Boletim Arte na Escola

 

Insegurança, trauma, medo. Alguns temas são delicados demais de se lidar. Em um contexto de pós-guerra, crianças e jovens crescem vendo as marcas que a violência deixou e a escola não pode desviar dessa realidade. Mas como lidar com a dor dos outros?

A Bósnia e Herzegovina é o país com o maior número de minas terrestres na Europa, uma herança que ficou da guerra civil de 1992 a 1995. A estimativa é que, ainda hoje, existam 30.000 campos minados e materiais explosivos espalhados pelo país. Foi com essa urgência que surgiu, em 1996, o Genesis Project, criado na Bósnia e Herzegovina para educar crianças sobre os riscos iminentes das minas terrestres e dialogar sobre vulnerabilidade, tolerância e convivência.

Entre as diferentes ações educativas que o Genesis Project promove, o projeto de maior sucesso é chamado Dos Bonecos ao Empoderamento. Um pequeno grupo de artistas e professores de arte vai até as escolas e propõe atividades usando como linguagem o teatro, mais especificamente, o Teatro de Bonecos. De início, os atores contracenam com os bonecos uma narrativa sobre as minas terrestres e como evitá-las. Então, como uma surpresa, as crianças da plateia são convidadas a participarem da peça e contribuírem com suas questões e receios sobre o tema. Em exercícios de improvisação, os alunos interagem com os bonecos e tornam-se coautores do espetáculo. A encenação, que num primeiro momento era apenas informativa, passa então a ser uma construção coletiva pautada pelo olhar das crianças sobre esse estado de tensão.

“Nós decidimos trabalhar com o teatro porque percebemos que esse tipo de experiência com performance desenvolve o emocional, a cognição e a interação social das crianças. É uma válvula para elas se expressarem sobre uma realidade difícil. Além disso, os bonecos também têm um impacto no aprendizado, eles tornam a interação mais fácil e atiçam a imaginação e a criatividade. Os alunos se envolvem mais com o conteúdo e levam a mensagem para casa, informando seus pais sobre as condutas de segurança que aprenderam”, conta Dijana Pejić, diretora e uma das fundadoras do Genesis Project.

De 1999 a 2016, Dos Bonecos ao Empoderamento já trabalhou com mais de 100.000 crianças na Bósnia e Herzegovina. O projeto é implementado em escolas primárias, com alunos de 6 a 11 anos, nas regiões que são mais seriamente impactadas pelos explosivos. “O fato de estarmos trabalhando com crianças nessa faixa etária é uma vantagem. Essa é a idade ideal para equiparmos as crianças com habilidades emocionais para lidarem com situações de perigo e trauma”, explica Dijana.

 

A diretora conta que o projeto não acaba quando as cortinas se fecham. “Nós entregamos aos professores um ‘Manual Educativo’, composto de 6 propostas pedagógicas interativas, para que eles deem continuidade às atividades com os alunos”. As crianças mais velhas, de 8 a 12 anos, que conseguem se engajar mais intelectualmente com o tema, também se envolvem. Ao longo de três meses, elas participam de 12 oficinas criativas, que usam jogos, rodas de discussão, histórias e desenho. As oficinas procuram incentivar a educação entre pares - um modelo educativo em que uma criança ensina a outra - aflorando a empatia e o senso de responsabilidade. A educação entre pares é um modelo largamente difundido pela UNICEF, uma das principais colaboradoras no Genesis, desde o início do projeto.

“Como no teatro de bonecos, as atividades educativas que exigem interação tiram as crianças de um lugar passivo e as colocam como participantes ativos”. A ideia do Genesis é que os próprios alunos se tornem multiplicadores e ensinem outros sobre as minas terrestres. Atuando como educadores no círculo em que vivem, as crianças ganham autonomia, autoconfiança e independência. Empoderamento, enfim.

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