Boletim Arte na Escola

O currículo universitário está de acordo com a realidade encontrada pelos docentes, depois de formados? A formação inicial do professor é adequada para o que ele precisará na sala de aula?

Para debater o assunto, convidamos dois profissionais das Artes Cênicas, um com atuação muito significativa na universidade e outro com larga experiência na docência em escolas públicas.

 

José Simões de Almeida Júnior

Formado em Biologia e Artes Cênicas, com mestrado em Comunicação e Semiótica e doutorado em Artes. Foi coordenador de Polo na Rede Arte na Escola, Secretário da Educação e Cultura em Sorocaba/SP, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador de gestão de Projetos Educacionais PIBID/CAPES.

Quando o assunto é currículo não existem respostas simples. A formação no ensino superior em Teatro e, consequentemente, a proposta curricular, deve estar em sintonia com o campo de conhecimento específico, dialogando com a sociedade e potencializando propostas para transformá-la. Tarefa difícil, mas não impossível, pois grande parte da articulação dos saberes no teatro ocorre pela atuação e mediação do professor na sala de aula, em contato com o fazer teatral. Assim a minha resposta para esta questão é que os currículos dos cursos de licenciatura, nos quais o ensino de teatro não é um adendo do bacharelado, se apresentam em diálogo com a sociedade e são adequados à prática do professor na sala de aula. Destaco positivamente, por exemplo, os trabalhos realizados pelos licenciandos do PIBID Teatro da UFMG, UFRGS, UFBA e UFRN. Os resultados apresentados foram uma série de relatos positivos e propositivos de experiências didático-pedagógicas realizadas nas escolas da educação básica. O próprio Prêmio Arte na Escola Cidadã tem nos mostrado, ano após ano, relatos de boas práticas. Portanto, há boa formação em curso. Existe, porém, questões relacionadas às dinâmicas de funcionamento da escola que interferem nesse processo, como a falta de materiais para a realização das atividades e a desvalorização dos saberes e conhecimentos específicos das artes no currículo vigente, que se precariza ainda mais no desenho da BNCC. Podemos dizer que esta é a escola que temos, sendo que a maioria não tem espaço adequado para atividades corporais, as aulas são de 50 minutos e as salas lotadas de mesas e cadeiras. O desejo pode ser que a formação universitária se paute por esta situação real. Mas a resposta é: não! Professores de teatro não cabem em caixas. Espera-se que ao longo da formação os alunos e as alunas saibam onde vão trabalhar, conheçam a realidade da escola e os seus desafios mas, ao mesmo tempo, enfrentem e busquem transformar o espaço. Não sejam confinados. Por fim, a formação não é estanque e os futuros professores de teatro, estimulados pelos desafios, devem buscar a formação continuada.

 

 

Everton Machado

Graduado em Teatro e mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, é ator da Cia de Teatro Gente e docente há seis no Colégio Estadual Dona Leonor Calmon e no Colégio Estadual Polivalente San Diego, ambos em Salvador.

Conclui minha graduação em teatro em 2009, pela Universidade Federal da Bahia. Em 2011, iniciei minha carreira de concursado e, para minha surpresa, a sala de aula, tão projetada nas aulas acadêmicas, estava bem distante da verdadeira realidade que enfrentamos para lecionar no ensino público da periferia. Uma questão marcante no quesito formação é a falta de disciplinas que orientem o professor a valorizar a história e cultura locais. Causa um choque quando constatamos que somos obrigados a incluir nos nossos conteúdos a história e cultura africana e indígenas, mas na realidade não somos preparados na Universidade para tratar esses conteúdos. Outra observação importante é que a academia limita-se a investigar pensadores de outrora, que discutem uma realidade que não nos pertence, a exemplo do modelo de família e sua importância no desenvolvimento do educando. Nesse processo, excluímos da reflexão os filhos das famílias contemporâneas e suas variantes que não se enquadram no conceito católico de família. Nesse contexto, torna-se extremamente válida a experiência dos cursos de licenciatura com o PIBID (em 2015 fui supervisor do PIBID Teatro), pois é o aprendizado real para o professor-aprendiz pensar alternativas mais coerentes com dia-a-dia das escolas públicas, especialmente das periferias, para que sejam atrativas para o alunado, tornando mais eficaz o processo de formação do professor.

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