Boletim Arte na Escola

Conheça dois artistas-professores que utilizam o bordado como linguagem

por Fernanda Gehrke

Trabalho da artista e educadora Carmen Lazari

O bordado é uma forma de expressão que existe desde a pré-história. Nossos ancestrais utilizavam ossos de animais como agulha. Ao invés de linha, utilizavam fibras vegetais ou tripas de animais. O bordado, desde suas origens, teve função essencialmente estética, diferente de outros artesanatos têxteis.

Não é de hoje que artistas se dedicam às bordaduras com expressão poética. Mas entre a multiplicidade de linguagens que a arte contemporânea abrange, chama à atenção a recorrência de práticas de tradição doméstica, como a cestaria, o trabalho com tecidos e a cerâmica. Na arte brasileira dos anos 80 e 90, especialmente, desponta uma nova atitude dos artistas ao incorporarem práticas de tradição cultural popular, como a costura e o bordado.

Não surpreende, então, que muitos professores que seguem uma carreira artística em paralelo com a escola tenham enveredado pelos caminhos do bordado. Entre o ateliê e a sala de aula, diálogos e trocas possibilitam que uma atividade aconteça em consonância e sintonia com a outra.

É o caso da educadora paulistana Carmem Lazari. Sua produção como artista envolve três linguagens: a gravura, a fotografia e o bordado. Tudo começou em 2010, quando ela se mudou para Fortaleza/CE e começou a produzir gravuras em que eram frequentes as representações de coração e pulmão. “Nesse processo, sentia falta de cores, mas a vontade era de que as cores deveriam ter textura, daí surgiu o bordado como forma de expressão nas minhas gravuras, colocando cor, calor com linhas coloridas”, explica.

Utilizando o bordado como linguagem em sua produção poética, Carmem estende sua pesquisa para os panos de prato comprados em lojas de bairro, e também para os paninhos adquiridos na região do Cariri, no Ceará. “Eu me interesso pela forma como esses paninhos são feitos e pensados, teço verdadeiras histórias sobre eles”, revela. “Como serão essas mulheres? Será que elas têm filhos? O que elas pensam sobre esses paninhos?”.

Trabalho da artista e educadora Carmen Lazari

Para Carmem, o trabalho artístico e a atuação como educadora se complementam. “Gosto de levar meu fazer poético para os espaços de arte-educação, é importante ressaltar esses espaços de reflexão que potencializam o pensamento sobre a experiência realizada pelo artista, o compartilhamento com os ‘outros sujeitos’ vai abrindo caminhos, novas perspectivas, novos desdobramentos e vejo isso como muito importante na atual conjuntura”, explica.

Vinicius Souza de Azevedo também é um professor-artista que trabalha com bordado. Assim como Carmen, ele é um dos mediadores do curso Aprendendo com Arte, desenvolvido pelo Instituto Arte na Escola em parceria com a Fundação Volkswagen. A produção artística de Vinícius volta-se para a cultura popular, especificamente. Em seu doutorado, ele pesquisa o potencial da prática com o bordado na formação de professores de arte. “Desde a adolescência, eu frequentava ateliês de arte, comecei a desenvolver trabalhos numa linha poética própria. Logo no início da graduação, comecei também a me interessar pela educação e fui fazendo estudos paralelos e empreendendo experiências neste campo também”.

Na opinião de Vinicius, a relação entre o trabalho artístico e a arte-educação é, necessariamente, de complementaridade. “Toda a minha experiência artística entra em cena quando estou envolvido em processos pedagógicos no campo da arte e vice-versa. Quando mergulho em um processo criativo, o percurso como educador amplia, dinamiza e orienta o trabalho. Mas eu gosto de pensar essas duas dimensões como uma mesma coisa, quer dizer, não há um artista e um educador, mas um artista que ensina/aprende e um educador que produz arte. É nesse imbricamento que está o sentido do meu fazer, do meu pensar e dos meus projetos como um todo”.

Em suas práticas educativas, Carmem e Vinicius buscam alimento para os projetos autorais. Carmem lembra-se com carinho de um projeto em São Paulo, em que deu aulas de bordado para crianças de 5 a 7 anos. “A proposta era simples: pensar e fazer um desenho e depois bordar. Meninos e meninas estavam animados em fazer o seu bordado, e durante os encontros, na hora do bordado surgiam conversas, falamos de gênero, de amor, de comida, das avós, da existência ou não de Deus. Surgiu a ideia de fazermos pequenos travesseirinhos com os bordados e criamos com essas linhas laços relacionais de afeto entre nós.”

Vinicius se recorda do trabalho que realizou durante onze anos no Complexo de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro. “Foi uma experiência riquíssima que definiu a minha prática como artista e como educador. Primeiro atuei como professor em oficinas de artes visuais em um projeto que acontecia dentro das escolas públicas da favela. Mais tarde, assumi a coordenação de todas as oficinas de artes nessas escolas, que ia desde desenho, graffiti, passando pelo circo, dança contemporânea, música, Maracatu e outras mais. Foi um grande aprendizado! Pensar, fazer e trabalhar junto com todos esses professores redefiniu várias das minhas concepções sobre arte, escola, conhecimento e experiência”.

Para Carmem e Vinícius, é fundamental que a arte faça parte da educação. Ambos os artistas utilizam o bordado também como instrumento pedagógico. “Arte na educação é favorecer a imaginação criadora, enfrentar desafios, se lançar num desconhecido, ter um processo ativo, vincular os sujeitos ao objeto do conhecimento numa construção que faça sentido”, defende Carmem.

E Vinícius completa: “A arte é um campo de conhecimento que trabalha de forma intrínseca com a subjetividade, com os processos perceptivos sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre os outros. Provoca olhares e relações do sujeito com o significado das coisas, tanto nos processos de criação, em que esses sujeitos se encontram com seus limites, suas vontades; quanto em movimentos de aproximação e vivência do incomensurável repertório cultural produzido pela humanidade em toda a sua história e nos mais diversos lugares. Vista dessa forma, a arte é um contundente processo de humanização”.

Trabalhos do artista e educador Vinícius Souza de Azevedo

Comentários Deixe o seu comentário

  • Luigina Lucia Palermo Antas, 01:15 - 19/08/2017
    Lindo! Parabéns! As texturas visual e tátil dessas obras de arte , são encantadoras. Este caminho do bordado, promove à criança/adolescente um caminho colorido entre pontos e linhas. Segundo Jung, (...) na medida em que as imagens , vão sendo reveladas e integradas, a pessoa se reestrutura e altera os seus modos de agir. Ou seja, transforma suas emoções e conectasse consigo mesmo.
  • Leda, 22:48 - 05/09/2017
    Amei muito bomz

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