Boletim Arte na Escola

por Cecilia Bracale

Durante o período ditatorial no Chile, que tem início na década de 70, emerge de dentro do ambiente doméstico um importante movimento de resistência feminino, conhecido hoje como as Arpilleras Chilenas.

Originalmente, a arpillera é uma peça de tapeçaria artesanal montada em um suporte de pano rústico - a juta. Advinda dos sacos de batata ou farinha, a juta em espanhol se chama “arpillera”, por isso dá nome à expressão popular. Toda a costura no tecido é feita à mão, sendo às vezes adicionados fios de lã para realçar o contorno das figuras. Também é comum a aplicação de elementos tridimensionais, como bonecas ou pedras.

As arpilleras remontam a uma antiga técnica regional de aplicação pictórica de Isla Negra, pequena cidade costeira no Chile. Tornam-se instrumento de resistência a partir do momento em que as mulheres se apropriam deste elemento para dar voz às agruras e violações dos direitos humanos impostas pelo regime ditatorial. As cenas e apelos costurados ganharam tal visibilidade que hoje são um registro fundamental da memória histórica chilena. Atualmente, a importância das arpilleras no país faz com que inúmeras escolas e projetos educativos chilenos adotem essa linguagem para abordar com os jovens questões sobre identidade, memória e expressão pessoal.

O movimento de trazer à luz reivindicações através de algo aparentemente tão inócuo como o bordado, já é em si um ato de protesto e pode ser uma ferramenta valiosa para dar vazão às urgências dos alunos. Para além das reivindicações, é importante também contextualizar junto aos jovens que as arpilleras abriram novos caminhos de empoderamento para aquele grupo de mulheres, que conquistou espaço fora da invisibilidade doméstica. A partir do trabalho de criação com bordado, as chilenas reivindicaram um novo papel social.

Originalmente, as oficinas de arpilleras foram criadas sob o viés da subsistência, já que muitos dos homens, antes provedores da casa, estavam desaparecidos, presos ou desempregados por conta da crise instaurada pelo regime, e era necessário que a mulher assumisse a responsabilidade econômica da família. Na medida em que o sentido de protesto daqueles bordados se intensifica, as mulheres começam a usar retalhos das roupas dos próprios parentes desaparecidos.

Histórias bordadas

A partir de memórias silenciosas trazidas à tona no tecido, as artesãs se tornavam protagonistas costurando suas narrativas poéticas. A folclorista chilena Violeta Parra se dedicou a este trabalho e ajudou a difundi-lo, expondo uma série de arpilleras no Pavilhão Marsan do Museu de Artes Decorativas do Louvre, em 1964. Para Violeta, “as arpilleras são como canções bordadas”, uma linguagem que transmite histórias e ideias de forma muito peculiar.

Em meados de 2016, nasce no Chile um coletivo que leva para escolas e outros espaços educativos esta potência transformadora da costura, aproximando a linguagem de crianças e jovens. O coletivo Memorarte: arpilleras urbanas aborda as arpilleras com uma perspectiva contemporânea, mantendo o compromisso de difundir e fomentar esta forma de expressão como ferramenta de resgate da memória e defesa dos direitos humanos. O grupo trabalha na esfera educativa desenvolvendo oficinas e colocando em discussão pautas atuais, através da técnica de bordado.

Erika Silva Urbano, diretora do grupo, acredita que ao contarem suas versões e suas histórias, os jovens podem se transformar através da arte. Este processo de empoderamento passa necessariamente pela construção de um espaço educativo em que haja liberdade para as múltiplas vozes do grupo. O projeto Memorarte considera, ainda, que um ponto fundamental das arpilleras é que versam sobre o momento presente, e fazem isso por meio da construção de narrativas pictóricas – tanto históricas, quanto pessoais. As arpilleras são registro, mas também instrumento de transformação pessoal e social.

Por se tratar de um fazer coletivo, as oficinas de arpilleras propostas pelo Memorarte se constituem como um espaço de troca e discussão de temas urgentes. Institui-se um espaço social em que os estudantes podem construir uma narrativa em comum. Esse cenário favorece todo o processo educativo. A força das arpilleras reside no fato de darem voz a quem normalmente está invisível diante da esfera pública. Está, também, no fazer coletivo e na criação de espaços de encontro e está, sobretudo, no uso da memória como elemento transformador.

O vai e vem entre o fazer coletivo e a busca íntima de expressão em cada trabalho, a partir do próprio repertório, transformam este processo em um exercício libertador de construção de identidade e, portanto, de autonomia. Em tempos de posts e likes efêmeros e superficiais, perceber a potência da linha que atravessa o tecido intimamente, dentro de seu próprio ritmo e narrativa, talvez sirva de alerta sobre como estamos tratando nossa memória, este instrumento histórico tão fundamental na construção de identidades e narrativas coletivas, bem como de transformação social.

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