorou pra cair a ficha. Aprendi que, se você se inscreveu e não foi selecionado, não desanime, persista. Um dia chega!”, comemora Emanuel. O professor tinha também outro envolvimento com Instituto Arte na Escola - ele cursou a formação continuada Aprendendo com Arte, oferecida pelo Instituto em parceria com a Fundação Volkswagen. “Todas as provocações de pensamento no curso são muito ricas, resgatam questões da graduação, oxigenam práticas e ideias. Os exemplos dos colegas abrem leques de possibilidades. O ambiente virtual com pessoas de vários locais do país possibilita esse intercâmbio de saberes” conta Emanuel sobre a formação.

Na rotina do Colégio Municipal Professor Nivaldo Xavier de Araújo, Emanuel notava nos alunos a curiosidade de experimentar, de fazer coisas novas. Foi a partir daí que surgiu a motivação para o projeto Cerâmica: arte elementar. “Era muito comum a ideia da aula de artes como aula de desenho, ou que a experimentação artística era ‘coisa para quem tinha um dom’. Outro conceito que persistia era de que ‘só era arte verdadeira as obras encontradas nos museus e galerias’. Ao trabalhar a cerâmica, observamos a manifestações artísticas e culturais existentes no cotidiano, nos objetos, nos modos de fazer”. O professor se lembra que quando ingressou na rede municipal de Itambé, o ensino de artes se pautava por atividades estereotipadas, como desenhos para colorir. Mas o que o motivava, assim como a seus alunos, era a experimentação.

Depois que a decisão pela cerâmica estava tomada, ele partiu para a pesquisa. Emanuel investigou a história e as práticas envolvendo a cerâmica antes de apresentar a ideia para seus alunos. O professor sondou a turma sobre o que eles entendiam enquanto cerâmica, para então constatar que eles não reconheciam as peças como objetos artísticos, apenas utilitários, algo que encontravam na casa de suas avós. “Fizemos, então, uma viagem acerca da história e usos das terracotas em diferentes épocas e regiões. Conhecemos a cerâmica enquanto fenômeno regional e universal, de Mestre Vitalino ao francês Philipe Farout. Observamos diferentes usos, do figurativo ao utilitário, modalidades clássicas a contemporâneas, polos produtivos, para então partirmos para a experimentação na construção das peças e queima.” Emanuel ainda enfatiza que durante o processo, deu-se grande importância para a desconstrução dos rótulos, de forma que os alunos observassem que o fazer de um ceramista popular é tão importante quanto ao do artista que está no museu.

 

As aulas práticas passaram a ser vivenciadas no Laboratório de Arte. O professor apresentou algumas técnicas diferentes para a experimentação dos alunos: placas, moldes de gesso, rolinhos. A classe também conversou sobre materiais e sobre os possíveis resultados que eles proporcionariam depois da queima. “A compreensão das técnicas e a conversa acerca do processo possibilitou a autonomia. Eu não queria interferir no produto estético deles. Mas eu chamava a atenção para as diversas variáveis que poderíamos enfrentar com a queima: uma mudança brusca de temperatura ou uma bolha de ar poderiam fazer com que as peças rachassem ou explodissem, a posição ou localização da peça no forno poderia interferir no resultado, o material utilizado poderia não ter o efeito previsto. Colocava sempre para eles que, se a peça estourasse ou não alcançasse o resultado esperado, não ficassem tristes ou desanimados, analisassem o erro, para melhorar e aprimorar”, ressalta o professor.

Não é sempre que essa postura de incorporação dos erros como parte fundamental do trabalho ganha peso na aula de artes, mas esse foi um projeto que valorizou as hipóteses, o inesperado, as possibilidades que viriam do acaso. E Emanuel é categórico em lembrar como a gestão da escola comprou a ideia do projeto e apoiou do início ao fim, inclusive a construção do forno para queima das peças. “O forno era uma necessidade para o projeto. Não há cerâmica sem queima, o fogo transforma fisicamente a argila, o modelado”, conta o professor. No dia da construção do forno, os estudantes ajudaram a misturar a argamassa e a colocar os tijolos.

A união do fazer prático (inclusive do forno) com as reflexões estéticas despertou nos alunos questões sobre composição, sobre problemáticas artísticas e estruturais da peça que estavam produzindo. “Foi gratificante ver as descobertas deles, o conhecimento prático totalmente aliado à teoria, as formas produzidas; as relações afetivas sendo construídas dentro do laboratório; as histórias pessoais contadas entre um modelado e outro.”

 

O desfecho do projeto foi uma exposição das obras produzidas. “Aquele era o momento deles brilharem, como as peças fumegando no forno em altas temperaturas”, se orgulha o professor. E acrescenta: “Comumente, peças cerâmicas são expostas sobre bases planas horizontais. Na exposição desenvolvida com os estudantes, revimos esse conceito. As máscaras e outras peças foram presas à parede, tal como na pintura. Para eles, expor daquele jeito - cerâmica na parede - foi inovador, houve um deslocamento”.

Emanuel comenta que o trabalho com cerâmica tomou uma amplitude que os alunos levariam vida afora. As trocas e parcerias que aconteceram em sala de aula durante a prática, a importância do conhecimento teórico, a criação de hipóteses, a afetividade na criação, a autoestima de se reconhecer produtor artístico e fazer parte de uma exposição – tudo isso contribuiu para o envolvimento dos jovens no projeto.

O vínculo que se forma entre o professor e seus alunos faz parte do processo e, nesse sentido, Emanuel enfatiza a importância de confiar nos seus estudantes. “O projeto me mostrou que duvidamos, às vezes, do produto final dos alunos. Mas no momento em que apenas mostrei as técnicas e os deixei livres, eles superaram todas as minhas expectativas. A confiança que a gestão escolar depositou em mim foi repassada a eles e houve uma cadeia de retribuições.”

Assista aqui o documentário do projeto Cerâmica: arte elementar

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