Boletim Arte na Escola

 

Essa cidade que não se elimina da cabeça é como uma armadura ou um retículo em cujos espaços cada um pode colocar as coisas que deseja recordar: nomes de homens ilustres, virtudes, números, classificações vegetais e minerais, datas de batalhas, constelações, partes do discurso.

Esta passagem do livro Cidades Invisíveis, do escritor italiano Ítalo Calvino, se aproxima muito do projeto Cidades Subjetivas, desenvolvido pelo professor Leandro Aparecido de Jesus. Não por acaso, o livro foi uma das inspirações do professor quando propôs para os alunos um trabalho de intervenção urbana.

Era a primeira vez que Leandro assumia uma turma de Ensino Médio e, assim como em qualquer etapa da vida estudantil, essa turma trazia novos desafios. No contexto atual, em que fervilham discussões acerca do lugar da arte no currículo escolar, o projeto do professor Leandro Jesus foi um exemplo do potencial transformador da disciplina. A iniciativa lhe rendeu o Prêmio Arte na Escola Cidadã em 2016, na categoria Ensino Médio.

O projeto aconteceu na EE Benedicto Leme Vieira Neto, localizada na interiorana Salto de Pirapora/SP. O professor Leandro conta que a cidade oferece escassas opções culturais e de lazer, essa era uma queixa constante dos alunos. Ele pensou, então, em trabalhar com a arte na rua, já que os jovens percebiam museus e galerias como espaços distantes da sua realidade, ao mesmo tempo em que não sentiam um vínculo afetivo com a cidade.

 

O professor começou o projeto Cidade Subjetiva apresentando à turma uma série de artistas que trabalham com intervenção urbana, como Ana Teixeira e Vítor Cesar, disparando uma discussão sobre o que é arte. “Houve estranhamento no começo, era algo novo para eles, as obras confrontavam a ideia que eles tinham de arte. Inicialmente, discutimos questões sobre arte e rua: qual o lugar da arte? A arte pode estar na rua? Por que o artista escolhe a rua? Como a arte interfere o cotidiano? Por que há o interesse em se relacionar diretamente com as pessoas? Já viram ou conhecem alguém que trabalha com arte na rua?”

Sugerindo que os alunos direcionassem o olhar para a própria Salto de Pirapora, Leandro levou para a aula uma seleção de 50 fotografias antigas da cidade. “Ao ver as imagens, os alunos faziam comparações de como era e como está o lugar fotografado, traziam memórias, lembranças e surpreendiam-se com imagens vistas pela primeira vez”.

A partir das reflexões em conjunto sobre Salto de Pirapora, o professor propôs à turma um projeto de cartografias afetivas, em que as memórias de cada aluno se encontrariam com as memórias da cidade. Através do My Maps, uma ferramenta do Google, os alunos deveriam marcar no mapa da cidade os lugares onde aconteceram momentos marcantes na sua história pessoal e deveriam também escrever uma frase que expressasse a importância daquele lugar. “O que esse lugar tem a falar sobre mim? Quais memórias eu tenho daqui? Que lugares da cidade marcaram a minha vida?”, foram questões que o professor ativou nos estudantes. “No início, percebi que era difícil para alguns alunos compartilharem suas lembranças, falarem dos lugares que fazem parte das suas histórias, daquilo que lhes é importante. Mas ao escutarem os primeiros relatos, foram ficando mais à vontade. O trabalho fez com que os alunos se conhecessem mais e aproximou a sala”.

 

Essa rua pra mim é saudade

O próximo passo foi transformar as frases em cartazes e espalhá-los pela cidade. O formato escolhido não poderia ser mais próximo dos jovens – os alunos usaram hashtags e uma estética de internet para compor os cartazes. A ideia era que cada um fizesse um lambe-lambe com a sua frase-cartaz, colando no exato local onde aquela memória aconteceu. “Essa rua pra mim é saudade”, foi o que aluna Gabriélly Santos Rodrigues colou em um poste, na rua que despertava nela as lembranças da avó.

O grupo precisava se locomover pela cidade para colar os cartazes nos diferentes locais. Os alunos sugeriram, então, o “trenzinho” – um meio de transporte utilizado para transportar crianças em passeios por Salto de Pirapora. Essa decisão, que a princípio não estava nos planos, agregou ao tom do projeto porque aflorou mais memórias de infância nos alunos.

As intervenções foram feitas em vários pontos da cidade. No cemitério, na rodoviária, no ginásio, no posto de saúde, nas praças. O projeto ganha uma nova potência no momento em que os lambe-lambes estão dispostos pelas ruas, porque as reflexões sobre o cotidiano da cidade contagiam também os passantes. Os moradores de Salto de Pirapora sofriam um pequeno deslocamento na sua rotina quando se deparavam com as frases coladas. “A intervenção urbana funciona como algo questionador e cria novas possibilidades de olhar a paisagem das cidades. Acreditamos que os nossos cartazes são capazes de estimular as pessoas a repensarem sua relação com os espaços, ativam lembranças, provocam sensações e estranhamentos”, coloca o professor Leandro.

Ao cruzar o mapa de suas memórias com o mapa da cidade, os alunos desenvolveram um novo senso de pertencimento com Salto de Pirapora. Os dois mapas se sobrepõe, não é possível traçar um sem o outro – essa foi a conclusão do grupo nesse projeto de cartografias afetivas. “Antes, ao falar da cidade, os alunos estavam muito focados no que faltava, nos problemas. ‘Aqui não tem nada pra fazer’, ‘aqui é muito chato’, ‘falta isso, falta aquilo’. No decorrer do projeto, a cidade que era vista apenas pelo o que não oferecia, passa a ser olhada de outro modo. Ao ver suas histórias na cidade, o aluno passa a entender-se como parte dela. A cidade não é do outro, a cidade é dele também.” percebe o professor.

É com esse mesmo olhar que Leandro define o projeto: “Cidade Subjetiva é a cidade que cada um carrega consigo. É a cidade que está dentro de nós. É a maneira que cada aluno vê e vive a cidade”.

Assista aqui o documentário do projeto Cidade Subjetiva

Comentários Deixe o seu comentário

  • Marcos Santos, 00:31 - 22/03/2017
    Quanta potência na arte que invade as ruas espalhando afetividade, mesclando lembranças, conectando vivências de ontem e hoje e, certamente, marcando o futuro com arte... parabéns ao professor e seus alunos/parceiros nas ações. Show!
  • Rosane romajini, 16:31 - 20/05/2017
    Maravilha saber que a cidade Real e a cidade efetiva encontram-se na escola para dela sair novamente. A cidade é texto o tempo todo. As escolas não costumam ver a cidade como parte da vida dos alunos. Parabenizo este belo projeto que mereceu o prêmio . Uma coisa não podemos esquecer jamais é Que antes dos alunos serem alunos, antes das pessoas serem pacientes de uma unidade de saúde, antes de tudo, as pessoas são moradoras de uma rua, de um.bairro e de uma.cidade. Olhar para isso pode mudar as relações escola - aluno, escola - cidade. Grande abraco.

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