Boletim Arte na Escola

Teatro da Vertigem – intervenção Cidade Submersa, 2011

De todas as linguagens da arte, talvez o teatro seja a mais coletiva. As artes visuais, a música, a dança, todas recebem com mais naturalidade a autoria individual. É certo que o teatro pode também ser criação de um homem só. Mas a espinha dorsal do teatro é justamente o jogo de acordos entre os artistas envolvidos no processo. Nenhum ator será livre no palco se não puder participar ativamente das escolhas estéticas da peça.

No contexto da educação, esse lugar que a coletividade ocupa no teatro pode ser uma ferramenta valiosa para estimular nos alunos a formação de parcerias, a negociação das decisões e o pensar-junto. Mais do que coletiva, o teatro é uma linguagem que parte da colaboração.

Um exemplo notável de criação colaborativa é o Teatro da Vertigem, companhia paulistana que faz deste um eixo central da sua prática. O Teatro da Vertigem iniciou sua trajetória com experimentações baseadas na mecânica clássica aplicadas ao movimento do ator, que levaram ao seu primeiro espetáculo, O paraíso perdido (1992). De lá para cá, o grupo solidificou o processo colaborativo como seu modo de criação, sempre buscando ocupar a cidade de forma não convencional – um hospital, um presídio, o leito poluído do rio Tietê, em São Paulo, são espaços que o Vertigem já explorou em seus espetáculos.

“Algo que eu adoro no trabalho do Vertigem é que os atores são tão criadores quanto o diretor e o dramaturgo. O grupo é um corpo que colabora não só para o resultado final da peça, mas para a peça fazer sentido. Não dá pra dizer que há uma genialidade, o que existe é muito trabalho, muita entrega e muita gente pensando junta”, conta Eliana Monteiro, uma das diretoras do Vertigem. A companhia ainda guarda o ímpeto experimental que inaugurou o projeto, mas hoje é referência de vanguarda no teatro nacional. Para o crítico de teatro Aimar Labaki, "o Teatro da Vertigem é o mais importante grupo de teatro a surgir no Brasil nos anos 1990, é o mais sintonizado com os temas e procedimentos do teatro contemporâneo".

O processo de criação do Teatro da Vertigem, que empodera e valoriza a autonomia inventiva de cada participante, é certamente uma marca do grupo e pode dialogar de diretamente com processos de criação que acontecem dentro das escolas, na aula de teatro.

Pesquisa

Eliana Monteiro conta que na gênese de um processo de criação, nada é muito definido, nem o tema da peça, nem a direção a ser seguida. O grupo faz fóruns de discussão para levantar várias ideias. “O disparador é sempre assim, não há um tema fixo, que vem como uma imposição, todo mundo vai conversando”. E então, a conversa vai se afunilando aos poucos. Guilherme Bonfanti, Light Designer e um dos fundadores do Vertigem, chama a atenção para a relação que o grupo tem com a contemporaneidade. “É muito forte esse dado da realidade que te chama pra discutir sobre ela. Se há um tema qualquer da realidade que te toca, você leva essa ideia para o coletivo. Até que, nas discussões, acabamos definindo o caminho que vamos seguir.”

Definido o tema, parte-se então para um aprofundamento da pesquisa, com textos teóricos e diálogos com especialistas, acadêmicos ou pessoas que vivam naquela realidade que se quer abordar.

Teatro da Vertigem – espetáculo A última palavra é a penúltima, 2014

Derivas

A investigação está no DNA do Teatro da Vertigem, sendo que a pesquisa de campo é um traço forte do grupo. De acordo com o tema escolhido para a montagem, o coletivo faz imersões pela cidade, para observar de perto os fluxos e movimentações do dia-a-dia. A escolha de espaços não usuais para os espetáculos, que fogem dos palcos e ocupam a cidade, revela essa proximidade com o urbano e o interesse em intervir, provocar.

Para a criação do espetáculo Bom Retiro 958 metros, por exemplo, Eliana conta que as imersões no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, era intensas. “Nós ficávamos lá de segunda a sexta-feira, fazendo derivas, que são perambulações situacionistas. Fazíamos derivas de manhã até a noite e fomos descobrindo milhares de ‘Bom Retiros’, porque o bairro é totalmente diferente dependendo do horário do dia. A partir do que você encontrava nessas derivas, você criava um mote, por exemplo, procurar gente segurando sacolas, procurar gente que não fala, que não é brasileiro, e então você tinha que seguir essa pessoa, estudá-la. No fim do dia, na volta das derivas, o ator tinha que dar workshops para o grupo sobre as situações e personagens que observou.”

O Vertigem também fez imersões em que usava processos educativos para se aproximar das realidades que queria estudar. Foi o caso do espetáculo BR-3, em que o grupo passou um ano na Brasilândia, bairro periférico de São Paulo. A relação com a comunidade do local aconteceu por meio de oficinas experimentais de atuação, iluminação, cenografia, direção, dramaturgia, DJ, entre outras. O grupo também deu aulas de teatro para presidiários em uma enorme cozinha do Carandiru, para a pesquisa do espetáculo Apocalipse 1,11.

O resultado dessas aproximações com personagens da vida real fazem com que as intervenções do Vertigem causem no público uma confusão sobre o que de fato faz parte do espetáculo e o que pertence à vida normal da cidade. O papel do público, dos transeuntes e dos atores se misturam. A cidade vira peça e a peça vira cidade.

Experimentações

Os workshops que o grupo propõe a partir das derivas não são os únicos exercícios de experimentação. Os experimentos guiam a criação estética da montagem como um todo e isso inclui soluções criativas que potencializam o trabalho com a iluminação, com o som, os efeitos etc . “Olhar o teatro do ponto de vista do texto, da direção e do ator é uma coisa, digamos, do século passado. O teatro tem que ser visto também nas suas outras áreas de criação. Isso não quer dizer dinheiro, não quer dizer recursos. Isso significa direcionar o olhar, é uma questão conceitual”, enfatiza Guilherme Bonfanti.

E completa: “Penso que o Vertigem tem quatro questões muito fortes que orientam sua prática – a pesquisa, a investigação, a experimentação e o tempo estendido. A combinação desses fatores é o que gera descobertas. A criação é um processo, precisamos de um tempo para as ideias amadurecerem e soluções criativas surgirem.”

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