Boletim Arte na Escola

QUE IDADE TENHO?

Foco

Demonstrar, com o corpo, a idade escolhida.

Descrição

Grupos de 5 ou 6 jogadores por vez, o resto da turma fica na plateia. Os jogadores agem como se estivessem em um ponto de ônibus. Eles aguardam sentados ou em pé, mas não devem conversar entre si. Cada jogador escolhe uma idade. Esperando pelo ônibus, sem falar, eles devem focalizar na idade escolhida e agir de acordo.

Instrução

Sinta a idade com seus pés! Com os lábios! Deixe sua coluna vertebral perceber a idade. Seus olhos. Envie a idade como uma mensagem para o corpo todo. O ônibus está a uma quadra!

Avaliação

Conversa com o grupo todo. Que idade tinham os jogadores? A plateia entendeu as mensagens? A idade estava na cabeça dos jogadores? E no corpo? 

(Jogos Teatrais – o fichário de Viola Spolin)

Ingrid Koudela é uma figura central no país quando o assunto são Jogos Teatrais e Pedagogia do Teatro. Pesquisadora e professora livre-docente nas Artes Cênicas da Universidade de São Paulo, Ingrid foi a responsável pela introdução dos Jogos Teatrais no Brasil, na década de 80. Foi ela também quem traduziu para o português toda a obra da pensadora norte-americana Viola Spolin, referência em teatro improvisacional e criadora da abordagem mais difundida de Jogos Teatrais.

O Instituto Arte na Escola conversou com Ingrid Koudela sobre os Jogos Teatrais e suas potências na educação.

 

O teatro dá margem para muitos tipos de experimentação, permite se colocar no lugar do outro. Como você percebe a forma como a linguagem teatral é trabalhada nas escolas?

Acho que muitas vezes há um problema com o conceito que se tem de teatro. Aquela visão tradicional, de que o teatro se resume a montar uma peça e apresentar em datas comemorativas, não é a melhor abordagem. Principalmente na Educação Infantil, vemos muito isso de fantasiar as crianças e elas apresentarem um texto decorado. E as crianças até gostam. Mas o que elas aprendem com isso? Essa é a questão.

Por detrás de uma encenação existe um processo, e o processo é muito importante. A referência não deveria ser o espetáculo pronto, mas aquilo que, na gênese, o Piaget define como Jogo Simbólico. Eu acho que aí está a raiz do teatro.

Podemos pensar que o Jogo Simbólico é um exercício de invenção, como um faz-de-conta? Existe essa relação direta com o brincar?

O Jogo é o próprio brincar. Mas o Piaget fundamenta o que significa esse faz-de-conta. Ele me interessa enquanto epistemólogo, alguém que estuda como se dá o conhecimento no ser humano. Essa questão que chamamos de faz-de-conta, jogo dramático, brincadeira ou brincar, é fundamentada na função simbólica, que é o que nos diferencia dos animais. Os animais não são capazes de representar um objeto ou um evento fora do aqui-agora, enquanto o ser humano é capaz de encenar, é capaz de invocar algo que está ausente.

Como explorar essa função simbólica na relação professor-aluno? O que muda quando se trabalha os Jogos com diferentes idades?

Considero muito importante observar o aluno, qualquer que seja a idade. Para crianças pequenas, é uma boa ideia evitar a noção de palco, de teatro pronto. Nessa fase de exercícios com Jogos Simbólicos, pode-se contar histórias, mas sem querer encená-las. Essas histórias vão aparecer nos Jogos das crianças, no imaginário... E acho também que as crianças é quem têm que falar quando elas querem se apresentar. Elas decidem quando o processo está maduro, percebem que esse Jogo também pode ser compartilhado com outros. Na Educação Infantil talvez prevaleça a brincadeira, como Jogo Simbólico. E então, no Ensino Fundamental, começa-se a trabalhar o Jogo de Regras. Penso que o Jogo de Regras é a base mais ampla, a partir dele é que pode ser introduzido o Jogo Teatral.

O que você chama de Jogo de Regras?

São jogos que pressupõe um conjunto de leis que o grupo deve seguir. O Jogo de Regras tem um problema a ser solucionado. Quando a gente joga amarelinha, há um problema implícito nesse jogo. No pega-pega, no esconde-esconde, enfim, há sempre alguma coisa a ser resolvida. A criança é capaz de respeitar regras e também de enxergar o outro, de criar parcerias no jogo.

Podemos considerar que o teatro, assim como o jogo, implica nessa percepção do coletivo, não?

Sim, é aí é que está o grande valor do teatro. Nessa troca, nessa negociação. O exercício da democracia não é uma coisa fácil, é algo que tem que ser aprendido e tem que ser exercitado. Acho que a questão do coletivo é uma percepção que se aguça com os Jogos Teatrais. Por princípio, o teatro não é uma arte a ser trabalhada individualmente. O teatro é o aqui e agora, o encontro. Na verdade, o teatro é um acontecimento, uma performance, e o jogo tem todas as características da performance. Uma brincadeira de roda, por exemplo, é performática e coletiva. Não dá pra brincar uma brincadeira de roda sozinho.

Viola Spolin e a Companhia de Jovens Atores – 1942

E quais são os fundamentos dos Jogos Teatrais?

Eu trabalho até hoje com o método da Viola Spolin em cursos de pós-graduação. É um método que é um anti-método, na verdade, porque ele não é normativo, ele é aberto. O método se orienta pelo que a Viola chama de foco, instrução e avaliação. O foco é a proposta a ser desenvolvida, o problema que o grupo deve solucionar, é um exercício de tornar real, o imaginário. A instrução é dada pelo coordenador do jogo, que no caso seria o professor, que observa e vai dando instruções enquanto o jogo está em movimento. No plano dos jogos tradicionais, dou como exemplo a quadrilha, em que sempre há alguém dando as instruções enquanto o grupo dança. Nesse sentido, o professor tem uma posição de jogador também. Ele joga observando e instruindo o coletivo, para alimentar o jogo. A avaliação é depois que o jogo termina. O grupo pode sentar e conversar sobre o que foi feito, o que observaram, mas nunca com critério de certo e errado. Uma coisa que a Viola Spolin fala é sobre trabalhar com o aluno onde ele está e não onde você gostaria que ele estivesse.

Os Jogos Teatrais são práticas que mexem com o corpo e isso implica em espaço. Como intervir no espaço da escola, quando a aula de teatro muitas vezes fica limitada a uma sala?

O corpo no teatro é fundamental e a fisicalização é importante nos Jogos Teatrais. Então, se eu tenho 40 alunos numa sala de aula, a rigor eu quero um espaço onde 40 pessoas possam ao menos caminhar simultaneamente, movimentar o corpo. Acho que é um problema essa questão do espaço para aula de teatro e para os jogos. Qual é o lugar do teatro na escola? Na verdade, em qualquer lugar pode-se fazer teatro. Em cima de uma árvore, num corredor, no pátio... Por que não extrapolar a sala de aula?

Assim como o espaço, o texto também costuma ser um elemento importante quando se pensa em teatro. Como o texto dramático aparece nos Jogos Teatrais?

Eu trabalho muito com o princípio da coralidade. Os Jogos Teatrais são jogos corais. Assim como há coros que cantam, acho que o teatro deve ser um coro de atuantes, ou um coro de jogadores. É aí que entra a questão do texto. Quando eu trabalho com texto nos Jogos, eu trabalho com textos narrativos, não com textos dramáticos. Acho o texto narrativo muito mais adequado, porque todo mundo pode narrar. Permite uma polifonia de vozes, enquanto que o texto dramático entra num campo mais psicológico de construção de personagem.

Arquivo pessoal de Ingrid Koudela

ILUMINANDO

Foco

Não verbalizar o assunto da conversação

Descrição

Grupo todo. Dois jogadores entram em acordo sobre um tópico secreto de conversação. Iniciam discutindo o tópico na presença dos outros jogadores, mas procuram ocultar o assunto (sem fazer afirmações falsas). Os outros jogadores não devem fazer perguntas ou suposições – eles devem entrar na conversa só quando acreditarem conhecer o assunto. A primeira dupla pode desafiar aqueles que entraram na conversa. Se eles de fato descobriram o assunto e conseguem acompanhar a conversa misteriosa, podem ficar. Se eles erraram, devem sair da conversa.

Instrução

Pensem em jeitos de conversar sem entregar o assunto! Grupo, não faça perguntas. Não tentem adivinhar em voz alta. Entrem na conversa se vocês descobriram o assunto. Deixem a conversa harmônica.

Avaliação

Qual era o assunto? Foi difícil de descobrir? Os jogadores fizeram afirmações falsas? Todos conseguiram participar? Parecia uma conversa de verdade? Por quê?

(Jogos Teatrais – o fichário de Viola Spolin)

 

Para saber mais sobre Jogos Teatrais, Ingrid Koudela indica:

Documentário

PERCURSOS da Arte na Educação: Ingrid Dormien Koudela. São Paulo: Ação Educativa, 2013. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=9TigyEiS0eg&t=34s>. Acesso em: abr. 2017.

Livros:

KOUDELA, Ingrid Dormien. Texto e jogo: uma didática brechtiana. São Paulo: Perspectiva, 1996. (Debates, 271).

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Trad. Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2010.

SLADE, Peter. O jogo dramático infantil. Trad. Tatiana Belinky. São Paulo: Summus, 1978. (Novas buscas em educação, 2 ).

SPOLIN, Viola. Jogos teatrais na sala de aula: um manual para o professor. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Revista

KOUDELA, Ingrid Dormien; CAMARGO, Robson Corrêa de (Org.). Dossiê “Jogos Teatrais no Brasil: 30 anos”. Fênix: Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 7, n. 1, jan./abr. 2010. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017.

Comentários Deixe o seu comentário

  • isabel shibuya, 10:58 - 25/04/2017
    Maravilhoso!! O teatro como um meio de comunicação e de expressão é fantástico, e o processo todo de criação ainda mais.
  • Derivaldo Alves Bezerra, 20:43 - 15/05/2017
    Comecei a trabalhar com essas turmas a 2 anos e a mudança de comportamento foi enorme. No começo foi difícil eles aceitarem, agora esta difícil eles largarem!

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