Boletim Arte na Escola

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A pergunta foi um ponto de partida para o trabalho O nome do medo, de Rivane Neuenschwander. Em 2016, a artista mineira desenvolveu oficinas com 198 crianças, de 6 a 13 anos, em escolas públicas, privadas e abrigos do Rio de Janeiro. O projeto durou três meses e aconteceu em parceria com a Escola do Olhar do MAR - Museu de Arte do Rio e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, dirigida por Lisette Lagnado, que também foi a curadora da exposição O nome do medo que esteve no MAR em 2017.

O embrião do projeto é o interesse da artista em listar e colecionar medos de crianças. O nome do medo reflete a inclinação de Rivane em pesquisar temas da psicanálise, especialmente as linhas de convergência entre seu próprio processo criativo e as subjetividades dos outros. Como sugere o título, o projeto gira em torno da questão do medo, e considera como o medo pode ser traduzido através da linguagem, dos desenhos, do corpo e dos objetos.

Tudo no projeto começa e termina com as crianças, que a partir dos seus medos, projetaram e fabricaram capas protetoras. Para que os alunos assumissem essa posição de autores das suas capas, foi necessário que o projeto assumisse um formato processual, em várias etapas. Formato este que pode se aproximar muito dos projetos realizados nas aulas de artes, ao longo do semestre.

O projeto dialoga com a criança na elaboração de seus conflitos e questiona as origens psíquicas e sociais do medo. Rivane explica que “a oposição entre brincadeira e violência faz com que esse trabalho ofereça condições singulares para que a criança manifeste seus anseios e temores, para que os adultos reavaliem tanto a infância quanto a exposição cotidiana da criança à brutalidade, e, ainda, para repensarmos como o medo decorre de um tipo de afeto coercitivo dentro da sociedade”.

O trabalho combinou elementos de desenho, tecido, moda, performance e textos. Na primeira etapa do projeto foi introduzida a questão do medo com as crianças. Logo no início das oficinas, as crianças, a artista, a curadora e os professores conversavam em roda acerca do tema, com apresentações que mostravam exemplos de capas em diversos contextos, do universo cultural ao biológico, além de obras de artistas de diferentes origens.

Em seguida, os alunos eram convidados a listarem por escrito seus medos. Considerando o conjunto de listas feitas pelas crianças em todas as oficinas, era significativo notar como vários medos se repetiam. Rivane observa também que “os menores tinham medos mais comuns, como vulcão, fantasma, zumbi. A medida que as crianças vão crescendo, os medos vão se complexificando, provavelmente com o embate social. Então, o projeto quis trazer todo esse universo dado pela faixa etária e pela faixa social. Contemplar a instância psíquica, mas também a instância social”.

Cada criança devia então, a partir da sua lista, escolher um só medo para se proteger. Os alunos fizeram desenhos para projetar como deveria ser a capa protetora. E por que fazer capas? A intenção era não separar a ideia de medo da ideia de proteção. Especialmente tratando-se de crianças, já que uma criança sem medo está, inevitavelmente, mais exposta ao perigo.

Baseados na visão íntima que cada um tinha de perigo, os alunos usaram os desenhos como modelos para confeccionarem capas com dupla função: proteger, ao mesmo em que acolhiam o medo. “Há uma ambiguidade no medo”, pondera Rivane, “ele pode paralisar, dependendo da proporção, mas também pode proteger. A capa tem essa função, de abrigar ou de combater o medo”. Foi oferecida uma gama diversa de tecidos para a fabricação das capas, de forma que os alunos podiam explorar diferentes texturas, cores, tamanhos e formatos.

Fotógrafo: Richard Eaton

Finalizadas as capas-fantasias, algumas escolas montaram desfiles para as crianças exibirem suas produções. No final do processo, todos os alunos eram fotografados e levavam sua capa para casa. Os desenhos e as capas produzidas nas oficinas forneceram o material imagético e simbólico para a mostra O nome do medo, que esteve no Museu de Arte do Rio em 2017. O fashion designer Guto Carvalho Neto foi parceiro no projeto, convidado para traduzir as produções das crianças e confeccionar as 32 obras-vestimentas que compuseram a exposição.

Os medos são muitos, tão diversos quanto são as infâncias. Eles vêm do mundo interno e externo, mudam de acordo com a realidade social de cada criança, ao mesmo tempo em que podem ser comuns para todos – adultos inclusive. Certamente, o projeto de Rivane Neuenschwander vai além do âmbito do museu de arte e conecta-se com processos muito pertinentes para a educação em artes, direcionando o foco para múltiplas subjetividades dos alunos

O nome do medo | Rivane Neuenschwander from EAV Parque Lage on Vimeo.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Diana Ribeiro, 12:29 - 21/08/2017
    Fiquei encantada por este trabalho. Sou professora de artes e sempre nas minhas aulas procurei associar a arte às questões humanas, ao corpo e às emoções. O medo está em todos nós. Representá-lo esteticamente, me parece uma forma de superação ou ainda a criação poética sobre algo que as vezes nos domina e ameaça ser superior a nós mesmos.Transformar medo em poesia é lançar luz à escuridão.Obrigada Rivane. Me permita recriar sua proposta e incluí-la no meu repertório. Beleza?

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