Boletim Arte na Escola

Brincadeiras, jogos, danças e histórias

 

Há um provérbio moçambicano que diz: para se educar uma criança, é necessária uma aldeia inteira. Foi com esse olhar que a professora Janeide de Sousa Silva guiou o projeto Diversidade étnica: brincadeiras, jogos, danças e histórias, pelo qual foi vencedora do Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria Educação Infantil. Toda a “aldeia” foi convidada a participar: famílias, funcionários, professores, alunos de outras turmas. Além de envolver a comunidade escolar, o projeto também teve o cuidado de ouvir os alunos, dando voz às urgências das crianças. E a urgência era brincar!

Através das brincadeiras - e depois de muita pesquisa - Janeide apresentou às crianças um universo de elementos da cultura africana, afro-brasileira e indígena - num exercício de conhecer o outro, para aprenderem sobre si mesmos. O projeto foi desenvolvido na Creche Central da Universidade de São Paulo, um centro de referência em educação infantil.

A Creche Central da USP atende um público bem característico. Os alunos são filhos de docentes, pesquisadores, estudantes e funcionários da universidade. Janeide conta que existe uma interação muito amigável com o conhecimento, que se reflete na forma familiar como as crianças recebem e trabalham os conteúdos. “Existe uma preocupação com o estudo nesse ambiente, porque as pessoas daqui estão envoltas com isso. Elas estão fortemente vinculadas à educação, à pesquisa.” A Creche foi uma das primeiras instituições de educação infantil do Brasil a adotar o conceito de creche aberta, em que os pais não deixam os filhos no portão. Eles entram na escola, participam dos módulos, interagem com os professores. A ideia é que a Creche da USP funcione como um laboratório em educação infantil, desenvolvendo um modelo de excelência que possa ser replicado em outros lugares, com baixo custo. “Nós recebemos visitas do país inteiro, e de fora do Brasil, de interessados na concepção do nosso trabalho. Ao mesmo tempo em que nós produzimos, nós pesquisamos e compartilhamos com outros profissionais. Não só da academia, mas do MEC também – nós fomos uma das instituições convidadas para testar o material de indicadores em qualidade de educação infantil”, conta a professora.

 

Janeide faz questão de ressaltar que seu projeto foi o recorte de um trabalho maior, realizado pelo corpo de professores, coordenadores e funcionários com o grupo de alunos que estava no último ano. Aquela turma em breve iria embora da Creche Central da USP e, como um presente de despedida, ficou combinado que as crianças definiriam como queriam fechar o ciclo. “É claro que há conteúdos curriculares que precisamos conversar com as crianças, mas tem outros que eles poderiam indicar. Então perguntamos, literalmente: é o último ano de vocês aqui, queremos que seja um ano especial, o que vocês gostariam de aprender?” E não restaram dúvidas, as crianças queriam brincar.

Parece até um caminho evidente. Qual criança não gosta de brincar? Mas eleger as brincadeiras como fio condutor de um projeto em educação infantil é uma decisão sábia. Janeide enfatiza: “o brincar em si guarda uma grande potencialidade. Não usar a brincadeira só como ferramenta para se aprender alguma coisa, mas brincar por brincar, porque sentir o prazer da brincadeira já traz grandes aprendizados, é uma linguagem pela qual as crianças se expressam.”

 

O projeto se estendeu pelo ano inteiro e o recorte traçado pela professora Janeide com o grupo Cupuaçu (batizado assim pelas próprias crianças) foram as brincadeiras africanas, afro-brasileiras e indígenas. “Ainda estamos construindo essa aproximação com a questão afro na educação. Temos alguns trabalhos alicerçados aqui na Creche, mas ainda é um processo em construção.” A africanidade e a diversidade étnica são temáticas que Janeide percorre há muito tempo e com muita propriedade. A questão é uma constante na sua atuação como educadora – dentro e fora da escola. “Eu insisto nisso cotidianamente – as questões raciais. Uma formação pontual não consegue dar conta da demanda que existe sobre o assunto”, reforça Janeide.

A professora já trazia em sua bagagem um repertório rico sobre culturas africanas, mas ela não propôs as brincadeiras sozinha. Todas as equipes da Creche Central da USP foram convidadas a brincar com as crianças, como forma de se despedirem delas. “Então as crianças brincaram com todo mundo, desde a diretora até o pessoal de apoio. E também com os alunos mais velhos, da Escola de Aplicação da USP.”

O passeio pelo continente africano foi feito de acordo com as demandas das crianças, sempre no movimento de trazer pessoas de fora para dar oficinas. Dependendo dos conhecimentos que tinham, as famílias também eram incentivadas a irem até a Creche compartilhar experiências com a turma. Uma mãe matemática, por exemplo, foi conversar com o grupo sobre o Tsoro Yematatu, um jogo do Zimbábue de raciocínio matemático.

 

Alguns traziam danças, outros histórias, músicas, brinquedos, comidas – muita gente contribuiu para o sucesso do projeto. Dentro do leque das brincadeiras, os assuntos abordados foram tantos, que o trabalho foi ganhando uma amplitude que não cabia em um planejamento convencional. “As coisas iam acontecendo... As próprias crianças perguntavam: mas o que eles vestem? O que eles comem? O que eles estudam? Não precisei ficar ditando, eles me guiavam pelos assuntos que despertavam a curiosidade deles”.

A professora conta que um dos fascínios dos alunos foi ao se depararem com as danças africanas. A impressão geral do grupo era de que as crianças daquele continente dançavam flutuando. “Eles treinaram muito, tentando dançar igual!”, lembra-se Janeide com o sorriso nos olhos. Um dos alunos escolheu o Michael Jackson como tema da sua festa de aniversário, explicando que ele foi o único que conseguiu copiar a dança das crianças africanas.

Para Janeide, o Prêmio Arte na Escola Cidadã colocou uma lente de aumento na Creche da USP. O projeto direcionou olhares para esse centro de referência em educação infantil. Desde 2015, a suspeita de que a instituição venha a fechar suas portas é um fantasma que ronda as unidades da Creche. Nada de concreto foi oficializado, mas a comunidade escolar sente uma situação de fragilidade. “O que existe é um esvaziamento – a creche já não recebe novas turmas como antes, não há recolocação dos funcionários que saem, há um processo de demissão voluntária e de não contratação”, se preocupa Janeide. A visibilidade do projeto Diversidade étnica: brincadeiras, jogos, danças e histórias deu um fôlego a mais para as mobilizações em prol da Creche da USP.

Assista aqui o documentário do projeto Diversidade étnica: brincadeiras, jogos, danças e histórias

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