Boletim Arte na Escola

 

As aulas de teatro têm muito a contribuir no currículo da Educação Básica. Sem a pretensão de formar atores, a disciplina quer colocar os alunos em contato com a linguagem teatral e trabalhar processos cognitivos, inventivos e, inclusive, afetivos. Porém, a chegada da disciplina na matriz curricular, com a lei 13.278/2016, trouxe um desafio para as escolas, já que a demanda por professores é maior do que a quantidade de profissionais licenciados em Artes Cênicas. Só para se ter uma ideia, existem 99 cursos de graduação no país, número bem inferior aos registrados para outras áreas de formação, como Pedagogia, por exemplo, com 1.778 cursos, de acordo com os dados do INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira.

Como alternativa, algumas escolas tentam contornar a falta de docentes com a contratação de profissionais formados em cursos técnicos ou profissionalizantes, no geral focados na formação de atores, exclusivamente. A saída, porém, é vista com cautela. Se por um lado é melhor ter um professor com experiência na área, em vez de contratar professores com formações diversas, como Artes Visuais, Educação Física, Literatura e História; por outro, falta para esses profissionais fundamentação teórica e prática acerca das abordagens pedagógicas do ensino de teatro, especialmente no contexto escolar. O que muitos concordam, porém, é que a medida pode ser usada como paliativo a curto prazo, até que as instituições de ensino superior tenham tempo para formar novos profissionais. O prazo para as escolas se adequarem à lei 13.278/2016 é de cinco anos, ou seja, até 2021.

O que dizem as escolas técnicas

Na Escola de Teatro de Porto Alegre, por exemplo, a maioria dos alunos que procura pelo curso profissionalizante está interessada na carreira de ator. “Desconheço que algum aluno tenha ingressado na escola com o intuito de ser professor de teatro. O que acontece algumas vezes é que, pela falta de oportunidades na carreira de ator, o profissional se volta para a docência”, conta o professor e sócio da escola, Jeffie Lopes. Para ele, um aluno com registro profissional de ator pode dar aula, mas em algum momento faltará conhecimento pedagógico para lidar com crianças e jovens. “Vejo esses profissionais mais habilitados a dar oficinas livres do que assumir uma disciplina. Por outro lado, é importante o teatro estar nas escolas e os estudantes terem contato com variadas práticas artísticas.”

Lígia Cortez, professora, atriz e diretora do Célia Helena Centro de Artes e Educação, em São Paulo, concorda que o curso profissionalizante não forma professores de teatro. “Provavelmente, esse profissional vai repetir algumas aulas que teve no curso técnico, mas isso é insuficiente. Vai faltar pensamento crítico sobre a educação e, o mais importante, conhecimento sobre a responsabilidade que é estar nesse lugar”, justifica. E cita como agravante o fato de muitas escolas técnicas de teatro trabalharem na informalidade: “Elas não têm plano de ensino, burlam as regras da Secretaria da Educação, mas mesmo assim conseguem tirar o registro profissional para os alunos no sindicato. Sem receber formação adequada, é impossível esse profissional desenvolver um bom projeto de ensino dentro da sala de aula”.

A diretora do Célia Helena também enfatiza que é preciso desmitificar o ensino de teatro e propõe uma volta às origens do fazer teatral, onde a encenação acontece ao ar livre, sem palco, sem refletores. “Estamos desenvolvendo um novo curso em parceria com a Universidade de Estocolmo, com o objetivo de fazer com que o teatro seja feito fora do teatro, ou seja, fazer o professor trabalhar com o que é realmente importante, o pensamento, a reflexão, a crítica”, adianta. Só que para a proposta funcionar, Lígia diz que é preciso que as escolas também estejam preparadas para lidar com alunos mais opinantes e com mais ferramentas para exporem suas emoções, medos e insatisfações.

Busca por conhecimento

Docente Titular-livre de Teatro na Educação e diretor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Luis Claudio Cajaíba argumenta que existe uma linha muito tênue entre o fazer artístico e a aplicação pedagógica. “O professor tem a função de formar um sujeito e isso não é ensinado nos cursos técnicos. Uma alternativa é o ator trabalhar com os jogos de improvisação, que fazem parte da sua formação, mas deve buscar uma complementação teórica, aprofundando-se com artigos acadêmicos e autores como Jean-Pierre Ryngaert e Viola Spolin”, aconselha.

Cajaíba reforça que é preciso muito cuidado para não banalizar a profissão do professor de teatro, já que esse profissional tem papel importante dentro do ambiente escolar, alavancando a independência e expressão pessoal dos alunos. “Vejo, inclusive, como essencial a atuação desses profissionais em cargos de gestão e essa formação eles não recebem nem na licenciatura. Só agora o MEC está corrigindo essa falha”, destaca.

Rigor na seleção

Para o professor, ator e coordenador da Escola de Teatro da PUC Minas, Luiz Arthur, o processo de formação do ator não termina na conclusão do curso. “O aluno que vem de cursos técnicos precisa primeiro se consolidar no mercado, se aprofundar na prática da profissão, para depois reconhecer-se como um profissional capaz de ensinar o outro.” Para ele, as escolas que optarem pela contratação desses profissionais devem ser criteriosas no processo de seleção, e os profissionais, cientes de que devem aprofundar seus conhecimentos. “Lidar com o ser humano, principalmente crianças e adolescentes, é uma responsabilidade grande, por isso acredito que o profissional que desejar seguir essa carreira faça pelo menos uma pós-graduação em arte- educação”.

Interdisciplinaridade

O interesse pela pedagogia do teatro às vezes ultrapassa as fronteiras da própria disciplina. Por meio de uma pesquisa realizada entre seus professores, o Centro Paula Souza – instituição Estadual responsável por 220 Escolas Técnicas e 66 Faculdades de Tecnologia em São Paulo – constatou a necessidade de fazer um curso de formação continuada para os docentes que abordasse o uso da linguagem teatral e dinâmicas lúdicas dentro da sala de aula. O projeto, desenvolvido em parceria com a SP Escola de Teatro, teve a participação de 631 professores, sendo que desse total apenas 168 eram professores de Arte. “A procura foi 376% superior ao nosso público-alvo”, afirma a coordenadora de projetos do Centro Paula Souza, Vera Vicchiarelli, também coordenadora do Polo Arte na Escola na mesma instituição.

O projeto tinha a preocupação de empoderar professores para trabalharem a linguagem teatral, não só na aula de artes, mas como linguagem que pode permear diferentes disciplinas. O conteúdo teórico e prático também levou em conta a criação de repertório e a problematização dos temas discutidos.

“O teatro não foi utilizado só como ferramenta de aprendizagem. Acredito que ele ganhou outro status entre os professores, uma vez que o resultado obtido foi além das expectativas. Com essa formação, as estruturas de criação se voltaram para as técnicas teatrais, evidenciando ser possível esse trabalho em qualquer área de conhecimento.”

Vera conta que o curso para os professores das escolas técnicas não ficou restrito a temáticas do teatro, trabalhando também o conceito de metodologias ativas, na intenção de formar docentes mais preparados para analisarem suas próprias aulas. O sucesso do projeto foi tanto, que o curso foi reformulado e será desenvolvido em formato online, com o intuito de facilitar o acesso para um grupo maior de professores.

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