Boletim Arte na Escola

Andrea do Carmo Camargo*

 

O projeto Teatro de Sombras, tema deste artigo, foi desenvolvido na Escola de Educação Básica Nai Molina do Amaral, em 2016. O objetivo central, que motivou a proposta, era potencializar o envolvimento das famílias dos alunos no processo de ensino-aprendizagem. Com este intuito, foi fundamental atentar para o contexto social e cultural em que os alunos se inseriam, para depois elaborar as atividades lúdicas que poderiam trazer as relações familiares para dentro da escola.

A EMEF Nai Molina do Amaral está localizada na cidade de Carapicuiba/SP, que já foi considerada uma cidade-dormitório - um aglomerado urbano surgido nos arredores de São Paulo para servir basicamente de moradia a trabalhadores da capital, porque as atividades da própria cidade não eram suficientes para empregar e fixar sua população ativa. Mas Carapicuíba cresceu consideravelmente nas últimas décadas e hoje, certamente, pode ser percebida como uma cidade com caráter próprio. Cabe notar, no entanto, que é um município que não dispõe de muitas atrações culturais, os moradores têm pouco acesso à arte. Por este motivo, é importante que o ambiente escolar fomente a inclusão de linguagens artísticas no cotidiano dos alunos, dando-lhes a oportunidade de aprenderem novas referências e se expressarem, além de fazer uma provocação ao senso crítico dos alunos.

Em 2016, Carapicuíba foi uma das cidades que recebeu a modalidade semipresencial do curso Aprendendo com Arte, desenvolvido pelo Instituto Arte na Escola e pela Fundação Volkswagen. A formação continuada oferecida aos professores da Rede Municipal foi muito rica e aconteceu ao longo do ano inteiro. A formação previa um projeto final de artes que cada professor cursista deveria desenvolver na sua escola, com base nas propostas discutidas nos módulos do curso, para que aprofundassem e refletissem sobre suas vivências e práticas artísticas na sala de aula.

A proposta que estava em estudo para o projeto final de artes na EMEF Nai Molina do Amaral foi, inicialmente, motivada pela vontade de se conhecer melhor a realidade dos alunos, a comunidade no entorno da escola e o meio social que permeava esses contextos. A ideia ganhou corpo quando, em roda de conversa, os alunos manifestaram o desejo de realizar um Teatro de Sombras, a partir do contato prévio que tiveram com essa modalidade em anos anteriores, quando alguns professores abordaram a criação de personagens e cenografia. Foi o momento ideal para aprofundar o trabalho com Teatro de Sombras, porque a linguagem teatral era a proposição curricular definida para o bimestre e o projeto final do Aprendendo com Arte se iniciaria exatamente na mesma época. No mais, por que não aproveitar o ensejo dos alunos, quando um dos objetivos era, justamente, conhecê-los melhor?

O teatro é uma linguagem que ajuda a impulsionar a criação de narrativas, o recriar, o fazer-de-conta que já está intrínseco na criança, ou seja, é uma linguagem que se aproxima da sua realidade. Nesse sentido, o fato da própria turma ter manifestado interesse e sugerido o Teatro de Sombras, tornou a proposta ainda mais potente.

O filósofo e educador Paulo Freire aponta a necessidade de trazer a “realidade do aluno” para sua educação e propõe uma questão: “Porque não estabelecer certas intimidades entre saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos”? (Freire, 1996). O conhecimento do cotidiano dos alunos deve ser uma constante pesquisa na vida de um docente, o qual toma ciência de particularidades que também podem influenciar vertentes do seu trabalho. E os resultados não dependem somente da relação aluno-professor, mas também da família-escola.

No projeto Teatro de Sombras, a família foi, então, o viés adotado para se trabalhar a realidade dos próprios alunos com a linguagem teatral. No geral, independente da classe social, é notória a vida frenética que o cidadão contemporâneo leva, devido ao trabalho, estudo, falta de tempo para muitas tarefas cotidianas, porém, o pano de fundo é, em grande parte das vezes, construir e sustentar a própria família. No ambiente escolar, alguns efeitos deste mundo contemporâneo são facilmente observáveis. Em um contexto como o da EMEF Nai Molina do Amaral, percebe-se que a presença dos pais se torna gradativamente mais rara na vida escolar de seus filhos e a distância da família no ensino-aprendizagem é uma constante.

A partir desta constatação, definiu-se que o envolvimento efetivo da família seria o eixo central do projeto Teatro de Sombras, sendo que outros objetivos que guiaram o trabalho foram: coletividade, interação com os colegas, mais conhecimento do teatro como linguagem e protagonismo criativo dos alunos.

O público era de alunos do Ensino Fundamental I, mais especificamente o 5º ano. O primeiro passo foi apresentar a história do Teatro de Sombras. Acredito ser importante deixar registrada aqui a lenda de como surgiu essa modalidade de teatro: no ano 121 D.C. o imperador Wu Ti, da dinastia dos Han, desesperado com a morte de sua bailarina favorita, ordenou ao mago da corte que a trouxesse de volta do "Reino das Sombras", caso contrário seria decapitado. O mago usou a sua imaginação e, através de uma pele de peixe macia e transparente, confeccionou a silhueta de uma bailarina. Quando tudo estava pronto, o mago ordenou que no jardim do palácio fosse armada uma cortina branca contra a luz do sol e que esta deixasse transparecer a luz. Houve uma apresentação para o imperador e sua corte. Esta apresentação foi acompanhada do som de uma flauta que: "fez surgir a sombra de uma bailarina movimentando-se com leveza e graciosidade". Conta a lenda que, neste momento, surgia o Teatro de Sombras.

Conhecer a história deixou os alunos ainda mais curiosos de como seriam as apresentações no final do ano. A contextualização e fruição também se deram através de imagens e textos, de acordo com os eixos da Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa (Contextualizar, Apreciar e Praticar), os quais foram bastantes discutidos na formação Aprendendo com Arte.

Os grupos definidos tinham cinco alunos em média e cada um realizou uma pesquisa diferente. Foi na etapa da pesquisa que o envolvimento da família se fez mais potente. A orientação era que o aluno escolhesse seu parente mais velho, já que estávamos falando de uma modalidade de arte tão antiga. O cerne da pesquisa era coletar uma história/conto referente à infância do parente, para depois transformá-la em peça para o Teatro de Sombras. A ideia era que as crianças se aproximassem de gerações mais antigas e investigassem casos da família que não conheciam, para então compartilhar a história do seu ancestral com os colegas e transpor para uma narrativa teatral, que de alguma forma carregasse os sentimentos que aquela história trazia.

 

Após a coleta, cada grupo definiu a história que apresentariam. Juntos, os alunos fizeram adaptações e decidiram a quantidade de personagens e objetos que deveriam confeccionar. Projetaram com desenhos cada personagem e objeto da peça, antes de construírem de fato. Pensando no efeito das sombras, criaram cada elemento com pedaços de papéis e papelões que eles mesmos trouxeram e enroladinhos de papel para o suporte. Discutiram e definiram coletivamente quem representaria cada personagem e a responsabilidade que cada um deveria ter na apresentação. A criação coletiva e o protagonismo dos alunos eram condições para o sucesso desse trabalho. Era essencial que eles mesmos decidissem qual história queriam contar e como queriam contar. Se as decisões criativas partissem de indicações da professora, a execução estaria em desacordo com a proposta inicial, já que investigar memórias da família significava um desvendar da própria história de cada um e cabia aos alunos decidir como queriam compartilhar suas próprias histórias.

As apresentações aconteceram na sala de aula e foram emocionantes, com histórias tristes e engraçadas. A estrutura para o Teatro foi construída com canos de PVC, potes de sorvete com gesso para suporte, tecido de TNT para as “cortinas”, caixa de papelão e um abajour para a iluminação. O processo de avaliação levou em conta a participação efetiva dos alunos em todas as etapas do projeto, desde a pesquisa até a apresentação. O registro aconteceu por meio de fotografias e vídeos.

Após as apresentações, propus uma roda de conversa e os relatos foram de boas experiências, observações de erros cometidos pelo grupo e levantamento de questões para um próximo projeto. Alguns alunos comentavam sobre a oportunidade que tiveram de fazer contato, por telefone, com parentes que residem em outros Estados, por exemplo. Algo muito interessante relatado foi o encantamento com a possibilidade de ser o ator e o espectador. Enquanto docente, concluo que o projeto Teatro de Sombras foi uma experiência maravilhosa, pois tenho certeza de que algo daquele projeto ficará marcado na vida destes alunos de alguma maneira.

 

SOBRE A AUTORA

Andrea do Carmo é professora de Arte no Estado de São Paulo e no município de Carapicuíba.

Referências:

BARBOSA, Ana Mae; CUNHA, Fernanda Pereira. Abordagem Triangular no Ensino das Artes e Cultura Visuais. 1 ed. São Paulo: Cortez, 2010

CARVALHO, Dirce Helena B; Teatro na escola: Cena Contemporânea. Caderno Arte + Educação, São Paulo, Editora Segmento, n.1, mar.2015.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia : saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e terra, 1996.

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