Boletim Arte na Escola

Profª. Aline Penhas Pinheiro

Uma proposta que tem a matéria Tecido como convite para a arte,
aqui entendida como brincadeira,
caminho de pesquisa e desenvolvimento sensorial.

O projeto Fabrincando com Tecidos foi proposto para a área de Linguagem Plástica, na Escola Eduque, Zona Sul de São Paulo. O trabalho foi desenvolvido com crianças de 2 a 3 anos, no contraturno - período complementar que envolve momentos de cuidados e brincadeiras, vinculados ao currículo escolar.

O projeto teve como foco a pesquisa da matéria Tecido, em toda sua natureza. A percepção das características da matéria, como cor, textura, espessura e maleabilidade, deu-se por meio de brincadeiras, momentos de expressão e promoção de situações que instigassem o imaginário das crianças. A materialidade é um dos territórios da arte bastante explorados na Educação Infantil. Na aula de artes, a matéria foi uma base que pôde ser transformada, manipulada ou controlada para que colocássemos todas as ideias em prática.

O intuito do projeto era proporcionar explorações diferentes das que os alunos já vivenciam em sala de aula. As crianças já têm contato com os tecidos em outros momentos, como brincadeiras e fantasias. Mas o foco desta proposta era perceber o tecido, propriamente dito, como material de investigação.

O projeto aconteceu em cinco etapas, nas quais tecidos, obras e artistas foram apresentados às crianças, demarcando assim a metodologia do projeto: apresentação, exploração, brincadeira e criação.

Como podemos transformar o tecido? A questão foi o ponto de partida de cada etapa e, semanalmente, as crianças foram convidadas a brincar e perceber características e possibilidades de diferentes tecidos: manusear, sentir, cheirar e tocar o algodão cru, lycra, juta, chita, tnt e tule. Além disso, a cada encontro, as crianças entravam em contato com obras de artistas que usam o tecido como matéria: Hélio Oiticica, Lygia Pape, José Leonilson e Leda Catunda. Vídeos, imagens e a biografia dos artistas eram apresentadas em uma roda de conversa e fixadas no mural processual, construído ao longo do trabalho com as crianças para registrar toda a proposta: vivências, percepções e nutrições estéticas.

Mapa conceitual do projeto

1ª etapa: Apresentação do projeto

Na roda de conversa, perguntamos: “Vocês sabem o que é um tecido? Para que serve um tecido?”, e a partir daí uma criança associou o material ao varal da sua casa: “Tecido é o que minha mãe pendura no varal, não é?”. Diante desta percepção, alteramos a forma de apresentação do projeto. Os tecidos passaram a ser apresentados ao grupo em um varal construído pelas próprias crianças, com linha, pregadores, tecidos, barbantes e elásticos, trazendo pertencimento e protagonismo ao grupo.

Todos os tecidos ficaram à disposição das crianças no varal, para que percebessem as características. Por exemplo: os mais pesados precisavam de muitos pregadores e ajuda de todos para pendurá-lo, já os mais leves precisaram apenas de um pregador.

2ª etapa: Algodão cru e a artista Leda Catunda

Na conversa sobre as obras da artista Leda Catunda, as crianças entraram em contato com o algodão cru. Desde as primeiras brincadeiras, elas perceberam as características: espessura mais grossa, pesado, bege (cru) e assim, esconderam-se, brincaram de fantasma e cabo de guerra; amarraram um tecido no outro para pular corda e, ainda, enrolaram os amigos. No primeiro momento a brincadeira era livre e o educador apenas obervava as crianças e as possibilidades ditas por elas. A partir daí, outras brincadeiras e explorações foram propostas aos alunos. Depois de explorar e brincar, as crianças pintaram o tecido para transformá-lo em “tapetes de parede”, como nas obras de Leda Catunda.

3ª etapa: Lycra e a artista Lygia Pape

Em um ambiente ao ar livre, amarramos elásticos nos bancos e penduramos lycras de um lado a outro do varal, para introduzir às crianças o tecido e a artista Lygia Pape, em especial a obra Divisor (1968), que influenciou todo o percurso desta etapa.

A obra da artista foi apresentada com os alunos em roda, e perguntei para as crianças: “Com o que se parece? O que vocês estão vendo nesta obra? Ela é colorida?”.

Ao longo dos encontros, um grande trem de lycra foi confeccionado pelas crianças e, assim como na obra de Lygia Pape, apenas as cabeças apareciam. A brincadeira de andar de trem pela escola envolveu outros grupos e também os profissionais, que recebiam as crianças sempre com muita alegria e curiosidade para saber do que elas estavam brincando. O primeiro passeio de trem contagiou todos que estavam na escola naquele dia, pedindo para entrar no trem e passear junto com os alunos. Diante dessa nova possibilidade de interação com a comunidade escolar, outras crianças e funcionários passaram a ser convidados para participar nas etapas seguintes do projeto.

4ª etapa: TNT, Tule e o artista Hélio Oiticica

Dois tipos de tecidos com transparências diferentes – o TNT e o Tule - foram apresentados para que as crianças pudessem compará-los: “Este tecido rasga”; “É transparente”, “Não dá para se esconder”, foram algumas das percepções.

Por meio de um vídeo as crianças conheceram os Parangolés, de Hélio Oiticica. A ideia de poder vestir-se com uma obra de arte envolveu o grupo e cada criança confeccionou seu próprio Parangolé com uma camiseta trazida de casa, explorando diferentes técnicas artísticas: pintura em lambe-lambe, colagens com fitas e retalhos, desenho. Mais uma vez, um desfile pela escola envolveu todos com a brincadeira de vestir arte.

5ª etapa: Chita, Juta e o artista José Leonilson

A abundância de cores e a maciez da Chita foram apresentadas ao lado da aspereza da Juta, ampliando o repertório de sensações das crianças, que questionavam sobre as características de cada um dos tecidos: “Nossa, este tecido tem um cheiro ruim e espeta minha mão”, referindo-se à Juta.

Nesta etapa, os tecidos foram usados para esconder, cobrir objetos e pessoas da escola, inspirados na obra de Leonilson.

Depois de conhecer mais alguns tecidos, por meio de uma votação, as crianças escolheram o TNT para confeccionar a sacola que seria levada para casa com as atividades realizadas no projeto. Em roda, mostrei a sacola já costurada e deixei que a crianças brincassem livremente no primeiro momento. Depois, disponibilizamos pregadores, bacias e um varal para que as crianças pendurassem as sacolas. Realizamos uma pintura com tinta Puff, que com o ar quente do secador ficou “fofa”. As crianças se encantaram com a experiência de secar a tinta e transformá-la.

Os alunos se envolveram com as obras e com os artistas durante todo o processo. Cada vez que passeavam pela escola, onde nosso mural processual estava exposto, os alunos faziam comentários para os amigos que não eram do período complementar: “Você conhece este artista? Ele faz arte com tecido!”.

Nas mãos de uma criança, um pedaço de tecido pode se transformar em muitas coisas: roupas, trens, máscaras, cabanas, obras. A arte e a brincadeira permearam todos os momentos, para que as crianças observassem as propriedades de cada retalho, mergulhando na materialidade dos tecidos e os transformando em registros de experimentos artísticos, que foram compartilhados com toda a escola e reverberaram nas famílias, as quais trouxeram pontuações sobre o que as crianças comentavam em casa.

Bibliografia

Livros:

BARBIERI, Stela. Interações: onde esta a arte na infância? Coord. Josca Ailine Baroukh. São Paulo: Blucher, 2012. (Coleção Interações).

HOLM, Anna Marie. Baby-art: os primeiros passos com a arte. São Paulo: Museu de Arte Moderna, 2007.

MARTINS, Mirian Celeste; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, M. Terezinha Telles. Didática do ensino de arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998.

WAJSKOP, Gisela. Brincar na educação infantil: uma história que se repete. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2012. (Questões da nossa época, 34).

Site:

ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural Artes Visuais. Disponível em:
< http://enciclopedia.itaucultural.org.br/busca? categoria=artes-visuais >. Acesso em: jun. 2017.

Comentários Deixe o seu comentário

  • olinda schauffert, 20:06 - 05/09/2017
    Trabalho maravilhoso! Parabens Arte na Escola e professora Aline. Ministro a disciplina Elaboração Conceitual Arte na UNIVALI, curso de Pedagogia e utilizei este trabalho como referência para uma de minhas aulas. Obrigada.

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