Boletim Arte na Escola

Reafirmação das raízes Pankararu no contexto escolar

 

A EMEF José de Alcântara Machado Filho, em São Paulo, tem um contexto muito peculiar: uma parte significativa dos seus alunos pertence à etnia indígena Pankararu. A escola fica localizada na comunidade do Real Parque, antes conhecida como Favela da Mandioca. Na década de 50, quando a etnia Pankararu começou seus movimentos migratórios, muitos saíram de Pernambuco em direção a São Paulo acompanhando o deslocamento de famílias nordestinas que fugiam da seca. Formou-se então a Favela da Mandioca.

Sensível a essa presença indígena na comunidade escolar, o professor de artes Leno Ricardo Vidal fez com seus alunos um trabalho sobre raízes – nos seus mais diferentes sentidos. Leno foi o vencedor do Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria EJA – Educação de Jovens e Adultos, com o projeto Eu venho do mundo: reafirmação das raízes Pankararu no contexto escolar.

Apesar da quantidade indiscutível de alunos indígenas na escola, eles compunham uma comunidade invisível, sua identidade não transparecia naqueles corredores. “Conforme fui percebendo isso, eu pensava: alguma coisa tem que ser feita para essa comunidade específica. Eu mesmo não sabia dessa riqueza que é o Pankararu. E eu sou de Belém do Pará, minha origem é paraense, eu venho de lá com uma cultura indígena, mas nunca tinha atentado para o que significa ser indígena”, conta Leno, para quem o projeto também trouxe descobertas.

A proposta foi desenvolvida com uma turma de EJA, que é um público flutuante. Muitos trabalham, a taxa de desistência é grande, alguns alunos voltam para suas aldeias, outros entram com os projetos já começados e precisam ser inseridos. Os ciclos são semestrais, então novas turmas entram e saem com frequência. “Mas, apesar de toda a flutuação, esse é um público que chega à sala de aula com muita bagagem, eles trazem consigo uma carga de conhecimento e sabedoria. Considerando que a memória é um ponto fundamental desse projeto, o EJA foi um público potente.”

 

Sustentado pela lei 11.645 de 2008, que institui o ensino da temática indígena dentro do currículo escolar, o professor Leno quis fazer um resgate da identidade Pankararu através da memória e da expressão pessoal dos alunos. Leno enfatiza a ideia de resgate porque essa cultura já existia dentro da escola, mas estava adormecida. Ele conta que “isso já fazia parte do plano pedagógico da escola, mas sempre se desdobrava para um trabalho étnico-racial globalizante. Mas ao mesmo tempo em que a gente tem que abranger, a gente tem que ter um foco, um recorte”.

Os alunos foram apresentados ao projeto Eu venho do mundo quando Leno exibiu na sala alguns documentários sobre o contexto indígena, Pankararu especificamente. “Enquanto assistiam aos filmes, eu fui percebendo que eles reconheciam a comunidade, eles reconheciam o local de origem, que é Pernambuco, a aldeia. Os olhos deles brilhavam com aquilo. Foi aí que percebi que eu tocaria em uma coisa muito delicada”. Leno sabia que os alunos indígenas sofriam discriminação e violência na escola. Talvez por isso, eles só se pronunciavam muito timidamente em sala de aula. Mas a reação ao filme motivou o professor a pensar um projeto que construísse um senso de pertencimento.

“Eu queria fugir um pouco do foco tradicional com que se trabalha a cultura indígena e trabalhar o olhar contemporâneo na arte. Sem focar no cocar, na pintura corporal... Não é assim. Eu acho que é necessário ter um conceito mais profundo em tudo isso – então vamos trazer as raízes, já que aqui foi a Favela da Mandioca.”

A pesquisa foi um dos pilares para o sucesso do projeto. Sem querer, Leno se descobriu um colecionador de cultura indígena. “Esse interesse já vinha de antes, mas não com o olhar do pesquisador, um olhar mais coerente – porque pra trabalhar a cultura indígena no currículo escolar, ou afro, ou dos imigrantes, temos que estudar, senão a gente acaba distorcendo e criando mais estereótipos ainda. Eu posso dizer que me tornei um pesquisador”. Uma das referências na pesquisa foram os artistas-viajantes, como o pintor Albert Eckhout, que registrou povos indígenas na época da colonização brasileira.

 

Seres-raízes

A escolha pelo tema raízes teve dupla motivação. Havia um interesse em despertar ali as origens, as identidades, no sentido das raízes culturais, mas também o interesse em voltar o olhar para as raízes que formam a base alimentar de comunidades indígenas. Inhames, batatas, cenouras, mandiocas. Foram esses os suportes para pinturas e criações dos alunos. “Primeiramente eu queria dar um conceito para raiz. Eu quero que essa raiz tenha um conceito estético, visual, tenha uma poética – então, vamos transformar essas raízes em seres-raízes”. Depois veio a relação com a terra, que é inegável. Os seres-raízes criados pelos alunos foram plantados e logo começaram a enraizar. Durante esse processo de criar raízes, Leno discutiu com o grupo a arte como instrumento de compreensão do mundo. “É uma descoberta. E dentro do universo da educação, a arte se desdobra para todas as outras áreas do conhecimento. Isso acabou sendo muito transformador para os alunos. Eles começaram a pensar em quais são as relações possíveis na sala de aula.” O desafio, para Leno, era saber até que ponto dialogar, até que ponto orientar para não interferir muito no processo de criação do aluno. “É difícil esse balanço, quando a gente também tem esse lado do professor-artista.”

Desde o início, um dos objetivos do professor era trazer a comunidade indígena do entorno, alunos ou não, para dentro da escola, transformando aquele local em um espaço de convivência e trocas culturais. De fato, a comunidade do Real Parque se envolveu. Um dos desfechos do projeto, por exemplo, foi receber o ritual da dança dos Praiás na quadra do colégio.

Mas a maior conquista do projeto ainda estava por se firmar. Com o tempo, a ideia do professor Leno foi ganhando asas. Começou em uma sala de aula comum, que depois virou sala de artes (que até então a escola não tinha), para depois se transformar em um memorial da cultura indígena. “Um dos objetivos do projeto era transformar o Alcântara Machado em um centro de referência da memória indígena Pankararu, para que indígenas de outras etnias na cidade também viessem para a escola, como os Fulni-ô, os Kariri Xocó, os Pankararé – que virasse uma referência para indígenas em contexto urbano.” O memorial foi se integrando ao currículo de artes da escola, os alunos se apropriaram do espaço e resignificaram a forma como viam a sala de aula.

Assista aqui o documentário do projeto Eu venho do mundo: reafirmação das raízes Pankararu no contexto escolar

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